
O Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu abriu o acervo digital para acesso público e gratuito, reforçando a importância da preservação da memória e da história como pilar da cidadania. O lançamento foi marcado por homenagens e reconhecimentos, na última quarta-feira, 26, no Mercado Público Barrageiro.
São quase 20 mil páginas de jornais, revistas e publicações editadas ao longo de seis décadas, entre 1953 e 2019, que retratam fatos, personagens e anseios que expressam a dinâmica da cidade em diferentes períodos históricos. O acervo está disponível em museudaimprensafoz.com.br. A iniciativa é da Associação Guatá — Cultura em Movimento, com apoio da Itaipu Binacional.
O evento reuniu depoimentos e resgates feitos por pessoas ligadas aos jornais antigos que integram o acervo: Salmir Lobato, filho de João Lobato, proprietário de A Notícia, da década de 1950; Pedro Cristo, filho de Ignez Sanchez de Cristo, proprietária do Mini Informativo; Hamilton Mito Luiz Machado Nunes, filho de Almir Nunes, proprietário do Jornal de Foz; Aluízio Palmar, do Nosso Tempo; e Rogério Bonato, do Diário da Cidade.
Decano da imprensa local, o jornalista Chico de Alencar recebeu homenagem in memoriam, com texto lido pela filha, Adriana Vecchi de Alencar, reconhecimento extensivo a todos os profissionais da imprensa. Juvêncio Mazzarollo, um dos editores do Nosso Tempo, foi lembrado com a exibição de um trecho de documentário. Nadir Almeida, o “Chula”, representou gráficos, diagramadores e revisores, essenciais na produção jornalística.
Ampliando o leque da memória coletiva iguaçuense, a importância dos operários que construíram a usina para Foz do Iguaçu foi simbolizada na memória do barrageiro Geraldo “Feijão” de Andrade, falecido neste ano. Pioneiros da cidade e seus familiares também foram homenageados por meio do grupo Causos de Foz, que é mediado por Rita Araújo.
“Em nome da família, fico orgulhoso e feliz com este museu virtual, que permanecerá acessível a todos, e parabenizo pelo trabalho”, afirmou Salmir Lobato, em depoimento em vídeo. “E que em breve o projeto também possa virar um museu [físico] da cidade”, completou.
O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, enfatizou a importância do museu como instrumento de cidadania e conscientização para valores democráticos. “Resgatar e manter viva a nossa história é um trabalho fundamental, e a partir dela projetar o futuro. Por isso, é um grande prazer fazer parte desse projeto.”
A reitora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Diana Araujo Pereira, destacou a relevância de construir equipamentos locais de memória e história. “Temos agora um Museu da Imprensa qualificado, com material valiosíssimo para toda a cidadania e para a pesquisa acadêmica”, afirmou.
Memória de Foz do Iguaçu
O Museu da Imprensa nasce com o propósito de contribuir para o resgate, a valorização e a promoção do patrimônio histórico e cultural de Foz do Iguaçu, somando-se a outras iniciativas realizadas pela comunidade. Como espaço vivo, poderá incorporar novos acervos e títulos.
“O projeto rende homenagem a todos os profissionais da imprensa e às pessoas de alguma forma ligadas à comunicação”, destacou Alexandre Palmar, presidente da Guatá e coordenador do Museu da Imprensa. “Mas, sobretudo, queremos estimular que o morador de Foz do Iguaçu utilize essa ferramenta para conhecer e compreender melhor a cidade, leitura que certamente ajuda a interpretar o presente e pensar o futuro.”
Acervo
A primeira coleção disponível reúne 21 títulos digitalizados, totalizando 1.009 edições e mais de 18,6 mil páginas. Entre os veículos estão os jornais A Notícia, O Trabalhador, O Jornal de Foz, Mini Informativo, Binacional, Hoje Foz, Informativo Unicon, Nosso Tempo, Pensamento Acadêmico, Diário da Cidade, Ponte Tancredo Neves, Canal de Aproximação, Mega News, Ponte da Amizade, Jornal de Itaipu e Jornal dos Bairros, além das revistas da Aculfi/Cabeza, Fitur, Mosaicos e Escrita, e do livro Foz do Iguaçu Retratos.
Projeto da Guatá, com apoio da Itaipu Binacional, o Museu da Imprensa conta com apoio institucional do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, Kunda Livraria, Associação dos Diários e Portais do Interior do Paraná (ADI-PR), Folha de Londrina, Associação Nosotros e Documentos Revelados.
Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu
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Alessandra Del'Agnese
Crônica – A Jaula é do lado de fora. ( caso da Leoa de João Pessoa).
Era uma vez um menino que queria domar leões. Esta é a única verdade que importa, no fim de tudo. Enquanto a cidade de João Pessoa se espantava com a notícia do “vaqueirinho”, do “invasor”, do “rapaz que pulou a cerca do zoo para entrar no cercado da leoa”, nós, na nossa sofisticada cegueira urbana, víamos apenas mais um ato de insanidade. Um espetáculo de horrores para ser consumido entre um café e um scroll na tela do celular.
Mas a história de Gerson, o menino de 19 anos, não começou naquele cercado. Ela começou muito antes, num lugar mais perigoso e sombrio que qualquer jaula: o abandono.
Enquanto nós discutimos a altura da cerca, o menino Gerson já vivia há anos saltando abismos muito mais profundos. Filho de uma mãe com esquizofrenia, neto de avós também “comprometidos na saúde mental”, como dizem os relatórios sociais com uma frieza que gela a alma. Ele não foi apenas pobre. Ele foi pobre de tudo. De pão, de afago, de presente, de futuro. Sua infância foi uma sucessão de “violações de direitos”, um eufemismo burocrático para dizer que lhe roubaram a infância, a segurança, a sanidade.
E no meio desse deserto emocional, brotou um sonho impossível, belo e trágico: ir para a África domar leões. O sonho de um menino que, talvez, quisesse domar a própria fera que rugia dentro de si, a fera da herança genética, a fera da negligência, a fera do desamparo. O leão de verdade, na jaula, era apenas um símbolo exterior de um monstro interior que ele já conhecia intimamente.
Nós, a sociedade, somos especialistas em ver as grades. Vemos a grade que ele pulou. Não vimos as grades invisíveis que sempre o prenderam. A grade da pobreza extrema, que é uma jaula de aço. A grade da doença mental não tratada, que é uma jaula de espelhos distorcidos. A grade do abandono afetivo, que é a mais solitária de todas.
Gerson não era um aventureiro. Era um náufrago. E seu ato desesperado não foi uma invasão ao espaço da leoa; foi um grito abafado, um pedido de socorro escrito com o próprio corpo, num palco de concreto e grades, para uma plateia que só sabia apontar o dedo e filmar com o celular.
É mais fácil trancar o “louco” do que encarar a loucura de um sistema que deixa seus filhos mais frágeis definharem à própria sorte. É mais cômodo acreditar que ele é um “caso”, uma exceção, um problema de segurança do zoo, do que admitir que Gerson é o produto lógico, quase matemático, do nosso fracasso coletivo.
Ele não queria matar a leoa. Ele queria, no delírio de sua mente febricitante e desprotegida, realizar uma proeza. Queria ser, por um instante, o herói de sua própria história trágica. Queria domar o indomável, talvez na esperança ingênua de que, domando a fera de fora, pudesse finalmente silenciar as de dentro.
A verdadeira ferocidade não estava na leoa, assustada em seu recinto. A verdadeira ferocidade é a que permitiu que um menino doente, um menino que “sofreu todo tipo de violação de direito”, chegasse aos 19 anos sem um amparo, sem uma rede, sem uma chance, a não ser a chance derradeira e teatral de pular uma cerca para ser visto.
No fim, Gerson conseguiu. Ele domou a atenção de uma cidade inteira. Por alguns dias, ele não foi invisível. Foi notícia. Mas que tipo de tribo somos nós, que só enxergamos nossos filhos quando eles se jogam na jaula dos leões?
A história de Gerson é um espelho quebrado refletindo nossa própria imagem distorcida. Ela não fala sobre a ousadia de um jovem. Ela grita sobre o silêncio de uma sociedade que ergue cercas para se proteger dos sintomas, mas é conivente com as causas. A leoa está a salvo. Quem precisa ser salvo, urgentemente, é a nossa humanidade.
Alessandra Del’Agnese