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Cláudio Osti

Não teria nenhum motivo particular para votar no Lula, porém…

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*Mário Bortolotto: A foto é de 85 quando a gente morava em uma república e comia arroz com vinagre
*Mário Bortolotto: A foto é de 85 quando a gente morava em uma república e comia arroz com vinagre

Por Mário Bortolotto

Quando eu tinha 20 anos, vim para São Paulo pela segunda vez e entrei também pela segunda vez em um curso de teatro na Contemporânea Escola de Artes. O professor de interpretação ficou sabendo que eu escrevia e me pediu pra ler um texto meu. Passei pra ele o texto que havia acabado de escrever. Era ainda um texto bastante imaturo, mas na época eu não sabia disso. Mas apesar de ser bastante imaturo reconheço que já estava lá o mesmo pensamento que tenho até hoje, ou pelo menos um rascunho do meu pensamento. Ele levou o texto pra casa dele e leu. No dia seguinte, ele me entregou um texto que havia escrito a respeito do meu. O texto começava assim: “Mário, vai ser gauche na vida?” Naquele momento eu entendi que tava mesmo condenado a andar do lado escuro da estrada na minha vida e na minha arte. E eu nunca dissociei uma da outra. E fui seguindo vivendo com minha maldição colada no meu ombro. Desde então nunca mudei um milimetro a respeito das coisas que acredito, mesmo sabendo que um outro caminho me traria recompensas que aos olhos dos outros poderiam parecer muito melhores. Minha recompensa era viver do jeito que escolhi e exercer a arte que escolhi de um jeito que não traísse a minha santa maldição. Nós éramos o grupo de teatro marginal de Londrina. Era assim que nos viam por lá. A primeira matéria de página inteira que ganhamos no jornal levava o título “O Patinho Feio”. A gente morava numa república e comia arroz com vinagre e tomava vinho vagabundo. Ninguém gostava muito da gente e não éramos aceitos em nenhum dos lugares onde os artistas mais respeitados frequentavam. Mas a gente vivia do nosso jeito. Não mudei nada até hoje. Continuo sendo o “patinho feio”. Só envelheci, mas continuo sendo o mesmo patinho feio. Não faço conchavo com ninguém. Minha arte e minha vida não está aberta a negociações. E quem conhece o meu trabalho sabe das minhas predileções. Trabalho com referências que não interessam à esquerda, ou seja, teatro com temas indigestos, politicamente incorretos e marginais com influências de rock and roll e literatura maldita e histórias em quadrinhos. O que a esquerda tem a ver com isso? A esquerda gosta de arte engajada. Eu jamais me engajei em porra nenhuma. Não participo de nenhum grupo político, não gosto de política e muito menos de políticos, não faço arte identitária (a esquerda festiva adora e eu não suporto esquerda festiva ou woke), isto é, trabalho com pessoas de todo tipo e gênero que quiserem trabalhar comigo e aí estão incluídos negros, homossexuais, trans, quilombolas e quem mais aparecer, jamais tive qualquer tipo de preconceito nesse sentido, mas jamais vou procurar um negro, uma trans ou um quilombola para colocar num projeto só pra ganhar pontos por cota. E isso tem me custado atualmente sempre ficar fora de editais e dos teatros, por isso temos que ter o nosso que mantemos sem nenhum apoio ou edital, apenas com o dinheiro que ganhamos no teatro e no bar que mal dá pra pagar as contas do lugar. Em resumo: particularmente a esquerda e sua política mais me atrapalha do que ajuda. Então eu não tenho motivos particulares para votar no Lula. Não vou ganhar nada particularmente com isso. E tenho uma série de críticas a seu respeito. Então pq vou votar nele? Simplesmente pq sou um democrata e possuidor de uma sensibilidade que ainda me deixa emocionalmente impactado e não me permite ser um filho da puta individualista e egoísta. Não sou petista ou lulista. Não espero nada deles pessoalmente. A direita não gosta de mim, e tem mais é que não gostar mesmo. Mas a esquerda também não tá nem aí pra mim. Eles me ignoram. Continuo andando do lado escuro. Continuo sendo gauche na vida. Mas qual é a outra opção? Qual é o outro lado? Pois é, o outro lado. O outro lado me causa asco. O outro lado tem a barbárie, o obscurantismo, um mal enorme que pode se apoderar do país e pode fazer muito mal não só à nossa combalida cultura, mas também a todas as pessoas mais simples que nem tem noção da merda toda que pode acontecer com elas. Pode fazer mal pro pai de família que trabalha feito um escravo para sustentar os seus. Vai fazer mal para as mulheres que eles tratam como cidadãs de segunda classe, para os gays, para os desvalidos da sorte e para todos que eles desprezam. Do outro lado, tem um pensamento egoísta de querer só o bem de quem já tem muito. Do outro lado, tem os faria limers que eu acho repugnantes. Tem mulheres que são antifeministas. Tem evangélicos que usam o nome de Deus apenas para enganar os fiéis a fim de conseguir prosperidade pessoal. Tem pastores milionários. Tem racistas brancos e até negros que são racistas. Tem esses moleques que se elegeram pregando ódio. Tem essas festas podres com esses caras contratando refugiadas e abusando delas. Do outro lado tem a ganância desmedida, o desprezo pela vida humana, a zombaria sem escrúpulos de gente que é capaz de escarnecer de alguém que está morrendo em uma pandemia. Do outro lado tem um mal e uma desumanidade que eu me recuso a compactuar. É por isso que eu apoio Lula mesmo sabendo que não vou ganhar nada particularmente com isso. Pq o Lula apesar de todos os defeitos, também é um democrata e não compactua com toda essa lama que eu citei aí em cima. Tenho certeza que não vim a esse mundo pra me dar bem. Vim pra cá pra viver de acordo com meus princípios e com aquilo que meus heróis e mestres me ensinaram e eu estremeço só de pensar que não fui fiel a eles. Aos meus heróis, aos meus mestres e princípios. Eu estremeço só pensar que não fui fiel àquilo que eu entendo por humanidade. É isso aí, Professor. Vou sair dessa vida sendo gauche. E quer saber? Me orgulho disso. Quero sair dessa vida sem vergonha de ter estado nela. Quando durmo, meus pesadelos são de outra ordem.

Mário Bortolotto é ator, escritor e dramaturgo

*Os artigos assinados não correspondem necessariamente a opinião do Portal

 

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