de O Globo
A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira um mandado de busca e apreensão na residência do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro. A medida foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que justificou a ação listando provas de que o parlamentar seria o “destinatário central” de favores financeiros pagos pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Entre as tais “vantagens econômicas indevidas”, citadas pela PF, estão a participação em uma empresa por um valor abaixo do mercado, a identificação de pagamentos mensais de R$ 300 mil, o uso de um imóvel de Vorcaro como se fosse do próprio senador e o custeio de viagens internacionais, como hospedagens, restaurantes e voos privados.
Segundo as investigações, Vorcaro teria pago para Ciro a estadia no Park Hyatt New York, hotel cinco estrelas com diárias de mais de R$ 10 mil, despesas em restaurantes de elevado padrão e “outros gastos atribuídos ao parlamentar e à sua acompanhante”. A PF também aponta que houve disponibilização de cartão destinado à cobertura de gastos pessoais.
Os agentes localizaram um diálogo em que uma pessoa que intermediava as operações pergunta a Vorcaro se deve continuar pagando contas dos restaurantes de Ciro “até sábado”.
“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”, diz o interlocutor. Daniel Vorcaro, então, responde: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.
Mesada
A PF identificou uma troca de mensagens entre Vorcaro e o seu primo Felipe Cançado, apontado como um dos operadores financeiros do banqueiro, tratando de uma parceria que supostamente rendia uma mesada de R$ 300 mil ao senador – depois, o valor foi reajustado para R$ 500 mil.
Na conversa, Felipe pergunta ao banqueiro sobre a necessidade de manter os pagamentos mensais da “parceria brgd/cnfl” – uma possível referência à empresa BRGD, de Nova Lima (MG), que tem como diretor o pai de Felipe, com a empresa CNFL Empreendimentos Imobiliários, de Teresina, que tem o senador e seus familiares como sócio. Vorcaro responde que “sim”, pois isso seria “muito importante”.
“Oi, é para continuar pagando a parceria brgd/cnlf? 300k mes?”, questionou o primo de Vorcaro.
A Polícia Federal identificou mensagens em que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobra de seu primo, Felipe, sobre o atraso no pagamento de supostas propinas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). O diálogo ainda revela um suposto aumento, de R$ 300 mil para R$ 500 mil, da mesada que era paga ao parlamentar, segundo a PF.
Em seguida, ele pede supostamente a continuidade dos pagamentos ao senador: “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro”. Felipe, então, respondeu que tentaria “dar um jeito” na situação e questionou sobre o valor a ser transferido: ” Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”.
Emenda Master
Outro indício envolvendo Ciro Nogueira trata de uma emenda apresentada por ele no Senado para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que, segundo a apuração, foi redigida dentro do Banco Master. De acordo com a PF, o texto foi elaborado pela assessoria da instituição financeira, encaminhado a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em um envelope destinado a “Ciro” no endereço residencial do parlamentar.
A emenda citada pela PF ampliava a cobertura do FGC a investidores de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A garantia do fundo era uma das principais estratégias de negócio do Master para alavancar investimentos em seus Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). A PF identificou mensagem em que Vorcaro comemora a emenda apresentada por Ciro Nogueira: “Saiu exatamente como mandei”.
Venda de ações subvalorizadas
A PF indica que o primo de Vorcaro ainda intermediou a venda de 30% em ações de uma empresa à CNLF, companhia que é administrada pelo irmão do senador e tem como sócios o parlamentar e seus familiares.
De acordo com os investigadores, houve uma subvalorização das ações adquiridas – elas valeriam R$ 13 milhões, mas foram compradas por R$ 1 milhão. Segundo a PF, a empresa ligada a Ciro Nogueira teve uma “vantagem negocional” da ordem de R$ 12 milhões.
Outro favor concedido por Vorcaro a Ciro Nogueira seria a disponibilização de uma residência de alto padrão. Segundo os investigadores, Ciro teria usufruído da residência por “tempo indeterminado” e de “forma gratuita”, “como se fosse do próprio parlamentar”, segundo a decisão do ministro do STF.
Entre os elementos de prova, os investigadores destacaram comprovantes bancários de transferências, registros de viagens e troca de mensagens extraídas dos celulares de Vorcaro. Segundo a decisão de Mendonça, esse conjunto probatório indica a “possível prática de atos de corrupção, operações de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e continuidade delitiva”.
“A narrativa policial enfatiza que os elementos colhidos demonstrariam a existência de um arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”, frisou André Mendonça.
O ministro do STF ainda destacou que há indícios de que Ciro Nogueira “instrumentalizou o exercício” do seu mandato parlamentar em favor dos “interesses privados” de Vorcaro.
Os alvos da operação de hoje são:
- Ciro Nogueira, senador e presidente do PP
- Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro Daniel Vorcaro (Prisão)
- Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira
- Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho
- Empresas Green Investimentos e Green Energia Fundo de Investimentos













