Por Marcos Defreitas
Olhem para as esquinas do Rio de Janeiro e para os escritórios executivos de Zurique. Há líderes que nascem predestinados a dominar o seu tempo com uma ambição de grandes imperadores. João Havelange, que nasceu em 1916 e morreu em 2016, foi um desses personagens que entenderam cedo que a bola não era apenas um objeto de entretenimento, mas uma poderosa plataforma de negócios estruturada para gerar dividendos mundiais. Vivendo uma trajetória marcante de 100 anos, o dirigente brasileiro operou transformações profundas ao lado do francês Jules Rimet, consolidando-se ambos na história como os dois dirigentes mais longevos da entidade máxima do esporte, homens que moldaram a estrutura e a alma da Copa do Mundo em épocas distintas. Se o idealista Rimet criou o torneio global em 1930, estabelecendo os seus primeiros alicerces afetivos e geopolíticos, coube ao pragmático Havelange o papel de torná-lo um espetáculo puramente comercial e hiperlucrativo. O jovem carioca formado em Direito, que competia como nadador olímpico nas Olimpíadas de Berlim no ano de 1936 e disputava polo aquático nas Olimpíadas de Helsinque em 1952, trazia no perfil a frieza dos estrategistas e a visão de mercado dos empresários de transportes que por muito tempo gerenciaram a logística da Viação Cometa.

O cenário nacional tornou-se limitado para o seu plano de expansão e, em 1974, Havelange assumiu a presidência da FIFA, sendo o primeiro não europeu a comandar a entidade máxima do esporte na Suíça. A organização, que até então operava de forma amadora, focada apenas na vertente esportiva sob o comando anterior do inglês Stanley Rous, foi reestruturada por um choque de gestão comercial agressivo. Havelange encontrou uma instituição quase falida, que funcionava em apenas uma sala com uma quantia irrisória de poucos dólares em caixa, e executou uma verdadeira reviravolta econômica ao fechar contratos bilionários de patrocínio com marcas de alcance global e comercializar direitos de transmissão televisiva em larga escala. O modelo tradicional e romântico de Jules Rimet, que focava na integração dos povos no pós-guerra, dava lugar ao entretenimento de massa monetizado, mas as duas longas dinastias definiram os rumos do torneio mundial, que Havelange expandiu de 16 para 32 seleções, inserindo novas confederações e criando as divisões feminina e juvenil da Copa do Mundo ao longo de seus 24 anos de mandato absoluto. Sob a sua batuta direta na liderança da federação internacional, ele comandou politicamente os ciclos e as realizações das Copas do Mundo de 1978 na Argentina, 1982 na Espanha, 1986 no México, 1990 na Itália, 1994 nos Estados Unidos e, por fim, a edição de 1998 na França.
Essa eficiente máquina de poder econômico estendeu seus braços no Brasil, onde seu genro Ricardo Teixeira assumiu a gestão da CBF de 1989 até 2012, aplicando rigorosamente a mesma estratégia de governança corporativa focada em receitas financeiras. A dinastia suíça mostra como o controle da federação internacional foi restrito a poucos tomadores de decisão, já que apenas 9 presidentes eleitos lideraram a organização ao longo de toda a história. Essa galeria de executivos iniciou com o francês Robert Guérin de 1904 a 1906, passando pelo inglês Daniel Burley Woolfall de 1906 a 1918 e pelo francês Jules Rimet de 1921 a 1954. Na sequência da linha do tempo daquela dinastia suíça, a federação teve o belga Rodolphe Seeldrayers de 1954 a 1955, o inglês Arthur Drewry de 1955 a 1961 e o inglês Stanley Rous de 1961 a 1974, culminando no império de Havelange de 1974 a 1998, que abriu caminho para as eras corporativas de Joseph Blatter de 1998 a 2015 e Gianni Infantino de 2016 até a atualidade.
Havelange articulou toda a geopolítica esportiva e utilizou sua forte influência no Comitê Olímpico Internacional para capitanear o apoio que garantiu a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica. Contudo, o mercado cobra caro pelos riscos de auditoria e conformidade. O encerramento da jornada daquele gestor, que alcançou a marca de 100 anos de vida, foi impactado pelo isolamento institucional completo após as investigações de esquemas de corrupção e recebimento de propinas envolvendo a agência de marketing ISL, o que resultou na sua renúncia definitiva ao posto de presidente de honra da entidade. Ele se despediu deixando uma indústria esportiva que movimenta bilhões de dólares, uma engrenagem que agora culmina na atual gestão de Gianni Infantino, alvo de pesadas críticas globais por exacerbar essa herança e priorizar obsessivamente o dinheiro, os lucros astronômicos e os novos formatos comerciais, sofrendo inclusive severas acusações e críticas de manipulação de resultados por meio de arbitragens duvidosas, tudo em detrimento da verdadeira essência e da paixão que correm no campo.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e é cronista convidado por este Portal para a Copa















