Por Almir Escatambulo
A verdade é que eu queria falar de política. Queria me sentar aqui, diante da máquina, e discorrer com certa gravidade crônica sobre o debate de domingo na TV Bandeirantes. Usar palavras bonitas para desenhar o horror daquele espetáculo de vaidades, onde homens de terno se digladiam por um poder que, no fundo, não sabem bem para que serve. Queria até, com um espírito mais prático e cidadão, cobrar o destino das obras do terminal metropolitano de Londrina, que ali está, parado, entregue às moscas e à poeira do tempo, como um monumento ao abandono.
Queria reclamar — com aquela irritação legítima de quem tenta caminhar em paz — do bando de gente que agora polui as calçadas com bandeiras inúteis, e do bombardeio implacável de mensagens que invade o nosso WhatsApp, mendigando um voto que amanhã não valerá um tostão de mel coado.
Mas não consigo. Olho para tudo isso e o que me vem, com o peso de uma tarde cinzenta, é o nada.
Toda essa engrenagem barulhenta e colorida da eleição me parece, de repente, uma ilusão fortuita da vida. Um teatro de sombras feito para nos distrair do fato de que estamos todos girando em falso. Não me julguem mal: não se trata de infelicidade, essa dor pontual que a gente cura com um copo de cerveja ou um abraço amigo. É algo mais silencioso. É desilusão. Um desconforto fino, que se instala na alma como uma roupa que não serve bem, um sapato que aperta sem ferir de todo, mas que incomoda a cada passo.
Diante do Terminal abandonado e do santinho de candidato jogado na calçada, o que me dá, de verdade, é uma imensa vontade de dormir. Mas não um sono de uma noite, desses que a gente acorda com o mesmo cansaço no dia seguinte. Eu queria um sono de cem anos. Fechar os olhos hoje e só despertá-la na esperança mansa de que o mundo, finalmente, tivesse acabado. Que a comédia humana tivesse recolhido suas lonas e nos deixado o silêncio e o repouso definitivo.
Mas o despertador vai tocar amanhã, o WhatsApp vai vibrar novamente, e a obra continuará parada. E a nós, resta apenas o desconforto de estar vivos e ver o tempo passar.
Almir Escatambulo, Cientista Social e colaborador do Portal














