Enquanto o audiovisual já testa a própria força política nas eleições de 2026, o resto da economia criativa brasileira segue esperando ser lembrado. Existe uma disputa acontecendo em 2026. Pouca gente da cultura percebeu
Por Edra Moraes/De O Londrinense
A pergunta é simples: quem ocupa espaço na mesa onde as decisões são tomadas?
Oito entidades do audiovisual brasileiro decidiram responder. Lançaram a Bancada da Pipoca, articulação apartidária para as eleições de 2026. Candidatos à Presidência, ao Senado e à Câmara assinam compromissos com uma agenda do setor. Quem adere recebe um selo. Entra numa plataforma pública de consulta.
Até 17 de agosto de 2026, vinte candidaturas de sete partidos e quatro estados já haviam aderido à agenda, segundo levantamento da Revista Fórum. Não é bancada parlamentar. É articulação política. E funciona porque parte de um argumento econômico, não de um pedido de socorro.
Se o audiovisual pode se organizar a partir da própria força econômica, por que o resto da economia criativa não pode fazer o mesmo?
Não somos um setor pequeno
Abandonemos a ideia de que cultura é área que só pede dinheiro público. Os números dizem outra coisa. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, a indústria criativa brasileira movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, o equivalente a 3,59% do PIB nacional. Não é atividade periférica. É uma economia de centenas de bilhões de reais.
O mesmo levantamento identifica cerca de 1,26 milhão de profissionais criativos formalmente empregados. Entre 2022 e 2023, o emprego criativo cresceu 6,1%, quase o dobro do crescimento do mercado de trabalho brasileiro como um todo, que avançou 3,6%.
O que a Bancada da Pipoca já prova
O audiovisual tem clareza sobre o próprio peso. As entidades por trás da Bancada da Pipoca afirmam: o setor movimenta R$ 27 bilhões por ano, equivalente a 0,5% do PIB nacional. Gera mais de 300 mil empregos diretos e indiretos. Arrecada cerca de R$ 9 bilhões em tributos, segundo dados publicados pela própria iniciativa e reproduzidos pelo Portal Exibidor.
É um recorte específico da economia criativa. Ainda assim, conseguiu se organizar em torno de uma Agenda Política Consensual com cinco eixos, como regulação, financiamento, internacionalização, trabalho e infraestrutura para cobrar publicamente compromisso de quem disputa 2026.
No Paraná, os números também são poderosos
A economia criativa paranaense encerrou 2025 com 77.383 empregos formais, crescimento de 5,8% desde 2022, segundo levantamento do Governo do Estado com base na Rais, do Ministério do Trabalho e Emprego. A tecnologia da informação segue como o principal motor do setor, concentrando quase metade dos vínculos criativos, seguida por publicidade, serviços de informação e produção cultural, estes são dados divulgados pela agência aRede.
Há também o dado da cultura em sentido estrito. Segundo o Ipardes, o PIB da cultura no Paraná somou R$ 9,5 bilhões em 2021, equivalente a 1,7% do PIB estadual.
Vale reconhecer o investimento público que sustenta parte desse crescimento: em 2025, a Secretaria de Estado da Cultura executou cerca de 97% dos recursos da Lei Paulo Gustavo, R$ 209,7 milhões aplicados em projetos culturais em todas as regiões do Paraná, segundo o jornal O Paraná. O investimento existe. A organização política do setor, não. Isso muda a pergunta que fazemos aos candidatos. Não é mais quanto o Estado gasta com cultura.

É quanto a economia criativa produz. Quantos empregos gera. Quanto arrecada. Quanto poderia produzir se fosse tratada como política estratégica de desenvolvimento.
De quem pede para quem produz
Durante décadas, a cultura ocupou o lugar de quem pede. Existe outra forma de apresentar essa conta. Produzimos empregos e renda.
Não se trata de pedir dinheiro público para artistas. Trata-se de discutir política econômica para um setor que já movimenta centenas de bilhões de reais e que pode ter outras fontes de financiamentos e investimento.
O trabalho por projeto que a política ainda não vê
Grande parte desses profissionais não está em empregos tradicionais. São autônomos, MEIs, pequenas empresas, gente que soma fontes de renda projeto a projeto.
A política pública ainda não olha direito para essa realidade. Crédito, previdência, tributação, direitos autorais, compras públicas, plataformas digitais, inteligência artificial: tudo isso precisa entrar na conversa considerando essa configuração do trabalho.
Precisamos construir um ambiente econômico capaz de sustentar quem trabalha com criatividade. E existe uma disputa territorial que não pode ficar de fora. A economia criativa brasileira não nasce só no eixo Rio–São Paulo. Curitiba, Londrina, Recife, Belém, Manaus e centenas de outras cidades produzem. Mas recursos, mercado e visibilidade seguem concentrados.
Não basta descobrir talento fora do eixo. É preciso criar condição para que ele permaneça, produza e prospere onde vive.
Hora da economia criativa ocupar a mesa
A Bancada da Pipoca mostrou o caminho: construir agenda comum, apresentar compromissos, tornar pública a posição de cada candidatura.
Não significa candidatura única. Não significa escolher partido. Não significa transformar cultura em instrumento eleitoral de legenda.
Significa perguntar, sem meias palavras, a cada candidato de 2026:
O que você pretende fazer pela economia que depende da criatividade brasileira?
E, depois da eleição, cobrar a resposta. A economia criativa já tem número suficiente para entrar no debate econômico.
Tem trabalhador. Tem empresa. Tem PIB. Tem arrecadação. Tem propriedade intelectual. Tem potencial de exportação. Tem impacto territorial.
O que falta é organização política permanente.
Quem produz riqueza também precisa decidir como essa riqueza será estimulada, distribuída e protegida.
Você já perguntou ao seu candidato o que ele pensa sobre economia criativa? Conte aqui nos comentários — essa conversa também é sua.
Bastidores desta coluna: A pesquisa de dados e a revisão final deste artigo foram feitas em parceria com o Claude (IA da Anthropic). O olhar crítico, a opinião e o texto final continuam sendo 100% humanos.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e @londrinacriativamovimento, YouTube @edra-moraes27 Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.














