Em 1992, trabalhando na Folha de Londrina, fui escalado para uma matéria em Cianorte. A matança de cachorros de rua. Nem lembro quem era o prefeito da época. Mas ele nos expulsou da cidade.
A matéria saiu normalmente na Folha.
Ontem, no dia do Jornalista, a jornalista Aida Franco, de Cianorte escreveu este texto relembrando o episódio e também um desabafo sobre como é a profissão em algumas cidades.
Cianorte é maravilhosa!
Por Aida Franco
A cidade em que os colonizadores ingleses (que mataram os povos indígenas que aqui estavam) escolheram para sediar a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná – a CMNP. Cidade plana, temperatura agradável, ladeada por mata, árvores raras, como a Peroba, vida silvestre exuberante, com grandes felinos e aves das mais diversas espécies no céu. Mas sua natureza é violada o tempo todo. E infelizmente, no Dia do Jornalista, não há o que se comemorar pois apenas um lado dessa profissão, salvo raras exceções, é praticado nessas bandas, que é a Assessoria de Comunicação. Na assessoria apenas o lado interessado, o lado que banca o contratado recebe atenção. Em alguns países, como Portugal, a atividade do jornalista e do assessor são exercícios antagônicos. E eu sei muito bem o que acontece não só aqui, mas em muitos outros locais. Divulgar uma matéria crítica, é considerada uma audácia, um acinte ao “Status Quo”. Não deveria ser, mas é. No meu primeiro emprego como jornalista, antes de ir pra universidade, fui denunciar a carrocinha em Cianorte. Meu patrão me chamou em casa, disse que estava proibida de publicar. Então chamei a Folha de Londrina (Paçoca com Cebola) e a Rede Globo. Eles soltaram o conteúdo, explicando a crueldade com que a Vigilância Sanitária torturava e matava os cães. Eram colocados em um tambor ligado ao escapamento de uma camioneta e lá agonizavam. Depois retirados, os que ainda tinham vida eram esmagados a pauladas. Denunciei, a carrocinha foi cancelada e meu emprego também e fui estudar. E aprendi que aquela era a prática do mercado…Hoje, estamos diante de incontáveis problemas ambientais em Cianorte e a mídia está calada. Eu sei que os contratos publicitários falam mais alto, eu sei que os colegas de profissão precisam garantir o pão na mesa… Mas até quando vamos continuar vendendo a alma ao diabo, ou melhor, aos POLÍTICOS ? (salvo raras exceções, sempre). Nosso Cinturão Verde está ameaçado por uma Avenida. O solo pelas erosões. O ar pela poluição de uma mega empresa que atormenta a cidade há mais de 16 anos. As minas soterradas. O agrotóxico acabando com as lavouras. A formiga cortadeira e os caramujos africanos aliados ao mosquito da dengue comprovam o desequilíbrio em que estamos metidos. Mas enquanto isso, a preocupação é tão somente com o cocô das pombinhas rolinhas do Bosque da Matriz… E os métodos usados, tão cruéis, como no passado, matando animais no ninho, soltando fogos, bombas, com apoio inclusive dos Bombeiros! Pasmem! Bombeiros que deviam salvar, sendo algozes!! Animais de rua proliferando desenfreadamente, animais silvestres sem tratamento adequado… Árvores urbanas transformadas em lenha…. é tanto problema, é tanta pauta.. Se não levantarmos nossas vozes em nome dos mais fracos, chegará um momento em que a linha da morte será mais que o prazo de fechar uma matéria, será simplesmente nosso fim como civilização. Estamos sendo jogados dentro do tambor, como os cães em 1992 e continuamos lambendo as botas de nossos algozes. Até quando???
















1 comentário
Cadê o MP
Edno Guimarães, Gestão: 1989-1992.
Jorge Moreira da Silva, Gestão: 1993-1996
http://www.cianorte.pr.gov.br/sobre/galeria-de-prefeitos
Guimarães é irmão do deputado estadual Jonas Guimarães condenado pelas folhinhas de Natal e cartões de aniversário pagos com dinheiro público.