O tempo, que atravessa a vida “ao rés do chão”, permeia os poemas neste livro que comemora 30 anos da trajetória literária da autora paranaense
Da Assessoria

O livro reúne poemas produzidos na última década que falam do existir, do devir, de política e do cotidiano – a vida ao rés do chão, como dizia Antônio Cândido. Dividido em três partes – ou três movimentos, como se faz na música, a partir da ideia das temáticas abordadas, os poemas, segundo Karen Debértolis, são para ser lidos em voz alta.
Sobre o livro, o poeta paranaense Francisco Mallmann escreveu: “Aqui, a escrita parece ser uma prática transtemporal, na qual cada poema dialoga com o futuro, o presente e o passado simultaneamente. A poeta investiga o cotidiano de forma sensível e crítica, atribuindo ao aparente “pequeno” uma profundidade que o transforma em possibilidade de reflexão.”.
Karen Debértolis publicou Mapas Sutis e A Estalagem das Almas, entre outros. Gravou o álbum de spoken word A Mulher das Palavras. Integra as antologias Atelier Poético: Residencias (virtuales) en movimiento e Brazilian Women Poets In Translation. É verbete no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho. Participou da Exposição Imagens para o Futuro, com o audiopoema Qual Futuro? (MIS-SP e MIS-Ceará); da Residência Atelier Poético da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI); da Radio Documenta 14, da Documenta de Kassel (Alemanha, 2017).
Crédito da foto: Natália Lima Castro
Serviço:
Para Alguém Escutar no Futuro (poemas)
Editora Urutau
80 páginas
Onde: Livraria Olga (R. Pio XII, 313 – Londrina -PR)
Quando: 29 de março de 2025 (sábado), a partir das 15h
Texto de Francisco Mallmann sobre o livro Para Alguém Escutar no Futuro:
Em Para alguém escutar no futuro, Karen Debértolis cria uma poesia-promessa para o tempo, um convite feito tanto para o instante quanto para o porvir. Em cada linha, estabelece um compromisso radical com quem já está e com quem ainda virá. Se irmana ao que escrevem Luiz Rufino — “palavra é corpo ofertado ao tempo” — e Leda Maria Martins — “a palavra se inscreve no corpo, na memória, no tempo”.
Aqui, a escrita parece ser uma prática transtemporal, na qual cada poema dialoga com o futuro, o presente e o passado simultaneamente. A poeta investiga o cotidiano de forma sensível e crítica, atribuindo ao aparente “pequeno” uma profundidade que o transforma em possibilidade de reflexão. Ela questiona, com o desvelo de quem escuta o mundo ao redor: “de onde brotam estas palavras miúdas?”. Questões políticas e sociais entrelaçam-se ao tecido poético, conferindo ao tempo presente contornos de fúria, indignação e afeto coletivos. Como ela expressa, “há anos disfarço a intensa lucidez com as tarefas do dia a dia” — uma escrita que não se esconde na rotina, mas emerge dela.
Composto em três movimentos, o livro convida a leitora a se mover junto com a poesia, que percorre despedidas, ausências e sonhos. Para a autora, o silêncio não é vazio e parece ser uma ação importante no trabalho com as palavras. Ao escrever “eu preciso de silêncio”, ela nos apresenta, da mesma forma, uma questão: como realizar uma real escuta — neste e em outros tempos? O silêncio é como um elo que liga o presente e o porvir, também sendo ofertado, ele mesmo, ao futuro.
Nesta obra, os versos abraçam a vida em sua transitoriedade, como ao afirmar: “não há nenhum deus na despedida”. Eles não procuram divindades ou certezas — ao contrário, acolhem a impermanência e o fluxo das existências: “não há o que cicatrize o corte profundo na carne viva”, lemos.
Esta publicação é, então, muito mais do que uma reunião de poemas e prosas poéticas: é um chamado para resgatar a escuta em meio às pressas e distrações da vida cotidiana, para que possamos encontrar a poesia nas minúcias e complexidades do dia a dia. Karen Debértolis nos convida a um espaço onde a escrita é um ato de afeto profundo pelo tempo e pelos outros — e pelo tempo dos outros. É um livro que nos lembra, a cada página, que a poesia pode ser o lugar onde é possível — verdadeiramente — imaginar: para alguém escutar no futuro.
Francisco Mallmann
Alguns poemas:
Vapor gris
Não há
nenhum deus
na despedida.
Não há
o que cicatrize
o corte profundo
na carne viva.
Pétala
Na manhã
distópica
cada pessoa
como pétala
flor ancestral que reconecta
cada pessoa
como pétala
em cor cintilante
palavras em tom quente
gotas de chuva na corola
como concha
feito restos de rio
feito restos de mar
campo de ossos
germinando
o amor possível
se houver
O mapeamento dos dias
1.
mais um dia
para afligir
as coisas do cotidiano
colocar em ordem
sentimentos inúteis
rostos medíocres
que apavoram o sono
2.
mais um dia
de aflição
diante de situações
insuportáveis
de conselhos dispensáveis
de reclamações ridículas
de detalhes insuperáveis
3.
mais um dia
sufocante
diante da mesma
plateia
que não sabe
em uníssono
o sentido das coisas
que adormece
diante de cada fala
4.
mais um dia
enfadonho
que aperta a garganta
e mostra como é
inútil
a vida
que desaba como um fardo
sobre a mesa de trabalho
5.
mais um dia
que pode ser
cinza
ou
branco
sem cor até
um pedaço de céu
pela janela
ínfimo
trisco de céu
6.
mais um dia
perdido
como o pássaro
em zigue-zague
em direção ao vidro
translúcido
7.
mais um dia
(como é difícil)
mais um dia
de palavras vazias
faladas aos borbotões
intensamente
para causar otites
no ouvido
8.
mais um dia
de silêncios e solidões
de frases recorrentes
no poema
de saudades e sentimentos
obstinados
que ferem os sonhos
dilaceram
mais um dia
Karen Debértolis














