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Cláudio Osti

Para Alguém Escutar no Futuro é o novo livro de poemas de Karen Debértolis

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O tempo, que atravessa a vida “ao rés do chão”, permeia os poemas neste livro que comemora 30 anos da trajetória literária da autora paranaense

Da Assessoria

Para Alguém Escutar no Futuro é o novo livro de poemas de Karen DebértolisA poeta paranaense Karen Debértolis lança no dia 29 de março de 2025 (sábado), a partir das 15h, na Livraria Olga (R. Pio XII, 313 – Londrina -PR), seu novo livro intitulado Para Alguém Escutar no Futuro (Editora Urutau). O livro comemora os 30 anos de trajetória literária da autora, que iniciou sua caminhada em 1995 com a publicação de Calidoscópio. Durante o lançamento, escritoras convidadas farão a leitura de poemas de Karen Debértolis.

O livro reúne poemas produzidos na última década que falam do existir, do devir, de política e do cotidiano – a vida ao rés do chão, como dizia Antônio Cândido. Dividido em três partes – ou três movimentos, como se faz na música, a partir da ideia das temáticas abordadas, os poemas, segundo Karen Debértolis, são para ser lidos em voz alta.

Sobre o livro, o poeta paranaense Francisco Mallmann escreveu: “Aqui, a escrita parece ser uma prática transtemporal, na qual cada poema dialoga com o futuro, o presente e o passado simultaneamente. A poeta investiga o cotidiano de forma sensível e crítica, atribuindo ao aparente “pequeno” uma profundidade que o transforma em possibilidade de reflexão.”.

Karen Debértolis publicou Mapas Sutis e A Estalagem das Almas, entre outros. Gravou o álbum de spoken word A Mulher das Palavras. Integra as antologias Atelier Poético: Residencias (virtuales) en movimiento e Brazilian Women Poets In Translation. É verbete no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho. Participou da Exposição Imagens para o Futuro, com o audiopoema Qual Futuro? (MIS-SP e MIS-Ceará); da Residência Atelier Poético da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI); da Radio Documenta 14, da Documenta de Kassel (Alemanha, 2017).

Crédito da foto: Natália Lima Castro

 

Serviço:

Para Alguém Escutar no Futuro (poemas)

Editora Urutau

80 páginas

Onde: Livraria Olga (R. Pio XII, 313 – Londrina -PR)

Quando: 29 de março de 2025 (sábado), a partir das 15h

 

Texto de Francisco Mallmann sobre o livro Para Alguém Escutar no Futuro:

Em Para alguém escutar no futuro, Karen Debértolis cria uma poesia-promessa para o tempo, um convite feito tanto para o instante quanto para o porvir. Em cada linha, estabelece um compromisso radical com quem já está e com quem ainda virá. Se irmana ao que escrevem Luiz Rufino — “palavra é corpo ofertado ao tempo” — e Leda Maria Martins — “a palavra se inscreve no corpo, na memória, no tempo”.

Aqui, a escrita parece ser uma prática transtemporal, na qual cada poema dialoga com o futuro, o presente e o passado simultaneamente. A poeta investiga o cotidiano de forma sensível e crítica, atribuindo ao aparente “pequeno” uma profundidade que o transforma em possibilidade de reflexão. Ela questiona, com o desvelo de quem escuta o mundo ao redor: “de onde brotam estas palavras miúdas?”. Questões políticas e sociais entrelaçam-se ao tecido poético, conferindo ao tempo presente contornos de fúria, indignação e afeto coletivos. Como ela expressa, “há anos disfarço a intensa lucidez com as tarefas do dia a dia” — uma escrita que não se esconde na rotina, mas emerge dela.

Composto em três movimentos, o livro convida a leitora a se mover junto com a poesia, que percorre despedidas, ausências e sonhos. Para a autora, o silêncio não é vazio e parece ser uma ação importante no trabalho com as palavras. Ao escrever “eu preciso de silêncio”, ela nos apresenta, da mesma forma, uma questão: como realizar uma real escuta — neste e em outros tempos? O silêncio é como um elo que liga o presente e o porvir, também sendo ofertado, ele mesmo, ao futuro.

Nesta obra, os versos abraçam a vida em sua transitoriedade, como ao afirmar: “não há nenhum deus na despedida”. Eles não procuram divindades ou certezas — ao contrário, acolhem a impermanência e o fluxo das existências: “não há o que cicatrize o corte profundo na carne viva”, lemos.

Esta publicação é, então, muito mais do que uma reunião de poemas e prosas poéticas: é um chamado para resgatar a escuta em meio às pressas e distrações da vida cotidiana, para que possamos encontrar a poesia nas minúcias e complexidades do dia a dia. Karen Debértolis nos convida a um espaço onde a escrita é um ato de afeto profundo pelo tempo e pelos outros — e pelo tempo dos outros. É um livro que nos lembra, a cada página, que a poesia pode ser o lugar onde é possível — verdadeiramente — imaginar: para alguém escutar no futuro.

 Francisco Mallmann

Alguns poemas:

Vapor gris

Não há

nenhum deus

na despedida.

Não há

o que cicatrize

o corte profundo

na carne viva.

 

Pétala

 Na manhã

distópica

cada pessoa

como pétala

flor ancestral que reconecta

cada pessoa

como pétala

em cor cintilante

palavras em tom quente

gotas de chuva na corola

como concha

feito restos de rio

feito restos de mar

campo de ossos

germinando

o amor possível

se houver

O mapeamento dos dias

1.

mais um dia

para afligir

as coisas do cotidiano

colocar em ordem

sentimentos inúteis

rostos medíocres

que apavoram o sono

2.

mais um dia

de aflição

diante de situações

insuportáveis

de conselhos dispensáveis

de reclamações ridículas

de detalhes insuperáveis

3.

mais um dia

sufocante

diante da mesma

plateia

que não sabe

em uníssono

o sentido das coisas

que adormece

diante de cada fala

4.

mais um dia

enfadonho

que aperta a garganta

e mostra como é

inútil

a vida

que desaba como um fardo

sobre a mesa de trabalho

 5.

mais um dia

que pode ser

cinza

ou

branco

sem cor até

um pedaço de céu

pela janela

ínfimo

trisco de céu

 6.

mais um dia

perdido

como o pássaro

em zigue-zague

em direção ao vidro

translúcido

 7.

mais um dia

(como é difícil)

mais um dia

de palavras vazias

faladas aos borbotões

intensamente

para causar otites

no ouvido

8.

mais um dia

de silêncios e solidões

de frases recorrentes

no poema

de saudades e sentimentos

obstinados

que ferem os sonhos

dilaceram

mais um dia

 Karen Debértolis

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