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A geada negra de 1975: visão de uma criança no pior cenário da economia cafeeira

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Por Alexandre Sanches Vicente

Londrina, a então Capital Mundial do Café, há 50 anos foi abalada na madrugada de 18 de julho de 1975 com a geada negra que assolou boa parte do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, em especial, a região cafeeira brasileira. A economia que girava em torno dos cafezais, com população maior na zona rural do que nas áreas urbanas, teve cenário mudado com os pés de café e suas folhas queimadas pelo gelo ficavam totalmente negras à medida em que o sol batia nelas. Cenário desolador, levando muitos à ruína e iniciando um ciclo de êxodo rural.

No Edifício América, no Centro de Londrina, com o tradicional “Relojão” em seu topo marcando as horas do londrinense, o pânico tomou conta dos corretores de café que ocupavam os diversos andares daquele edifício com a venda de café e cotando preços para o mundo todo (um dos motivos do título de Capital Mundial do Café). O desespero ia dos produtores aos corretores, passando pelos funcionários braçais da colheita do café a pequenos agricultores. Porém, o comércio em geral também sentiria o baque desta mudança climática, com dinheiro deixando de circular e as cidades, sem estruturas para grandes levas de migrantes, mudando seu cenário para acomodar da forma como podia, milhares de trabalhadores rurais que deixavam as fazendas diante da quebra da principal cadeia produtiva da nossa região.

A geada negra de 1975: visão de uma criança no pior cenário da economia cafeeiraEu, criança, com meus sete anos, não tinha consciência do que significava este cenário econômico – aliás, nem havia noção do que era que fazia a comida chegar à mesa, comprar as coisas do dia a dia em casa. Eu só lembro deste dia de ter ficado com inveja de minhas primas de Curitiba que tiveram a oportunidade, um dia antes, de ver a neve cair sobre a capital paranaense. E de assistir na TV em preto e branco, as cenas de pessoas montando pequenos bonecos de neve com os finos flocos de gelo que caiam, se divertindo com isso.

Na manhã do dia 18 de julho de 1975 acordei como todos os demais dias das férias escolares. Fui para o quintal após tomar café, lavar o rosto e trocar o pijama. O meu vizinho, o Paulinho, me chamava para ver uma cena diferente, curiosa para as crianças descobrindo o mundo, indo além do gelo que recobria a grama, ainda sem que o sol batesse nele: as roupas deixadas no varal, na noite anterior, duras pelo congelamento da umidade que havia nelas. Uma bacia de água com umas peças de roupa, que ficara de molho sob o sereno, havia se transformado em uma grande pedra de gelo.

No mundo infantil, este cenário era de diversão, de descobrimento de coisas que pareciam irreais, distantes, só vistas na TV e no cinema. Mas ele era real. Ver a grama congelada era divertido, ainda mais pisando nela e vendo-a quebrar. Abrir a torneira do tanque ou do jardim e não sair água porque estava congelada nos canos, no máximo um pequeno fio de água que insistia em não ser congelado ainda e rompia as pedras de gelo saía sem pressão. E à medida que o sol subia, a gente se aquecia correndo, brincando, vendo o gelo derretendo aos poucos. Porém, sem nos dar conta e ter consciência do que estava realmente acontecendo no mundo real à nossa volta, a poucos quilômetros de distância, na zona rural no entorno da cidade.

Anos depois, estudando a história e ouvindo relatos dos adultos que vivenciaram isso, pude ter a verdadeira noção do que foi a geada negra, sobre o que representou isso para a economia brasileira, mais especificamente, para a Londrina em que eu vivia. O inchaço das grandes cidades – Londrina à época, tinha cerca de 230 mil habitantes – e das cidades vizinhas.

Somente no final dos anos 1990, trabalhando como jornalista e escalado para uma matéria sobre geada, na zona rural de São Jerônimo da Serra numa madrugada gelada e totalmente propícia à geada, pude ver o resultado da ação do que ela é capaz de fazer com uma lavoura. No percurso pela PR-090, ainda em Assaí, passamos por uma lavoura de café com as folhas queimadas pela geada, ainda sem os efeitos do sol. Mas com o sol a pino, como diz aquele velho ditado, nas lavouras de tomates, pimentões, pepinos e vagem de São Jerônimo, as leguminosas pareciam esponjas pelo efeito da geada associado ao brilho forte de céu sem nuvens do astro-rei. Não se aproveitava nada. Os depoimentos eram deprimentes de quem perdeu a produção, arrependido de não ter colhido tudo um dia antes.

Na volta, passando pela lavoura de café de Assaí, as folhas levemente queimadas estavam bem escuras e quebradiças por conta da ação do sol. Nesta simples observação, mais de 20 anos depois da geada negra de 1975 é que pude entender o grande efeito dela sobre os cafezais do norte e a brutal mudança do cenário socioeconômico sentido nos meses e anos posteriores a ela, mas que encantaram aquela criança de sete anos com a mágica do congelamento.

*Alexandre Sanches é jornalista

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2 comentários

  • marcos antonio tolomeu

    Tinha 12 anos quando isso aconteceu, meu pai tinha uma Brasilia, pra poder funcionar tivermos que fazer uma fogueira de baixo do motor pra esquentar, e não era a álcool em, e ele trabalhou a vida inteira com café, até se aposentar em 2011, lembro que saímos no final de semana para ver os estragos na região, ainda cheirava queimado no meio da lavoura, e a destruição foi total, não sobrou nada, chegamos em algumas propriedades de clientes dele, e o desespero era grande, mas um caso me chamou atenção, um grande produtor chamou todo mundo, disse que não ia dispensar ninguém, que ia formar as fazendas novamente, e que cada um ia ter uma área pequena pra plantar milho, arroz, feijão, criar um porco, galinha, sem custo para se manter até começar a produzir novamente.

  • DEVASTAGEM

    A Lei da Devastagem é um retrocesso para o meio ambiente e para a sociedade como um todo. Ao flexibilizar as regras de licenciamento ambiental, essa lei abre caminho para a exploração desenfreada de recursos naturais e para a destruição de ecossistemas frágeis. É um passo atrás na luta pela preservação do meio ambiente e pela garantia de um futuro sustentável para as próximas gerações.

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