Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

Assertivo? Você está usando corretamente esta palavra?

0 comentário

Por Álvaro Ferreira

Recentemente, meu amigo @wilhansantin fez a postagem que eu gostaria de ter feito nesse quase acabado ano de 2025. Com a assertividade que lhe é peculiar, Santin gravou um vídeo chamando a atenção para a moda do momento: enfiar a palavra “assertivo” em tudo quanto é fala ou texto, em especial no mundo dos negócios, na linguagem corporativa e até nos jargões do jornalismo esportivo.

Clique aqui e receba nossas notícias pelo whatsapp

O problema não está em se utilizar uma palavra de modo excessivo. Se o termo atende ao sentido que se quer empregar, tem mais é que usar mesmo. Só que não é esse o caso. Por isso o vídeo do Santin, que você encontra facilmente na famosa rede de vídeos, e por isso morri de inveja de não ter sido eu o autor do vídeo. Essa bobagem me incomoda há pelo menos uns seis anos. Considerando o meu senso estatístico, que atende pelo termo técnico de “chutômetro”, de cada dez pessoas que utilizam o “assertivo” ou “assertividade”, ao menos umas sete estão muito seguras de estarem utilizando um sinônimo ou variante da palavra “acerto”. Nem percebem que um dos termos tem dois “s”, e outro o “c”, o que indica diferentes origens. Acerto vem do latim certus, com o sentido de estar correto, certo. Já asserção vem do mesmo latim, mas de outra origem, assertione, que significa afirmação.

Desse cenário, fica fácil entender que gente supostamente estudada, que ocupa posições relevantes no mercado, tem um déficit considerável de leitura e de apreço pela língua portuguesa. E não pense que ler o seu site preferido vez por outra te faz um leitor. Pois é a leitura de textos longos que nos confere destreza no uso do vocabulário. É ela que fortalece nossa musculatura cerebral, por assim dizer, de modo a ampliar a capacidade de refletir e aprofundar ideias, argumentos e teorias. O que nos interessa aqui é denunciar a clara ausência da leitura longa, que nos mostra como utilizar verbos, vírgulas, apostos, substantivos e adjetivos. É nossa melhor professora, e não raro encontraremos pessoas letradas que tiveram na leitura a sua única tutora.

O Instituto Pró-Livro realiza periodicamente uma pesquisa, a Retratos da Leitura no Brasil, para identificar o comportamento do leitor brasileiro. Nas suas últimas edições, dados catastróficos mostram que , de 2020 a 2023, perdemos mais de 6 milhões de leitores. E em 2024, pela primeira vez desde a primeira pesquisa realizada pelo Instituto lá em 2007, 53% dos brasileiros não leram uma única parte de um livro, seja ele religioso, didático, romance, no formato impresso ou no digital. Ou seja, a constatação de que a maioria da população brasileira não chega perto de textos longos, aqueles que podem nos mudar de fato.

Fica fácil de entender as causas do uso de palavras da moda, sem a mínima noção do que se está a dizer. Difícil é imaginar como vamos sair dessa situação, já que a disseminação dos conteúdos digitais toma conta – cada vez mais – das nossas vidas. São vídeos curtos e textos curtos, encurtando também (metaforicamente, por óbvio) nossa massa encefálica. Queria estar errado a respeito disso, mas está muito difícil enxergar a tal luz no fim do túnel.

Álvaro Ferreira é jornalista, apresentador do PodShow da Rádio Paiquerê 91.7 e professor de jornalismo

Compartilhe:

Veja também

Deixe o primeiro comentário