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Editor:
Cláudio Osti

A Xícara da Esther

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Xícara antiga
Xícara antiga, ainda conservada

Por Marcos Defreitas

Fui buscar uma caneca no armário e quase me perdi no meio daquela frieza toda. A xícara que era da minha avó Esther, com desenho desbotado e a asa colada depois que caiu da mesa lá pelos anos 90, tinha sido empurrada pro fundo do armário. Na frente, um lote de canecas foscas, na cor que fica entre cimento molhado e poeira de obra, mas que a turma do design jura ser chique.

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Levei a caneca pra mesa e fiquei olhando pra ela um bom tempo. Lembrei da minha avó lavando essa louça na pia baixa, cantando qualquer coisa, sem nenhuma pressa de esconder o gosto dela. Lembrei também do telefone fixo lá de casa, amarelo, brilhante, do tamanho de um tijolo, que tocava na sala e todo mundo corria para atender. Hoje eu escondo a minha xícara atrás das outras, como se ela fosse vergonha.
Foi então que entendi o tamanho do problema. Não é só a minha cozinha. É o estacionamento do mercado, virado num desfile de carro prata, preto e branco, sem nenhum azulão estalando no sol. É a festa de aniversário de uma criança, que perdeu o balão vermelho e a bagunça gostosa. Hoje, o cenário é todo em tons pastéis, pensado para a foto do celular e para as redes sociais. Não dá nem para a molecada se lambuzar de bolo!

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E eu me lembro muito bem de um tempo em que era o contrário. Os anos 80 explodiram em cor por todo lado, a camisa era verde limão, o short era amarelo, o tênis tinha listra em cor berrante e ninguém achava aquilo brega, achava aquilo vivo. A sala de casa tinha sofá estampado, geladeira podia ser azul, relógio de parede era laranja e ninguém pedia desculpa por isso. A gente se vestia como quem queria ser visto de longe, não como quem queria sumir na paisagem.
A explicação da indústria é simples e nem é feia, ela quis produzir mais rápido e gastar menos, então tirou o relevo do vidro, o desenho do portão de ferro, o capricho do móvel feito à mão. Isso é economia, é lógico, é o mundo funcionando como sempre funcionou. O que não é tão simples de engolir é a gente ter comprado essa história com tanta vontade. Porque a fábrica só empurra o que a gente deixa passar pela porta.
E a gente deixou, porque em algum momento decidiram que gostar de cor era falta de educação. Que uma parede amarela era exagero. Que um enfeite feito à mão era bagunça. E a gente, com medo de ser chamado de brega, foi guardando a própria xícara no fundo da gaveta.
Não tenho nada contra quem gosta de casa vazia e silêncio visual, isso também é um jeito de morar. O problema é quando a simplicidade vira obrigação e a alegria vira coisa de mau gosto, quando ninguém mais pendura um quadro torto porque foi o avô que pintou, com medo de o vizinho reparar.
E olha que engraçado, vivemos cercados de telas, de aplicativos, de inteligência artificial que promete inventar qualquer coisa em segundos, e ainda assim escolhemos viver dentro de uma paleta de cinco tons de cinza.
Tanta tecnologia nova pra sonhar grande e a gente usando ela só pra copiar o mesmo apartamento de revista.
Às vezes fico imaginando minha avó Esther abrindo essa gaveta hoje e encontrando a xícara dela empurrada para o fundo, escondida atrás de um bloco de cerâmica sem graça nenhuma.
Acho que ela ia rir, não com raiva, com pena. Ia pegar a xícara dela de volta, lavar com a mesma calma de sempre e colocar bem na frente, onde qualquer um pudesse ver.
Eu fiz isso ontem. Tirei a xícara do fundo da gaveta e botei em cima da mesa, ao lado do café. Não mudou o mundo, não mudou nem a cozinha inteira, mas toda vez que eu olho pra ela sinto que trouxe alguém de volta pra perto.
E é isso que eu queria dizer, no fim das contas, memória não é enfeite de museu, é coisa viva. E, cada vez que a gente tira do fundo da gaveta aquilo que guardou por vergonha ou por medo de usar, não está apenas decorando a casa. Está acendendo de novo uma luz que alguém que a gente amou deixou acesa para nós.

Marcos Defreitas é jornalista e cronista deste Portal

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