Por Marcos Defreitas
Há países que contam a própria história pelos reis, pelos presidentes ou pelas guerras. O Brasil, não. O Brasil mede a passagem do tempo pelos homens que comandaram a Seleção Brasileira em Copas do Mundo. São eles os personagens silenciosos de um drama nacional que se renova a cada quatro anos. Cada Copa teve seu comandante, seu profeta, seu culpado e, em raras ocasiões, seu herói absoluto.
No início nem havia técnico. Em 1930, quando Píndaro de Carvalho comandou a delegação brasileira na primeira Copa do Mundo, a função ainda era embrionária. O futebol era menos ciência e mais improviso. Os dirigentes organizavam, os jogadores decidiam e a estratégia surgia mais da experiência do que do estudo. Luiz Vinhaes, em 1934, e Adhemar Pimenta, em 1938, já representavam a transição para um modelo mais profissional, aproximando o Brasil daquilo que o futebol moderno viria a exigir.

Então veio o ano de 1950, e sob o comando de Flávio Costa nasceu um fantasma que assombra o futebol brasileiro. O Maracanã transformou-se numa espécie de personagem nacional. Desde aquele dia, todo técnico brasileiro passou a carregar nas costas não apenas uma seleção, mas também a lembrança de uma dor coletiva. O Brasil descobriu que o futebol podia ser alegria, mas também podia ser tragédia.
Em 1954, Zezé Moreira assumiu a missão de reconstruir a confiança da Seleção. Não conquistou o mundo, mas ajudou a manter viva a ambição de um país que ainda procurava sua redenção.
O destino, porém, preparava sua compensação. Vicente Feola, em 1958, conduziu uma geração que mudou a história do esporte. Pela primeira vez, o mundo viu o futebol brasileiro em sua forma mais pura. Pelé, Garrincha e companhia pareciam personagens saídos de um conto fantástico. Em 1962, Aymoré Moreira confirmou que não era acaso. O Brasil descobriu que podia ser potência e tradição ao mesmo tempo. Em 1966, novamente sob Vicente Feola, veio a decepção, provando que nenhuma glória é eterna.
Depois surgiu Mário Lobo Zagallo, técnico nas Copas de 1970, 1974 e 1998. Não basta chamá-lo de treinador. Zagallo é uma categoria própria. Campeão como jogador em 1958 e 1962, campeão como técnico em 1970 e campeão como coordenador técnico em 1994. Em 1998, já transformado numa lenda viva do futebol brasileiro, voltou a conduzir a Seleção até a final da Copa do Mundo, ampliando uma trajetória que atravessou gerações e desafiou qualquer tentativa de comparação. Talvez nenhum outro personagem tenha ocupado tantos capítulos da história da Seleção Brasileira.
Na sequência apareceu Cláudio Coutinho, em 1978, homem de conceitos modernos e influência militar. Depois veio Telê Santana, comandante nas Copas de 1982 e 1986, o sonhador que transformou o futebol em espetáculo. As suas equipes não conquistaram a taça, mas conquistaram algo talvez mais raro. A admiração eterna. Há campeões esquecidos pelo tempo. O time de Telê permanece vivo na memória coletiva como uma obra de arte interrompida.
Sebastião Lazaroni, em 1990, tentou romper tradições. Carlos Alberto Parreira, em 1994, apostou na eficiência e trouxe a quarta estrela. Voltaria em 2006 para uma nova tentativa. Luiz Felipe Scolari, em 2002, recuperou a alma competitiva da Seleção e conquistou o pentacampeonato. Regressaria em 2014 para viver o momento mais doloroso da história recente. Dunga, em 2010, levou para a área técnica a personalidade firme que exibirá dentro de campo. Tite, em 2018 e 2022, procurou unir organização, disciplina e protagonismo, mas descobriu que o futebol continua resistente a qualquer fórmula definitiva.
Depois, Carlo Ancelotti chegou para a Copa de 2026, marcando a primeira vez em muitas décadas que um estrangeiro assumia o comando da seleção mais vencedora do planeta. Era um sinal dos tempos de um futebol que se tornará global, fazendo com que até o Brasil, por tanto tempo convencido de sua singularidade, decidisse buscar respostas além de suas fronteiras. O italiano carregava no peito não apenas sua experiência vitoriosa, mas também o peso esmagador de uma expectativa que atravessava gerações.
No entanto, o sonho ruiu de forma trágica em uma derrota dolorosa e humilhante. Em vez de assumir a responsabilidade pelo fracasso e estancar o sangramento da nação, Ancelotti preferiu o silêncio covarde do casulo, esquivando-se da entrevista coletiva pós-jogo. Ele virou as costas para o grupo e para o país inteiro, repetindo o mesmíssimo erro e o desapego de Tite na eliminação de 2022. Naquele momento de dor, o novo comandante também abandonou o campo e correu para a solidão do vestiário, deixando o torcedor e os jogadores completamente desamparados quando a seleção mais precisava de um líder que de fato desse a cara a tapa.
Porque a Seleção Brasileira nunca disputa apenas uma Copa. Disputa a soma de todas elas. Disputa as vitórias que encantaram o mundo, as derrotas que machucaram gerações e os sonhos que continuam renascendo a cada quatro anos. E cada comandante, vencedor ou derrotado, ajudou a escrever um capítulo dessa narrativa apaixonada que talvez explique o Brasil melhor do que qualquer livro de história. Afinal, poucas nações conseguem transformar um simples treinador de futebol em personagem permanente da própria memória nacional.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado para a Copa do Mundo
















1 comentário
Buia
https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-bilenky/2026/07/09/como-o-filho-de-gilmar-mendes-virou-cartola-poderoso-mesmo-sem-cargo-na-cbf.htm