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O dia em que o rock resolveu tirar título de eleitor

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O dia em que o rock resolveu tirar título de eleitor

Por Almir Escatambulo

Entrei outro dia na Mercearia do Brunieri, ali na rua São Salvador, disposto a tomar uma cerveja e ler o noticiário da internet em paz, mas o assunto no balcão era um só: o último show de uma famosa banda de rock. Duas almas antigas debatiam fervorosamente, não sobre o solo de guitarra ou a afinação do vocalista, mas sobre o viés ideológico da camiseta do baterista. Suspirei. Antigamente, a única grande polêmica do rock era saber se o sujeito usava substâncias ilícitas ou se tinha feito um pacto com o coisa-ruim. Hoje, o perigo mora no manifesto partidário.

O rock, vejam vocês, que nasceu para contestar o sistema de forma generalizada e chutar o balde da caretice, resolveu que agora precisa escolher um lado na urna. E o público, que antes se unia na catarse do empurra-empurra, passou a exigir o crachá ideológico de quem está no palco. Se o artista abre a boca para cantar, metade da plateia aplaude e a outra metade pede o dinheiro do ingresso de volta.

Lembrei-me logo do Roger Waters, o eterno cérebro do Pink Floyd, que transformou seus telões monumentais em palanques vibrantes. O sujeito vai ao show querendo flutuar ao som de Comfortably Numb e sai de lá com uma crise existencial sobre a geopolítica do Oriente Médio e uma lista de políticos que deve odiar até a próxima terça-feira.

No Brasil, contudo, a coisa ganha contornos de uma autêntica crônica de costumes, onde a divisão de águas virou uma modalidade esportiva. Veja o caso do Ira!, cujo vocalista Nasi protagonizou um embate com a plateia que resultou em shows cancelados e textões inflamados nas redes. Ou os veteranos do Ultraje a Rigor e dos Raimundos, cujas posições de seus líderes frequentemente colocam os antigos fãs de cabelos em pé, divididos entre o amor ao riff e o ódio ao tweet. Até o gigante do metal Sepultura viu-se em meio a debates acalorados sobre o direcionamento de suas letras e visões de seus integrantes, enquanto bandas da nova geração, como o Black Pantera, já sobem ao palco com o manifesto antifascista devidamente afinado com as distorções das guitarras. De repente, os dinossauros dos Titãs e do Capital Inicial, sobreviventes do rock dos anos 80, vez por outra precisam explicar em coletivas se a indignação de suas letras clássicas era direcionada à esquerda ou à direita do espectro.

Cá com os meus botões, fico pensando no paradoxo. O jovem rebelde de outrora, que usava jaqueta de couro e mandava as autoridades irem para aquele lugar, envelheceu. Hoje, ele vai ao show de terno ou camisa de partido, analisa o discurso do vocalista com o rigor de um cientista político e, se discordar de uma vírgula, abre o aplicativo do banco para cancelar o fã-clube. Tornamo-nos fiscais de partitura ideológica.

A conclusão a que chego, enquanto eu tomo mais uma Brahma, é de uma neutralidade absoluta e levemente melancólica. Não há lado certo nessa sinfonia de panelas e guitarras distorcidas. O rock não morreu; ele apenas trocou a rebeldia transgressora pela burocracia partidária. No fim das contas, a polarização conseguiu uma proeza digna de nota: transformar o bom e velho ritmo do diabo em algo terrivelmente careta. Se a moda pega, os próximos discos não virão mais com encarte de letras, mas com uma cópia autenticada do plano de governo de preferência da banda — e o solo de guitarra será devidamente fiscalizado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Almir Escatambulo, Cientista Social e colaborador do Portal

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