Por Almir Scatambulo
O asfalto do centro de Londrina amanheceu mais frio naquele domingo, carregando um mistério sussurrado entre as esquinas da avenida Duque de Caxias e da rua Maranhão. Caído na calçada deserta, o homem sem nome oficial nos registros da polícia já não respirava. Para o mundo das estatísticas, era apenas mais um corpo recolhido pelo Instituto Médico Legal. Para a calçada que lhe servia de teto, no entanto, apagava-se ali a jornada do “Americano”.
Diziam as más línguas e os poucos amigos de copo que ele guardava a cidadania americana na memória. Falava de uma vida do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, como quem evoca um sonho distante para aplacar o rigor do relento. Na noite anterior, sob o efeito anestésico da bebida em um bar local, Americano talvez tenha viajado de volta para Nova York ou Miami, esquecendo por algumas horas o câncer que lhe roía as forças e a friagem que anunciava o inverno paranaense. O sangue discreto na calçada contrastava com a ausência de violência no corpo, deixando no ar a dúvida: teria sido a doença, o frio cortante da madrugada ou a pura exaustão de carregar o peso do mundo nas costas?
Enquanto o centro testemunhava a partida silenciosa do andarilho cosmopolita, a engrenagem violenta da região metropolitana operava em outro ritmo. Na rodovia PR-445, perto da Warta, o confronto estancava a vida de Rogger Fernandes, um homem marcado por 24 passagens policiais e um mandado de prisão em aberto. Ali, o fim veio com o estrondo dos tiros e o cano das armas da Polícia Militar, um destino traçado pela colisão inevitável entre o crime e a lei. Pouco mais longe, em Apucarana, o metal retorcido contra postes e caminhões ceifava os planos de mais dois motoristas em uma tarde trágica de sábado.
A crônica das ruas corre rápida e não perdoa os distraídos. Entre o asfalto frio que acolheu o último suspiro de um suposto cidadão do mundo e a violência seca das estradas, Londrina e suas cercanias seguiram em frente na segunda-feira. Americano partiu sem passaporte, sem bagagem e sem eira nem beira, deixando na esquina do centro apenas a lembrança volátil de suas histórias de terras distantes, agora sepultadas no anonimato de uma calçada qualquer.














