por Almir Escatambulo
Vamos falar sobre o óbvio, como pedia Darcy Ribeiro com aquela sua urgência de homem que via o Brasil sangrar em plena luz do dia. E o óbvio, nesta primavera de 2026, é que a cidade acordou vestida de uma falsa esperança, colorida por santinhos de papel que amanhã estarão entupindo os bueiros após as primeiras chuvas de outubro.
Olho na rua e vejo o moço do comitê político rir, um riso largo, ensaiado por marqueteiros caros. A campanha eleitoral deste ano bateu recordes de gastos bilionários. São rios de dinheiro público jorrando em fundos eleitorais e fundos partidários, alimentando uma máquina de sorrisos plásticos, santificados pelas redes sociais. Enquanto isso, na esquina logo abaixo, um homem revira a caçamba de lixo atrás do almoço. A hipocrisia nacional tem o cinismo de passar em carreata, com jingles barulhentos, intocável e perfumada, ignorando o estômago vazio da calçada.
Rubem Braga gostava de observar os passarinhos, as coisas miúdas da vida que resistiam à crueza dos homens. Mas até os passarinhos parecem assustados com a dinastia do absurdo que se instalou na nossa política. O Brasil assiste a uma degradação moral e social profunda, onde a saúde definha, a educação pública é tratada como esmola e a ética virou um adereço descartável. O que mais me espanta — e me dói, confesso — não é o oportunismo dos candidatos. Esse já conhecemos de velhas datas. O que assusta é o silêncio. A falta de revolta da população.
O povo caminha pelas ruas como quem carrega um fardo pesado demais, mas já anestesiado pelo peso. Há uma resignação melancólica no ar. O brasileiro parece ter trocado a indignação pelo cansaço; aceita a promessa mentirosa com um dar de ombros, como quem cumpre um rito inevitável e inútil. Rimos da nossa própria desgraça em memes de internet, gastando a pouca energia que nos resta na ironia virtual, enquanto a realidade nos engole vivos.
Falar o óbvio, hoje, virou um ato quase subversivo. O óbvio é que fomos assaltados em nossa dignidade e estamos pagando a conta da festa deles com o nosso futuro. Mas o dia vai caindo, o sol de setembro se esconde atrás dos prédios e a carreata barulhenta finalmente se afasta. Resta o silêncio da noite e a certeza incômoda de que, amanhã, o circo recomeça. E nós, silenciosos, pagaremos o ingresso mais uma vez.
Almir Escatambulo, cientista social e colaborador do Portal













