
Abri a janela da sacada nesta primeira semana de setembro, numa manhã dessas em que Londrina parece diferente.
O ar entrou como um velho anúncio.
Veio devagar, trazendo o frescor da manhã, o cheiro da terra e aquela sensação difícil de explicar, como se alguma coisa antiga resolvesse voltar sem avisar.
Olhei para baixo.
A cidade já estava acordada.
Carros passavam. Pessoas caminhavam apressadas. Trabalhadores seguiam para mais um dia. Mães conduziam seus filhos. A vida corria, como sempre corre.
Mas, daquela vez, alguma coisa me fez parar.
Olhei novamente.
E então vi os ipês-brancos.
Delicados.
Exuberantes.
Brotando para a vida.
E percebi como é difícil ficar alheio àquela magnitude que, todos os anos, surge e explode pela cidade.
Os ipês têm o seu próprio relógio.
Um relógio biológico que começa a marcar presença entre julho e setembro e vai deixando cores pelas calçadas de Londrina.
Primeiro, o roxo anuncia o início desse espetáculo.
Depois, o amarelo toma conta da paisagem.
Em seguida, o rosa também colore a cidade.
Mas agora é a vez dos brancos.
Eles chegam no começo de setembro.
E aparecem quase como quem encerra um espetáculo cuidadosamente preparado pela natureza.
Suas flores duram pouco.
Dois dias.
Cinco, talvez.
E talvez seja exatamente por isso que a gente se encanta tanto.
A beleza sabe que não ficará para sempre.
Então floresce com toda a força.
Lá de cima, da sacada, comecei a reparar nas calçadas.
As flores caídas formavam tapetes.
As avenidas ganhavam uma nova paisagem.
Em alguns lugares, pareciam verdadeiros corredores floridos.
Uma espécie de atração turística que não precisou ser construída.
Estava ali.
De graça.
Espalhada pela cidade.
Bastava olhar.
E talvez esse seja o problema dos nossos dias.
A gente quase não olha.
Vivemos no fluxo da vida.
Pressa e vagar.
Carros.
Compromissos.
Horários.
Telefone tocando.
A cidade cresce.
As pessoas correm.
O tempo passa.
Mas os ipês não têm pressa.
Eles esperam.
E, quando chega a hora, simplesmente florescem.
Foi nesse momento que a paisagem me levou para outro tempo.
A memória tem dessas coisas.
Basta um cheiro.
Um vento.
Uma imagem.
E ela abre uma porta que imaginávamos fechada.
Procurei pelo apito da Cipasa.
Aquele som que, durante tanto tempo, pontuou a vida de quem cresceu em Londrina.
Tentei lembrar os horários.
Os intervalos.
O momento em que o apito entrava na rotina da cidade.
Mas ele não veio.
A cidade mudou.
E precisava mudar.
Novos espaços foram ocupados.
Novas histórias começaram.
Mas algumas coisas ficaram pelo caminho.
A vida, afinal, voltou ao normal.
Ou pelo menos ao que chamamos de normal.
Porque, quando olho novamente para os ipês-brancos, percebo que nada está completamente perdido.
A memória continua ali.
Nos lugares.
Nos cheiros.
Nos silêncios.
E também nas flores que insistem em voltar todos os anos.
Da minha sacada, vendo Londrina coberta pelo branco dos ipês, pensei que talvez a cidade tenha encontrado uma maneira de conversar conosco.
Ela não fala.
Ela floresce.
E nós, quase sempre com tanta pressa, precisamos aprender a escutar.
Porque algumas cidades vivem de prédios, ruas e avenidas.
Outras vivem também de memória.
De histórias.
De sons que desapareceram.
De pessoas que passaram.
E de árvores que, todos os anos, nos obrigam a levantar os olhos.
Londrina continua crescendo.
Continua mudando.
Continua correndo.
Mas, nesta primeira semana de setembro, os ipês-brancos parecem pedir uma pausa.
Uma dica. Aproveitem estes dias de ipês-brancos e passem com mais vagar.
Respirem a cidade.
Respirem o perfume das flores.
Respirem a vida.
Porque viver não é apenas seguir em frente.
Às vezes, viver também é parar.
Olhar.
E se deixar tocar pela beleza.













