Por Marcos Defreitas
O destino costuma sussurrar nas esquinas mais improváveis da nossa vida. Sou de origem espanhola e fui assistir ao jogo na casa de familiares, todos carregando o mesmo sangue ibérico. A residência ficava na Rua Suíça. Para chegar lá, a última via percorrida foi a Rua Espanha. Aquele mapa urbano não era um mero acaso geométrico. Era um sinal claro e poético do que vinha pela frente, desenhado no asfalto.
A maior Copa do Mundo de todos os tempos fechou suas cortinas. A Copa dos bilhões, movida pelo lobby desenfreado das bets e das marcas esportivas. Foi uma epopeia de contrastes dramáticos, um turbilhão de emoções profundas que nos levou das lágrimas mais obscuras ao êxtase divino.
Inscreva-se no Canal Paçoca Com Cebola no Youtube
Tudo começou naquela abertura monumental. Pela primeira vez na história, uma Copa do Mundo aconteceu em três países simultaneamente. México, Estados Unidos e Canadá ergueram as mãos juntos para dar a largada ao espetáculo. Foi a Copa dos recordes absolutos. Registrou o maior público de todos os tempos nas arquibancadas, arrastando 7 milhões de pessoas aos estádios, mesmo com o preço abusivo dos ingressos. O torneio fez as redes balançarem com inéditos 308 gols.
Diante dessa magnitude, o destino guardava marcas eternas. Cristiano Ronaldo alcançou o topo do impossível, tornando-se o primeiro homem a participar de seis edições da Copa do Mundo e, de forma espetacular, marcou gols em todas as seis que disputou. Um feito imortal. O mundo também se curvou diante da beleza cultural dos torcedores japoneses, que recolhiam cada resto de sujeira do chão após as partidas com a dignidade de monges, ensinando que o respeito vem antes do placar. Vimos as remadas vikings ecoando como um clamor dos deuses e fomos tocados pela comoção do fenômeno Vozinha, a prova viva de que a paixão não envelhece jamais.

Mas o futebol moderno também carrega suas sombras e suas neuroses. Esta Copa acabou engessada pelas amarras da era VAR. Os juízes em campo exibiram uma mediocridade, picotando o espetáculo e roubando a espontaneidade do grito de gol. Eles transformaram a explosão imediata do torcedor em uma tensa e gélida consulta aos monitores de TV.
Para nós, brasileiros, a dor teve o gosto amargo da decadência. A participação do Brasil foi apenas o eco pálido de um passado de ouro, sem a fome de vitória dos homens de outrora. Vinicius Jr e companhia andavam perdidos em campo, como se a amarelinha pesasse toneladas pelo puro desinteresse dos novos tempos. Enquanto isso, Neymar arrumava briga sob os olhos cansados do planeta, preferindo o conflito ao futebol. Apesar do fracasso dessa geração, o Brasil continua gigante na história. Segue como o único país a participar de todas as edições, mantém o maior número de títulos mundiais com suas 5 estrelas intocáveis e também é o grande campeão com 247 gols na história do torneio.
Em contrapartida, o mundo aplaudiu a consagração de Mbappé. O francês de origem africana isolou-se ainda mais como o artilheiro implacável das Copas do Mundo. Ele se tornou o único atleta a atingir a artilharia em duas edições seguidas, destruindo defesas com uma velocidade avassaladora e cruel. As semifinais foram testes definitivos para cardíacos, com o clássico eterno entre Inglaterra e França incendiando os corações.
E então chegou a grande final entre Argentina e Espanha, o tango e o flamenco dividindo o mesmo palco sagrado.
No intervalo do jogo decisivo, o estádio testemunhou um show monumental onde ritmos e épocas se fundiram. O telão projetou a foto de Pelé vestido com a icônica camisa do New York Cosmos. O Rei apareceu na tela pedindo por love em campo. Ele foi o único jogador do planeta a ser homenageado pela FIFA tanto em vida quanto após a sua morte, o verdadeiro e único Rei da Bola.
Logo depois, surgiram os dois Ronaldos, o Fenômeno e o Gaúcho, sorrindo ao lado da rainha do pop, Madonna. Eram três negros e três brasileiros na tela, um recado místico e silencioso ao racismo dos nossos vizinhos de continente.
A bola voltou a rolar para o segundo tempo. A Argentina, que por algumas vezes nessa Copa reverteu o placar na base da raça pura, resolveu jogar o mais lamentável anti-futebol. Os jogadores argentinos simplesmente ignoraram a mensagem de paz de Pelé e apelaram para uma violência desmedida. A truculência portenha tomou conta do gramado durante o jogo e com a agressão provocada pelo jogador Paredes.
A seleção alviceleste registrou um recorde negativo vergonhoso na história das finais, passando inacreditáveis 100 minutos sem dar um único chute legítimo contra o gol adversário. Fora das quatro linhas, a mesma sombra feia se repetiu com os atos recorrentes de racismo praticados por torcedores argentinos nas arquibancadas e também pela provocação da faixa política a respeito das Malvinas. Uma vergonha explícita que mostra como a FIFA precisa punir urgentemente a Argentina por essas atitudes.
Mas a bola pune a soberba. A Argentina sucumbiu diante da barreira de La Roja. O esquema tático perfeito dos espanhóis liquidou o time de Messi, coroando a campeã que sofreu um só gol em todo o torneio. A Espanha sagrou-se bicampeã do mundo com um gol salvador aos 106 minutos de partida, uma dinâmica quase idêntica à primeira conquista contra a Holanda em 2010, ocorrida aos 116 minutos.
Diante de toda a barbárie do confronto, o jovem Lamine Yamal mostrou uma resiliência de santo. O menino dobrou os joelhos no meio do quebra-pau e rezou. Logo após o apito final, com uma nobreza monumental, ele foi abraçar um Messi desolado, demonstrando profundo respeito e compaixão.
No vestiário, o irmão caçula de Lamine Yamal roubou a cena. O menino, que já havia conquistado o mundo com sua irreverência nas arquibancadas durante os jogos, posou segurando a taça dourada com suas mãos pequeninas. Diante daquela cena, era impossível não recordar a profética foto de quase duas décadas atrás, quando o jovem Messi dava banho em um Yamal ainda bebê para um calendário beneficente.
Talvez a própria mão de Deus tenha desenhado esse reencontro com tinta de ouro. Messi deu banho em Yamal quando criança, e Yamal deu uma lavada histórica no mestre agora como adulto. Era a passagem de bastão mais bonita do esporte.
Os refletores se apagam e os corações já miram o horizonte de 2030. A Copa do Mundo do Centenário celebrará cem anos de paixão global, cruzando oceanos para unir Montevidéu, Uruguai, Argentina, Paraguai, Espanha, Portugal e Marrocos.
Em uma noite de agonia e glória, o apito final corta o ar como um punhal de gelo no peito dos derrotados. O silêncio sepulcral da Argentina despedaçada contrasta com o pranto descontrolado dos espanhóis de joelhos. É o fim de uma era.
O amor puro pela bola permanece intocável. A poesia de um menino segurando o universo dourado nas mãos continuará nos fazendo chorar e sorrir, enquanto aguardamos o dia em que o eterno clamor de Pelé por amor no gramado deixe de ser apenas uma lembrança e se transforme no hino definitivo da FIFA a guiar as próximas Copas.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa
















1 comentário
Elis Regina
Parabéns!. Marcos pela excelente matéria!! 👏🏻👏🏻