Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

A Coroa da Espanha na Maior Copa da História

1 comentário

A Coroa da Espanha na Maior Copa da História

Por Marcos Defreitas

​O destino costuma sussurrar nas esquinas mais improváveis da nossa vida. Sou de origem espanhola e fui assistir ao jogo na casa de familiares, todos carregando o mesmo sangue ibérico. A residência ficava na Rua Suíça. Para chegar lá, a última via percorrida foi a Rua Espanha. Aquele mapa urbano não era um mero acaso geométrico. Era um sinal claro e poético do que vinha pela frente, desenhado no asfalto.
​A maior Copa do Mundo de todos os tempos fechou suas cortinas. A Copa dos bilhões, movida pelo lobby desenfreado das bets e das marcas esportivas. Foi uma epopeia de contrastes dramáticos, um turbilhão de emoções profundas que nos levou das lágrimas mais obscuras ao êxtase divino.

Inscreva-se no Canal Paçoca Com Cebola no Youtube

​Tudo começou naquela abertura monumental. Pela primeira vez na história, uma Copa do Mundo aconteceu em três países simultaneamente. México, Estados Unidos e Canadá ergueram as mãos juntos para dar a largada ao espetáculo. Foi a Copa dos recordes absolutos. Registrou o maior público de todos os tempos nas arquibancadas, arrastando 7 milhões de pessoas aos estádios, mesmo com o preço abusivo dos ingressos. O torneio fez as redes balançarem com inéditos 308 gols.
​Diante dessa magnitude, o destino guardava marcas eternas. Cristiano Ronaldo alcançou o topo do impossível, tornando-se o primeiro homem a participar de seis edições da Copa do Mundo e, de forma espetacular, marcou gols em todas as seis que disputou. Um feito imortal. O mundo também se curvou diante da beleza cultural dos torcedores japoneses, que recolhiam cada resto de sujeira do chão após as partidas com a dignidade de monges, ensinando que o respeito vem antes do placar. Vimos as remadas vikings ecoando como um clamor dos deuses e fomos tocados pela comoção do fenômeno Vozinha, a prova viva de que a paixão não envelhece jamais.
A Coroa da Espanha na Maior Copa da HistóriaO planeta bola testemunhou um futebol vistoso, aberto e encantador apresentado por praticamente todos os países. Houve um crescimento técnico assombroso, em especial uma evolução impressionante do futebol africano. Os times da África mostraram uma força tática, uma técnica refinada e uma coragem que encantaram o mundo, provando que o equilíbrio do futebol global mudou para sempre.
​Mas o futebol moderno também carrega suas sombras e suas neuroses. Esta Copa acabou engessada pelas amarras da era VAR. Os juízes em campo exibiram uma mediocridade, picotando o espetáculo e roubando a espontaneidade do grito de gol. Eles transformaram a explosão imediata do torcedor em uma tensa e gélida consulta aos monitores de TV.
​Para nós, brasileiros, a dor teve o gosto amargo da decadência. A participação do Brasil foi apenas o eco pálido de um passado de ouro, sem a fome de vitória dos homens de outrora. Vinicius Jr e companhia andavam perdidos em campo, como se a amarelinha pesasse toneladas pelo puro desinteresse dos novos tempos. Enquanto isso, Neymar arrumava briga sob os olhos cansados do planeta, preferindo o conflito ao futebol. Apesar do fracasso dessa geração, o Brasil continua gigante na história. Segue como o único país a participar de todas as edições, mantém o maior número de títulos mundiais com suas 5 estrelas intocáveis e também é o grande campeão com 247 gols na história do torneio.
​Em contrapartida, o mundo aplaudiu a consagração de Mbappé. O francês de origem africana isolou-se ainda mais como o artilheiro implacável das Copas do Mundo. Ele se tornou o único atleta a atingir a artilharia em duas edições seguidas, destruindo defesas com uma velocidade avassaladora e cruel. As semifinais foram testes definitivos para cardíacos, com o clássico eterno entre Inglaterra e França incendiando os corações.
​E então chegou a grande final entre Argentina e Espanha, o tango e o flamenco dividindo o mesmo palco sagrado.
​No intervalo do jogo decisivo, o estádio testemunhou um show monumental onde ritmos e épocas se fundiram. O telão projetou a foto de Pelé vestido com a icônica camisa do New York Cosmos. O Rei apareceu na tela pedindo por love em campo. Ele foi o único jogador do planeta a ser homenageado pela FIFA tanto em vida quanto após a sua morte, o verdadeiro e único Rei da Bola.
​Logo depois, surgiram os dois Ronaldos, o Fenômeno e o Gaúcho, sorrindo ao lado da rainha do pop, Madonna. Eram três negros e três brasileiros na tela, um recado místico e silencioso ao racismo dos nossos vizinhos de continente.
​A bola voltou a rolar para o segundo tempo. A Argentina, que por algumas vezes nessa Copa reverteu o placar na base da raça pura, resolveu jogar o mais lamentável anti-futebol. Os jogadores argentinos simplesmente ignoraram a mensagem de paz de Pelé e apelaram para uma violência desmedida. A truculência portenha tomou conta do gramado durante o jogo e com a agressão provocada pelo jogador Paredes.
​A seleção alviceleste registrou um recorde negativo vergonhoso na história das finais, passando inacreditáveis 100 minutos sem dar um único chute legítimo contra o gol adversário. Fora das quatro linhas, a mesma sombra feia se repetiu com os atos recorrentes de racismo praticados por torcedores argentinos nas arquibancadas e também pela provocação da faixa política a respeito das Malvinas. Uma vergonha explícita que mostra como a FIFA precisa punir urgentemente a Argentina por essas atitudes.
​Mas a bola pune a soberba. A Argentina sucumbiu diante da barreira de La Roja. O esquema tático perfeito dos espanhóis liquidou o time de Messi, coroando a campeã que sofreu um só gol em todo o torneio. A Espanha sagrou-se bicampeã do mundo com um gol salvador aos 106 minutos de partida, uma dinâmica quase idêntica à primeira conquista contra a Holanda em 2010, ocorrida aos 116 minutos.
​Diante de toda a barbárie do confronto, o jovem Lamine Yamal mostrou uma resiliência de santo. O menino dobrou os joelhos no meio do quebra-pau e rezou. Logo após o apito final, com uma nobreza monumental, ele foi abraçar um Messi desolado, demonstrando profundo respeito e compaixão.
​No vestiário, o irmão caçula de Lamine Yamal roubou a cena. O menino, que já havia conquistado o mundo com sua irreverência nas arquibancadas durante os jogos, posou segurando a taça dourada com suas mãos pequeninas. Diante daquela cena, era impossível não recordar a profética foto de quase duas décadas atrás, quando o jovem Messi dava banho em um Yamal ainda bebê para um calendário beneficente.
​Talvez a própria mão de Deus tenha desenhado esse reencontro com tinta de ouro. Messi deu banho em Yamal quando criança, e Yamal deu uma lavada histórica no mestre agora como adulto. Era a passagem de bastão mais bonita do esporte.
​Os refletores se apagam e os corações já miram o horizonte de 2030. A Copa do Mundo do Centenário celebrará cem anos de paixão global, cruzando oceanos para unir Montevidéu, Uruguai, Argentina, Paraguai, Espanha, Portugal e Marrocos.
​Em uma noite de agonia e glória, o apito final corta o ar como um punhal de gelo no peito dos derrotados. O silêncio sepulcral da Argentina despedaçada contrasta com o pranto descontrolado dos espanhóis de joelhos. É o fim de uma era.
​O amor puro pela bola permanece intocável. A poesia de um menino segurando o universo dourado nas mãos continuará nos fazendo chorar e sorrir, enquanto aguardamos o dia em que o eterno clamor de Pelé por amor no gramado deixe de ser apenas uma lembrança e se transforme no hino definitivo da FIFA a guiar as próximas Copas.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa

Compartilhe:

Veja também

1 comentário

Deixe seu comentário