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Cláudio Osti

A Imprensa brasileira, Maquiavel e Getúlio Vargas

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Por Mário César Carvalho*

Dia desses, para o êxtase de um determinado espectro político e horror de outro, veio à tona o caso do Ministro Silvio Almeida que supostamente teria assediado sexualmente mulheres com quem teve contato por obrigações do cargo público ou de sua atividade como professor. A vítima mais famosa teria sido a sua colega, também Ministra, Anielle Franco.

Rapidamente o caso tomou conta dos principais veículos de comunicação do país e, como não poderia deixar de ser, daquela mídia alternativa que hoje domina a internet e que é um tipo de “espelho da Madrasta da Branca de Neve” para o jornalismo mainstream.

Para mim, pessoalmente, o fato não trouxe nenhuma surpresa e somente reafirmou aquilo que meus cabelos brancos me ensinaram: que a falta de caráter, bem como tudo o que dela decorre, é possivelmente real no mundo real, mesmo quando a aparência e o discurso são de retidão moral, especialmente em tempos onde ilustres subcelebridades desconhecidas, milionários instantâneos e influencers descerebrados são tratados como heróis nacionais.

Na verdade, o que mais chamou a minha atenção foi comparar as manchetes de alguns dos principais veículos de comunicação sobre os deslizes do Ministro dos Direitos Humanos com aquelas relacionadas a outro caso bastante similar, ocorrido no ano de 2022, no qual esteve envolvido o Ex-Presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães.

Por exemplo, na época do Guimarães, a maioria das notícias veiculadas no Portal G1 da Rede Globo, seja na chamada, no texto ou na imagem, sempre remetia, de forma destacada, a relação entre ele e pessoa de Jair Bolsonaro. Porém o mesmo não aconteceu com relação ao caso de Silvio Almeida e o Presidente Lula.

Pois bem, novamente volta-se, à questão sobre o papel da imprensa, sua isenção e suas relações com o poder dentro de um sistema democrático. Considerando as similaridades dos dois casos e as formas distintas como eles foram tratados, fica a dúvida: Se a maioria da grande imprensa brasileira teria definitivamente adotado como filosofia profissional e de conduta a esdrúxula máxima supostamente atribuída a Nicolau Maquiavel de que “Para os amigos tudo e para os inimigos, os rigores da Lei”.

Mesmo não sendo jornalista resisto a aceitar essa possibilidade já que a frase encapsula um tipo de comportamento comum em sistemas de poder, onde o favorecimento, o nepotismo e o uso seletivo da justiça prevalecem, como reflexos da hipocrisia e da corrupção presentes na sociedade em geral, mais especialmente na política e nas instituições de poder, como um símbolo de distorção da justiça e da ética em favor de interesses particulares.

Muito utilizada por Getúlio Vargas nos tempos do Estado Novo, essa expressão na verdade sugere um desequilíbrio moral e o ponto central da crítica à ela se encontra no fato de que justifica a manipulação da justiça em prol de interesses pessoais, financeiros ou ideológicos. Já quando se trata de veiculação da informação, a abordagem deve, ou pelo menos deveria ser, o mais imparcial possível, tratando simpáticos e antipáticos de maneira igualitária e não utilizada como um instrumento de conveniências política, numa distorção que revela uma contradição ética profunda.

Até porque, na nobre arte de informar, a prática do compadrio e da companheirada acaba por gerar uma sensação de impunidade para aqueles que estão no círculo de poder fazendo com que se sintam seguros de que as conexões os protegerão das consequências legais das suas ações. Isso não apenas corrompe a própria essência da justiça, como também contribui para o enfraquecimento na confiança das pessoas nas Instituições.

Aceitar como prática normal que “para os amigos, tudo e para os inimigos, os rigores da Lei”, é dar uma espécie de aval para a corrupção sistêmica que passa a ser vista, também, como um comportamento aceitável, gerando um ciclo de impunidade que se perpetua, como se perpetuado tem.

No fundo, a frase em questão expõe uma moralidade seletiva, onde valores como justiça e integridade são usados apenas quando convenientes, revelando um comportamento fundamentalmente hipócrita, já que por trás do discurso de defesa da Lei, da ordem e da democracia, esconde-se um sistema de favorecimento pessoal. E esse contraste entre discurso e prática alimenta a descrença nas lideranças, bem como aprofunda o sentimento de injustiça na sociedade.

A crítica a comportamentos que são traduzidos por essa frase é, acima de tudo, um apelo à equidade, à imparcialidade e à verdadeira justiça, valores que devem prevalecer em qualquer sociedade que de fato aspire ser justa e democrática.

A imprensa desempenha um papel essencial em qualquer democracia, pois é uma das principais fontes de informação, assim como uma ponte entre o público e os acontecimentos.

Ela, além de informar e fiscalizar o poder, carrega em si mesma a responsabilidade de agir com isenção, no sentido de manter a confiança do público e a integridade de suas práticas. A sua isenção fortalece a democracia ao promover um espaço de debate justo e equilibrado, onde diferentes perspectivas podem ser ouvidas e analisadas criticamente. A transparência, a verificação rigorosa dos fatos e a imparcialidade editorial são pilares fundamentais para que a mídia continue cumprindo seu papel de guardiã da verdade e da justiça. Dessa forma, ao equilibrar liberdade de expressão e responsabilidade ética, a imprensa sustenta seu papel indispensável na construção de uma sociedade mais informada, justa e plural.

E o compromisso com a isenção é essencial para preservar a confiança do público e manter a integridade da função jornalística em uma sociedade democrática.

*Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e colunista deste prestimoso blog

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4 comentários

  • Muito bom e coerente o texto. Infelizmente é o que acontece com os meios de comunicação. O motivo é simples, eles não se sustentam por si só, precisam da verba pública pra fecharem suas contas. Isso acontece a nível federal, estadual e municipal. Um exemplo disso é a maior emissora do país. Ela tem dispensando seguidamente seus medalhões, vamos dizer que de uns 5 anos pra cá por não conseguir mais bancar seus altos salários. Governo anterior tem parte nisso, cortou bastante a grana destinada pra eles. Aí eles apoiaram o atual governo, é evidente que existe um interesse nisso, não se trata apenas em identificação ideológica, acredite eles não tem isso, são parciais. O engraçado é que apesar desse apoio para o governo atual, eles já não conseguem mais a $$$ que recebiam antes. Melhorou mais nunca mais será com antes, por um motivo simples, é bom também para o governo atual não ter que colocar tanta grana pra algo tão sem necessidade. Isso é semelhante a reforma da previdência, falam mal, mais nem em brincadeira vão voltar atrás, revogar o que foi perdido, deixa assim, é mais fácil por a culpa no Temer e continuar ferrando a manada kkkk. Tudo dentro de esperado.

  • Os tempos são outros, não mais como na década de 70/80 quando vc lia uma noticia ou editorial em um jornal/revista e para manifestar sua opinião, certa ou não, tinha que escrever uma carta em resposta e quase nunca era publicada já que era contrária a opinião da imprensa, quase sempre bancada por patrocínio estatal.
    Alexandre de Moraes, disse a alguns dias que a internet deu voz aos idiotas, discordo, a internet de voz a todos, brancos, negros, homens, mulheres, ricos, pobres a questão é que o ego de homens públicos não esta preparado para essa modernidade.
    Sobre a parcialidade da imprensa, é evidente, não sejamos inocentes: politica, 100% politica.

  • Isenção na velha imprensa?! É por essas e por outras que informação descentralizada cresce a cada dia, para desespero dos “grandes” jornalões!

  • MCC deixou a Calha de São Paulo e virou colunista tardio?

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