Por Marcos Defreitas
Dizer que a Itália é apenas um país que joga futebol soa como um insulto à história, porque ela representa um dos palcos mais sagrados da bola. É a terra da tática obsessiva, da camisa que pesa toneladas na alma e do grito inflamado de um povo que respira o esporte como verdadeira religião. Mas o cenário atual é devastador, pois a Azzurra agora amarga a dor de acumular três Copas do Mundo consecutivas completamente fora do mapa, assistindo aos torneios de 2018, 2022 e 2026 pela frieza do sofá. Esse declínio acentuado não aconteceu por acaso, mas coroa uma derrocada melancólica que já vinha se desenhando nas últimas vezes em que os italianos de fato pisaram no gramado do mundial, quando foram eliminados nas oitavas de final em 2002, e sofreram quedas precoces e vexatórias ainda na fase de grupos em 2010 e em 2014.
O Brasil é penta e a Itália é tetra, mas a glória de suas camisas pesadas já não entra mais em campo sozinha.
A Itália enfrenta uma grave crise no futebol, castigada pela falta de novos talentos, pela dependência de jogadores velhos e por clubes que priorizam uma legião de estrangeiros. O país que já exportou gênios passou a sofrer com a escassez de novas promessas, porque as ligas principais fecharam as portas para os pratas da casa. Essa falta de espaço na elite sufocou o surgimento de uma nova geração competitiva, gerando uma seleção sem identidade, sem fôlego e com sérios problemas de renovação estrutural.
Esse cenário desolador serve como um aviso urgente que cruza o oceano e acende um alerta dramático em solo verde e amarelo. Isso pode acontecer com o Brasil se a CBF não investir de verdade nas categorias de base, na formação de treinadores e em toda a estrutura que sustenta o desenvolvimento do futebol desde as divisões inferiores. Historicamente, os maiores craques do país começaram nos campinhos de terra batida, alimentados pela pura paixão da molecada que jogava de pés descalços e de coração aberto. Porém, a realidade mudou drasticamente, porque o avanço do mundo digital e o magnetismo das telas tiraram as crianças das ruas, esvaziando esses celeiros naturais de criatividade, de ginga e de improviso.
A decadência do nosso futebol reflete inclusive no mercado global de comandantes, já que a ausência de técnicos brasileiros de ponta na Copa do Mundo é um sintoma claro e doloroso dessa defasagem na formação acadêmica e tática. O preço dessa estagnação já cobra o seu preço em lágrimas, pois as sucessivas derrotas do Brasil nos mundiais recentes escancaram que o abismo está logo ali. Diante desse cenário, o país corre o risco real de amargar um jejum histórico, completando vinte e oito anos sem erguer a taça da Copa até 2030. Sem o terrão para moldar o drible e sem uma reciclagem profunda na preparação de profissionais de comissão técnica, a seleção brasileira corre o risco de seguir o mesmo rastro melancólico dos europeus. A Itália ensina, da maneira mais dolorosa possível, que o passado não garante o futuro, e que até os maiores gigantes podem sumir do mapa se esquecerem de cuidar de suas próprias raízes.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado por este Portal para a Copa














