Por Israel Marazaki
O que todo mundo viu na sessão de cassação da vereadora Anne Moraes é o de sempre; o que quase ninguém enxergou é o que realmente importa. Para quem se recusa a ser arrastado por manchetes encomendadas ou prefácios de moralidade duvidosa, o segredo está no tom da voz, no peso do pisar — e não na marca dos sapatos. Está na nuance, no cheiro do arranjo político. A análise real precisa fechar os olhos para o espetáculo conveniente se quiser enxergar a verdade nua.
O circo começou com um combinado de bastidores que parecia pacificado: como todos já sabiam o roteiro, o relatório não seria lido. Foi quando a vereadora Jessicão quebrou o pacto de silêncio e exigiu a leitura, ao menos, da conclusão do enredo que pedia a cabeça de Anne. Dali em diante, o plenário virou uma feira: pedidos aleatórios de leitura de trechos picotados, jogados no ventilador em uma desordem cronológica criminosa.
Uma verdadeira orgia narrativa. Parecia um hospício. Cada fração selecionada a dedo servia apenas para sangrar a investigada em praça pública, sem nexo, sem contexto. Foi preciso que o próprio “Santão” — vejam a ironia — interrompesse aquela aberração para restaurar o mínimo de pudor. Quase aplaudi. Afinal, nunca vi ninguém ler um livro pulando páginas para construir uma culpa artificial. Talvez em manicômios. É — talvez.
Garantido o palco, abriu-se o prazo para a defesa. Anne Moraes deu um passo atrás e deixou que seu advogado, Maurício Carneiro, fizesse o trabalho de desmontar a farsa. Em poucos minutos, Carneiro pulverizou o relatório. Expôs erros primários, quase infantis, na escolha dos artigos jurídicos que a presidente da comissão, Michele Tomazino, usou para sustentar a peça. Um vexame histórico, constrangedor. O advogado precisou desenhar, sem olhar diretamente nos olhos da relatora, o conceito mais básico do Direito: o que é, afinal, a prerrogativa de um vereador. Tomazino assistiu à demolição do próprio relatório em silêncio.
Veio a votação. Formalmente por ordem alfabética; politicamente, um jogo de xadrez partidário explícito. Lenir de Assis (PT) votou pela guilhotina. No PL, o rebanho seguiu o mestre e votou em peso pela cassação — com a exceção solitária de Marinho. Mas o tom de contrariedade, o quase engasgo na voz do vereador Santão ao proferir o voto, entregou o jogo: o partido passou o trator nos bastidores.
O mesmo teatro repetiu-se no PP, maquiado pela abstenção conveniente do Vereador Mestre Madureira. No Republicanos, o único a cravar a faca foi David Wisley — arqui-inimigo declarado da vereadora, em um rancor recíproco e transparente. No PSD, o racha cirúrgico: Antônio Amaral contra a cassação, Giovani Mattos a favor. No Avante, atual trincheira de Anne, Sidney Matias votou para tentar estancar o sangue.
Ah, e quase me esquecia da cereja do bolo. Uma cereja verde e amarela, estragada pela hipocrisia. Jessicão usou seus cinco minutos para posar de bastião da moralidade. Justo ela, que recentemente gastou verba de gabinete para passear em Brasília em ato de filiação partidária, subiu à tribuna para exigir que os pares votassem “com consciência” para poderem “andar de cabeça erguida nas ruas”. A audácia da política local não tem limites.
É — foi exatamente isso que: Aconteceu Londrina.
A verdade não estava nos discursos inflamados. Estava no suor frio dos votos puxados à força e no cheiro de conveniência que tomou conta do plenário.
Israel Marazaki é empresário em Londrina














