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Orlando, o Dom Quixote do Wi-Fi

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Orlando, o Dom Quixote do Wi-Fi

Por Mário César Carvalho

Numa tarde dessas em que o vento parece empurrar a gente pra dentro da vida dos outros encontrei com o Orlando. Lá estava ele, na fila da operadora de internet, parado como quem espera um milagre — ou uma senha que nunca chega. Usava uma camisa polo listrada, dessas que lembram domingos antigos; um jeans largo, que sobrava tecido como se guardasse lembranças nos bolsos; e tênis brancos que brigavam com meias sociais marrons, num duelo cromático que só a inocência dos anos permite.

O cabelo, branco como a primeira geada, tinha sido arrumado com a suavidade de quem ordena um mundo que já não existe. Orlando carregava uma serenidade que não se compra, dessas que só se colhe vivendo. Era um sobrevivente de um tempo em que “nuvem” não passava de um fiapo de céu se desmanchando ao vento e “salvar” ainda era o gesto urgente de segurar uma mão no instante em que ela começava a se desfazer em distração.

Ali, na fila, ele esperava ser atendido por alguém humano que pudesse lhe explicar por que precisava de um e-mail para ter internet. O atendente, com topete tapando somente um dos olhos e uma tatuagem de QR code no pescoço, o olhava para ele com uma piedade impacientemente silenciosa — como se fosse uma máquina que, por um segundo, quase consegue entender o humano.

Mas se eu não tenho internet… como é que eu faço para ter um e-mail? — perguntou Orlando.

O mundo inteiro cabia nessa pergunta: era o passado tropeçando no futuro e o eterno no provisório.

Aquele momento era apenas uma batalha de uma guerra que havia começado tempos antes, quando Orlando decidiu instalar sozinho o roteador. Com a coragem de quem enfrenta o destino, ele abriu o manual como se fosse um romance antigo: esperando que as palavras o abraçassem. Mas não abraçaram. O manual era duro, frio, com instruções que mais pareciam labirintos.

A certa altura, ele leu que precisava criar uma senha forte. Pensou, pensou, até que encontrou uma que lhe parecia invencível: DEUSMEAJUDE123. Mais que uma senha, era um tipo de súplica.

Zap! Por alguns minutos, tudo funcionou. As luzinhas do roteador começaram a piscar como vagalumes em noite morna. E o Orlando sorriu, aquele sorriso que só se tem quando o mundo parece obedecer.

Mas foi por pouco tempo, porque logo o sistema pediu uma atualização. E ali o sorriso de Orlando murchou.

Nem a minha finada mulher era tão exigente — disse, com humor melancólico.

Era o amor e a tecnologia ao mesmo tempo: dois mundos que vivem pedindo acesso, provas de presença e um tanto da nossa paciência — e no fim ainda jogam na nossa cara que “precisamos de atualização”.

Mas não foi só essa batalha. Em outra oportunidade, Orlando foi até a prefeitura para solicitar o desconto do IPTU para idosos. Um ritual que já foi simples como bom-dia, mas que virou rito de passagem digital, cheio de códigos, telas, confirmações, negações, janelas que aparecem e somem como a lua entre nuvens passageiras.

Naquele dia ele resmungou:

Agora eu preciso provar pra máquina que eu sou eu.

Havia nesse desabafo solitário o eco de Vinicius de Moraes: “Quem já passou por essa vida e não viveu…”

Era engraçado e, ao mesmo tempo, triste: um homem tentando convencer uma tela de que ele existia, enquanto a vida inteira passava silenciosa, entre gestos simples, cafés frios e manhãs desperdiçadas sem perceber. A máquina pedia senhas, confirmações, paciência; ele oferecia um sorriso cansado. Talvez o Poetinha tivesse razão — quem não vive acaba gastando tempo tentando provar que existe, em vez de realmente estar presente no mundo.

Orlando estava passando por essa vida e vivendo, mas agora precisava provar isso para um sistema que não sabia nada de amor, nem de perdas.

Essa batalha do IPTU ele perdeu. Teve que chamar o neto, um menino que conversa com os contatinhos com a velocidade de quem pula os anúncios para poder ver os vídeos no YouTube.

Certa vez, ele convenceu Orlando a experimentar a Inteligência Artificial:

Ela sabe tudo — disse ao avô.

Curioso, Orlando perguntou o que ela pensava sobre Vinicius de Moraes. A máquina devolveu um mundo completo: datas, versos, análises, tudo tão perfeito que parecia não ter sido tocado por ninguém vivo.

Bonito… Mas ela não sentiu o Vinicius. A vida só se dá para quem se deu. Não dá pra entender ele sem ter levado uns tombos da vida – disse Orlando.

Daí eu entendi: Orlando não lutava contra o digital, mas contra a troca da pele pela tela. Contra o fim do toque. Contra a morte lenta da presença.

Na verdade, toda a guerra do Orlando tinha a ver com amor. Porque ele ainda acredita em cartas que carregam perfume, em conversas que se alongam até o pastel da feira, em saudades que se escrevem com a mão inteira.

E quando ele vê o neto e os contatinhos namorando pela tela, suspira:

O amor virou Wi-Fi: quando o sinal tá forte, todo mundo quer. Quando cai, ninguém reinicia.

E de novo ecoou Vinicius: “Que seja infinito enquanto dure.”

Estávamos conversando quando o celular dele vibrou. Era uma mensagem automática do plano de saúde:

“Parabéns Senhor Orlando pelos 79 anos! Confira nosso plano de seguro funeral.”

Orlando abriu um sorriso largo, exibindo a dentadura nova que brilhava com a honestidade de quem já assumiu ser banguela, dizendo:

Até pra morrer agora precisa assinar. Até a morte virou algoritmo.

E gargalhou como quem desafia o próprio fim.

E enquanto as luzinhas do roteador refletiam no rosto dele como estrelas humildes, Orlando perguntou:

E se um dia isso pensar sozinho e me desligar?

Eu ri e respondi:

Você anda vendo muito filme.

Ele me olhou e falou com serenidade antiga:

Diziam que a televisão não ia mudar nada. Hoje ela mora no bolso das pessoas e diz o que elas têm que pensar.

Silêncio. Um silêncio tão pesado que parecia música.

E dentro do silêncio, de novo, Vinicius murmurou: “A vida é a arte do encontro…”

Dias desses encontrei Orlando na padaria. Estava tomando um café coado e assistindo a um tutorial no celular. Ao me ver, disse com brilho de criança nos olhos:

Aprendi! Finalmente aprendi!

Perguntei:

O que está vendo?

Ele respondeu:

Como cancelar assinatura do antivírus.

Não sei por quê, mas aquilo me pareceu profundamente humano. Talvez porque ali estava a prova: Orlando nunca desiste. Orlando insiste. Orlando resiste.

E enquanto as pessoas em volta tiravam foto do pão na chapa, postavam “bom diaaaa” e “ oieee” com emojis e fingiam felicidade em filtros, ele sorvia o café devagar, como quem degusta o tempo com respeito. Um homem analógico num mundo que virou download.

Na hora de me despedir, Orlando olhou para mim com delicadeza e disse:

A tecnologia é como um amor moderno: promete tudo, mas some na primeira instabilidade.

E riu com as rugas da verdade no rosto.

Já na porta olhei pra trás e o vi segurando o celular como se segurasse um pássaro tímido que ainda pode voar. E conclui que o Orlando luta para não ser esquecido. Para manter acesa a chama da vida que não cabe no digital. Para lembrar que somos feitos de carne, tempo e poesia.

E então, como quem fecha o dia com um sopro de beleza, lembrei do verso que parecia escrito pra ele — e, talvez, pra todos nós

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”

Na verdade o Orlando é o encontro e o resto é só sinal instável.

Mário César Carvalho é advogado, professor de Direito e cronista deste portal

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