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Cláudio Osti

Os Primeiros Gritos da Pátria de Chuteiras

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Os Primeiros Gritos da Pátria de ChuteirasPor Marcos Defreitas

A Copa do Mundo não começa quando o árbitro apita. Não começa quando as bandeiras tremulam nem quando os hinos desafinam nas arquibancadas. Para o brasileiro, a Copa só nasce quando a bola brasileira encontra a rede pela primeira vez.
Antes disso, somos um país em suspense. Depois disso, voltamos a acreditar na eternidade.
Desde 1930, vinte e duas Copas passaram diante dos nossos olhos. Em vinte e uma delas, alguém teve a honra de fazer o primeiro gol brasileiro. Apenas em 1974 o país precisou esperar até o terceiro jogo para ouvir o primeiro grito. Alguns se transformaram em lendas. Outros ficaram esquecidos em algum canto da memória nacional. Mas todos tiveram um instante de divindade.
O primeiro foi João Coelho Neto, o Preguinho, na derrota para a Iugoslávia. O Brasil perdeu o jogo, mas encontrou sua voz.
Depois vieram Leônidas da Silva, o Diamante Negro, o Homem Borracha, inventor da bicicleta e duas vezes pioneiro, em 1934 e 1938. O futebol brasileiro ainda era uma promessa e já produzia personagens que pareciam saídos de um romance. Em 1938, na vitória por 6 a 5 sobre a Polônia, aconteceu a estreia mais extravagante da nossa história. Onze gols numa única partida. Um jogo tão delirante que parece ter sido escrito por um cronista bêbado de imaginação.
Ademir inaugurou 1950. Baltazar abriu 1954. Mazzola fez o primeiro de 1958. Zagallo marcou em 1962. Pelé apareceu em 1966. Rivellino em 1970.
E então veio 1974.
O Brasil chegava carregando nas costas a sombra luminosa da Seleção de 1970. O problema é que ninguém substitui um sonho. A equipe empatou sem gols contra a Iugoslávia. Empatou sem gols contra a Escócia. O país inteiro esperava pelo primeiro grito e ele não vinha. Pela única vez na história, o primeiro gol brasileiro numa Copa precisou esperar o terceiro jogo. Quando Jairzinho finalmente marcou contra o Zaire, parecia menos um gol e mais uma libertação.
Reinaldo surgiu em 1978. Sócrates repetiu o feito em 1982 e 1986. Apenas ele e Leônidas tiveram a honra de inaugurar duas Copas diferentes.
Depois vieram Careca em 1990, Romário em 1994, César Sampaio em 1998, Ronaldo em 2002, Kaká em 2006, Maicon em 2010, Neymar em 2014, Philippe Coutinho em 2018 e Richarlison em 2022.
O curioso é que esses primeiros gols contam a história do futebol brasileiro melhor do que muitos livros.
Ali estão Leônidas, Pelé, Sócrates, Romário, Ronaldo, Kaká e Neymar. Ali estão gênios absolutos. Mas também estão operários ilustres como César Sampaio e Baltazar. A camisa amarela tem dessas coisas. Às vezes escolhe um rei. Às vezes escolhe um cidadão comum para representar uma nação inteira por alguns segundos.
Ao longo dessas vinte e duas estreias, o Brasil venceu dezessete vezes, empatou três e perdeu duas. Marcou 49 gols nas estreias.
Nenhum país entra em campo carregando tantas expectativas.
E há tragédias escondidas entre os triunfos.
Em 1950, Ademir marcou o primeiro gol da campanha e o Brasil atropelou o México. O país acreditou que a taça já estava reservada. Meses depois veio o Maracanazo, a derrota para o Uruguai que transformou uma multidão em estátua.
Em 2014, Neymar marcou o primeiro gol da campanha e o Brasil derrotou a Croácia. Mais uma vez parecia que o destino estava domesticado. Mais uma vez o futebol preparava sua armadilha. O que viria depois seria ainda mais inacreditável. O 7 a 1 contra a Alemanha. Se o Maracanazo foi uma tragédia, o Mineiraço foi um terremoto emocional. Em 1950 morreu um sonho. Em 2014 morreu a certeza de que certas coisas não podiam acontecer.
E assim seguimos.
A cada quatro anos surge um novo autor para o primeiro capítulo da história brasileira em Copas. Alguns deixam apenas uma assinatura. Outros escrevem epopeias.
Mas todos recebem o mesmo privilégio.
São eles que acordam o Brasil.
São eles que fazem um país de mais de duzentos milhões de almas levantar do sofá ao mesmo tempo.
São eles que anunciam ao mundo, com a simplicidade brutal de uma bola cruzando a linha, que a Seleção chegou.
E enquanto existir Copa do Mundo, haverá sempre um brasileiro destinado a carregar esse primeiro grito da pátria nos pés.
Por isso, ao olhar para essa galeria de pioneiros, dos reis aos esquecidos, dos gênios aos improváveis, cabe um último gesto de gratidão.
Obrigado, João Coelho Neto ( Preguinho).
Foi você quem abriu a porta. Foi você quem deu ao Brasil o primeiro grito de Copa do Mundo. E, de certa forma, todos os outros vieram depois apenas para fazer eco ao seu.
Hoje teremos um novo herói?

Marcos Defreitas, jornalista formado pela UEL desde 1993 e será colaborador do nosso portal durante a Copa do Mundo. Ele já passou por cargos como vereador, secretário de Planejamento e presidente da Cohab. Corinthiano de coração, é daqueles que não perde uma boa história sobre futebol. Além dos jogos, gosta de mergulhar nas curiosidades, personagens e bastidores que fazem das Copas do Mundo um espetáculo dentro e fora de campo.

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