Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

Ferenc Puskas, o Homem que Virou Adjetivo e Sobrenome de Obra Prima

0 comentário

Ferenc Puskas, o Homem que Virou Adjetivo e Sobrenome de Obra Primapor Marcos Defreitas

​Se você acompanha futebol hoje em dia com certeza já soltou um belo de um “Rapaz, esse gol merece o prêmio Puskas”. Inclusive agora em 2026 com os olhos do planeta inteirinho voltados para os gramados porque a Copa do Mundo está acontecendo neste exato momento fica até fácil imaginar qual craque vai levar essa honraria para casa. Mas você já parou para pensar em quem foi Puskas, o homem por trás do troféu Puskas, que é o troféu mais plástico do planeta?

Ferenc Puskas, o Homem que Virou Adjetivo e Sobrenome de Obra PrimaNão, Puskas não é uma palavra mágica para filé de borboleta ou bola no ângulo. Puskas foi um senhor jogador. Aliás, Puskas era um senhor literalmente em vários momentos da carreira.

Pegue seu café, ajuste a tática e venha entender como Ferenc Puskas, um baixinho gordinho com silhueta de tiozão do churrasco, revolucionou o esporte.
​Nos anos cinquenta a Hungria não jogava futebol, eles praticavam feitiçaria com bola e o feitiço principal vinha dos pés de Puskas. O líder do bando era Ferenc Puskas, também conhecido pelo humilde apelido de Major Galopante porque Puskas era oficial do exército mesmo ou, para os íntimos da grande área, Puskas era A Canhota de Ouro.

Em 1952 Puskas e seus parças levaram o ouro nas Olimpíadas. Mas o grande soco no estômago do orgulho europeu aconteceu em 1953 no lendário estádio de Wembley, quando Puskas destruiu os donos da casa. Os ingleses achavam que ninguém jogava mais do que eles, mas Puskas olhou para aquela empáfia britânica e pensou “Segura meu goulash”. O resultado foi um acachapante seis a três para a Hungria, com Puskas aplicando um drible seco tão desconcertante no capitão adversário que o coitado deve estar procurando o Puskas até hoje no mapa. Em 1954 Puskas e sua turma foram para a Copa do Mundo e só não levaram o caneco por um daqueles caprichos do destino.
​Para quem acha que Puskas era só firula, vamos aos números inacreditáveis do homem. Puskas, com apenas 1,66 de altura, colocou a bola na rede quinhentas e doze vezes em apenas quinhentas e vinte e oito partidas. Essa média absurda de quase um gol por jogo faz de Puskas o terceiro maior artilheiro de todo o século vinte, deixando claro que o húngaro tinha um estômago de leão para devorar defesas adversárias. Puskas também gostava de uma decisão grandiosa. Puskas faz parte de um clube exclusivíssimo de apenas quatro atletas em toda a história da humanidade que conseguiram a proeza de marcar gols tanto em finais de Olimpíada quanto em finais de Copa do Mundo. Puskas divide essa mesa VIP com o seu compatriota Zoltán Czibor, com o uruguaio Pedro Cea e com o seu parceiro argentino Alfredo Di Stefano. Ou seja, se o jogo valia uma medalha planetária ou a taça do mundo, Puskas aparecia para carimbar a rede.
​Em 1956 a política azedou na Hungria e Puskas teve que picar a mula. Dois anos depois com trinta e um anos nas costas, o que naquela época significava quase a terceira idade do futebol, Puskas bateu às portas do Real Madrid. Imagine a cena de comédia pastelão, o Puskas chega flácido, claramente fã de uma boa gastronomia, com aquela pancinha de quem adora uma coxinha e totalmente fora de forma. A imprensa espanhola coçou a cabeça e os torcedores acharam que trazer Puskas era piada. O que Puskas fez? Puskas apenas calou o planeta e fez a dieta do gol. Puskas se reinventou ao lado de ninguém menos que Alfredo Di Stefano e Puskas formou uma das parcerias mais apocalípticas da história. O gordinho Puskas marcou a bagatela de duzentos e quarenta e dois gols em duzentos e sessenta e dois jogos e Puskas faturou cinco Copas dos Campeões consecutivas. Nada mal para o Puskas que parecia estar pronto para o campeonato de veteranos do bairro.
​A genialidade de Puskas era tanta que desde 2009 a Fifa concede o Prêmio Ferenc Puskas ao autor do gol mais bonito do ano. E a escolha do nome Puskas feita pela Fifa foi cirúrgica porque Puskas não fazia gol feio de canela após um bate rebate esquisito, Puskas esculpia as jogadas. O Troféu Puskas oferecido pela Fifa é a coisa mais democrática do mundo e não liga para o seu salário. Quer a maior prova de que o Prêmio Puskas é do povo? O Brasil já ganhou esse Puskas, mas não foi com nenhum craque de bilhões da Europa. O ano era 2015 e o herói do Puskas foi Wendell Lira, que jogava pelo Goianésia no campeonato goiano. Sob uma chuva daquelas de inundar bueiro e diante de pouco mais de trezentos torcedores pagantes, ele recebeu um passe por elevação e meteu uma meia bicicleta, uma espécie de voleio acrobático girando no ar que garantiu o Puskas, desafiou as leis da física e desbancou ninguém menos que Lionel Messi na votação mundial do Puskas organizada pela Fifa. Wendell viajou de terno para a festa, embolsou o Puskas e provou que o espírito de Puskas também baixa em solo goiano. Neymar ganhou em 2011 e Guilherme Madruga em 2023.
​No fim das contas Ferenc Puskas conseguiu o maior feito que um atleta pode desejar porque Puskas não é apenas uma foto velha nos livros de história. Puskas virou o adjetivo supremo da bola na rede. Enquanto os jogadores correm atrás da glória eterna nesta Copa do Mundo que estamos assistindo agora, todos eles sabem que além da taça principal existe a chance de entrar para a história no quesito arte. Toda vez que um jogador acerta um chute impossível ou uma jogada de cinema o mundo inteiro evoca o nome de Puskas automaticamente. Puskas virou sinônimo de mágica e de beleza pura. Quando a rede balança daquele jeito que faz a gente pular do sofá e derrubar tudo na sala com certeza o velho Puskas dá uma piscada de olho lá de cima porque o futebol pode mudar de tática ou virar um grande negócio mas a genialidade de Puskas vai ser eterna enquanto houver um gol bonito para aplaudir.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para contar histórias das Copas

Compartilhe:

Veja também

Deixe o primeiro comentário