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Cláudio Osti

O Berço e o Túmulo no Mesmo Gramado

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O Berço e o Túmulo no Mesmo GramadoPor Marcos Defreitas

​A bola é um elemento cruel e muitas vezes dita o fim da linha cedo demais para os nossos craques. Vejam a tragédia pessoal de Neymar, que arrasta os seus pés para jogar a Copa do Mundo de 2026 aos trinta e quatro anos de idade. Ele ainda vive exilado na dúvida do eterno menino, aquele sujeito que tem até o carro do Batman na garagem, mas que nunca conseguiu a coroa de melhor do mundo. Neymar poderá pisar no gramado sob o peso esmagador de uma obsessão, pois ele sabe que precisa provar ao Brasil e ao mundo inteiro que não é uma farsa, que realmente ainda é um craque de verdade.
​Essa pressa da alma faz todo o sentido, porque a juventude no esporte é um sopro rápido e o corpo cobra o seu preço. O genial Ronaldinho Gaúcho jogou sua última Copa com apenas vinte e seis anos, parecendo ter uma pressa cega de viver. Já Romário e Kaká deixaram os Mundiais bem cedo também, aos vinte e oito anos, abandonando o palco no meio do espetáculo. Ronaldo Fenômeno e o nosso Rei Pelé pisaram no gramado da competição pela última vez aos vinte e nove anos, enquanto Rivaldo aguentou as dores até os trinta anos. O mais resistente desse grupo foi Zico, que segurou firme e disputou sua última Copa com trinta e três anos na espinha, uma marca de longevidade que o contestado Neymar agora tenta superar.
​A história da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo é um drama tecido entre a audácia da juventude e a teimosia do tempo. No começo de tudo surge Edu, o jogador mais novo a ser convocado em toda a história da nossa Seleção ao ir para o Mundial de 1966 com apenas dezesseis anos de idade. Ao seu lado na linha da extrema juventude está Pelé, que também tinha apenas dezesseis anos de idade quando foi convocado para a Copa de 1958. No extremo oposto dessa saga humana, como o homem mais velho a vestir a nossa camisa em um torneio mundial, aparece Daniel Alves, que jogou na Copa do Catar aos trinta e nove anos, provando que a paixão pelo futebol ignora a decadência da carne e a tirania do calendário.
​Na nossa atual Seleção, o drama das idades ganha contornos de uma comédia humana. O goleiro Weverton surge como o homem mais velho do grupo com trinta e oito anos de idade, carregando no semblante o peso e a sabedoria dos anos. Ele é o contraste perfeito e absoluto para os meninos Endrick e Rayan. Os dois garotos são os caçulas do elenco brasileiro com dezenove anos, mas o destino quis um detalhe ainda mais curioso, pois eles nasceram quase juntos e possuem apenas dezenove dias de diferença de idade. É a juventude em flor dividindo o vestiário com o inverno da carreira.
​Mas a história do futebol também guarda um espaço sagrado para os homens que cospem na face do tempo. O recorde de homem mais velho a erguer a taça de campeão do mundo ainda pertence ao lendário goleiro italiano Dino Zoff. Ele foi campeão na Copa de 1982 com impressionantes quarenta anos e cento e trinta e três dias de idade, deixando claro que a glória eterna não liga para as rugas e não respeita a certidão de nascimento.
​Hoje, no mesmo torneio em que Neymar busca a salvação da sua biografia, os extremos da vida se encontram no mesmo pedaço de grama. O jogador mais novo de toda a competição é o meia mexicano Gilberto Mora, que tem apenas dezessete anos e o cheiro do leite. No outro lado do abismo está o goleiro escocês Craig Gordon, um gigante que joga com quarenta e três anos de idade. Vejam vocês que ironia fantástica e assustadora. A diferença de idade entre o menino e o veterano é de exatos vinte e seis anos. Essa distância é exatamente o tempo de vida que Ronaldinho Gaúcho tinha quando se despediu para sempre das Copas, provando que o futebol é o único lugar do universo onde o berço e o túmulo correm atrás da mesma bola.

Marcos Defreiras é jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e colunista convidado para escrever sobre as Copas do Mundo

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