Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

A Copa dos Reis que atravessaram o deserto

0 comentários

por Marcos Defreitas

Muitos anos depois de conquistar o tricampeonato mundial no México, Pelé revelou algo que parece impossível para quem conhece apenas a imagem do Rei erguendo a Taça Jules Rimet.
Ele não queria disputar a Copa de 1970.
Machucado, abatido e profundamente incomodado com as críticas que recebia, chegou a declarar que não participaria daquele Mundial. Em suas recordações, admitiu que estava triste com tudo o que havia acontecido ao seu redor. Não existiam redes sociais. Não havia influenciadores, algoritmos ou multidões digitais prontas para transformar qualquer erro em sentença. Mesmo assim, a cobrança era intensa. E a ingratidão também.
A Copa dos Reis que atravessaram o desertoA grandeza nunca protegeu os reis da solidão.
Pelé havia conquistado duas Copas do Mundo. Era o maior jogador do planeta. Ainda assim, sentia o peso das críticas e da desconfiança. O homem que parecia um gigante para o mundo carregava dúvidas que pertenciam a qualquer mortal.
O Rei atravessava o seu deserto.
E esteve muito perto de abrir mão justamente da Copa que acabaria eternizando sua lenda.
Foi então que surgiu a influência decisiva de João Ramos do Nascimento, o eterno Dondinho. O pai ajudou a fazê-lo reconsiderar sua posição. Convenceu o filho a não abandonar a Seleção e a não desistir de um capítulo que ainda estava por ser escrito.
A história agradeceu.
Porque a Copa de 1970 não produziu apenas um campeão.
Produziu, para muitos especialistas, o maior time da história das Copas do Mundo.
A própria lembrança de Pelé ajuda a explicar por quê.
Ao recordar aquele período, ele destacou a importância de João Saldanha. Jornalista, cronista, homem de personalidade forte e conhecido por enfrentar o regime militar sem abrir mão das próprias convicções. Foi ele quem percebeu que a Seleção precisava de uma identidade.
Enquanto muitos defendiam uma convocação baseada em peças espalhadas por diversos clubes, Saldanha escolheu outro caminho.
Segundo o próprio Pelé, a ideia era simples.
Não levar quatro ou cinco equipes diferentes para dentro da Seleção.
Não começar tudo do zero.
Era preciso aproveitar a base dos melhores times do país e criar um grupo que chegasse pronto para jogar.
Naquele momento, Santos e Botafogo formavam a espinha dorsal do projeto. Depois vieram jogadores extraordinários do Cruzeiro, que vivia uma fase brilhante. Tostão entrou para ser um dos cérebros da equipe. Piazza, que atuava no meio campo, acabou sendo adaptado para a defesa. Outros talentos completaram um elenco que rapidamente adquiriu identidade própria.
Os especialistas da época ficaram alarmados.
Parecia uma seleção construída por um sonhador.
Pelé era o camisa 10 do Santos.
Tostão era o camisa 10 do Cruzeiro.
Rivellino era o camisa 10 do Corinthians, dono de uma das canhotas mais temidas da história do futebol.
Gérson era o grande articulador do Botafogo.
A pergunta surgia em cada debate esportivo.
Como tantos reis poderiam jogar juntos?
Como tantos homens acostumados a comandar seus próprios reinos aceitariam dividir a mesma coroa?
O futebol respondeu de forma magistral.
Transformando o impossível em arte.
Pelé lembraria muitos anos depois que aquele grupo já se conhecia profundamente. As Eliminatórias foram praticamente perfeitas. A equipe sofreu poucas alterações ao longo do caminho. Os jogadores entendiam os movimentos uns dos outros quase por instinto.
Nas palavras do próprio Rei, a Seleção jogava por música.
Talvez não exista definição melhor.
O Brasil de 1970 parecia executar uma partitura invisível.
Cada passe encontrava seu destino.
Cada deslocamento tinha sentido.
Cada talento potencializava o outro.
Era uma reunião de reis que compreenderam uma verdade rara no esporte.
Ninguém precisava diminuir para que o outro brilhasse.
A ironia da história é que João Saldanha não pisaria no palco principal. Acabou substituído por Zagallo pouco antes da Copa. O Velho Lobo assumiu o comando e conduziu a equipe ao tricampeonato.
Mas a semente já estava plantada.
A arquitetura daquela obra-prima já existia.
E o resultado atravessou gerações.
Pelé.
Tostão.
Rivellino.
Gérson.
Jairzinho.
Carlos Alberto.
Clodoaldo.
Homens que transformaram futebol em expressão artística.
Talvez por isso a história de Pelé dialogue tão profundamente com os grandes personagens da atualidade.
Messi também atravessou seu próprio deserto. Foi criticado, questionado e chegou a cogitar deixar a seleção argentina antes de encontrar a redenção na Copa do Mundo de 2022.
Cristiano Ronaldo vive outro tipo de desafio. Seus números já escaparam da esfera humana. Gols, partidas, recordes e longevidade compõem uma trajetória que se aproxima mais de uma máquina do que de um atleta comum. Sua determinação transformou disciplina em método e obsessão em combustível. Mas nem mesmo as máquinas escapam da passagem do tempo.
Neymar ocupa um lugar singular nessa galeria. Herdou a responsabilidade impossível de ser outro Pelé. Durante mais de uma década carregou não apenas a camisa 10 da Seleção Brasileira, mas também a expectativa de suceder o maior jogador que o futebol produziu. Era uma missão inalcançável desde a origem. Nenhum jogador poderia ser um novo Pelé porque Pelé pertence ao território das exceções. Ainda assim, Neymar assumiu esse peso. Conquistou títulos, colecionou gols, encantou estádios e tornou-se um dos maiores talentos de sua geração. Como Sansão, porém, viu lesões sucessivas reduzirem parte da força que o tornava devastador. E a Copa do Mundo, justamente o troféu que poderia aproximá-lo simbolicamente do Rei, permaneceu fora de seu alcance.
Até Guillermo Ochoa, sem a fama dos grandes artilheiros, construiu sua própria eternidade. O goleiro mexicano transformou defesas em atos de resistência e tornou-se um dos personagens mais marcantes da história recente dos Mundiais.
Todos eles possuem algo em comum.
Conheceram a solidão que acompanha a grandeza.
Porque os reis recebem aplausos diante das multidões.
Mas enfrentam seus abismos sozinhos.
Pelé enfrentou os seus antes da Copa de 1970.
E quase não esteve lá.
Ainda bem que mudou de ideia.
Porque o futebol jamais teria conhecido sua obra mais perfeita.
Talvez seja por isso que a atual Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos carregue um significado tão especial. Ela marca os últimos capítulos de uma geração que dominou o futebol por quase duas décadas.
Messi, campeão do mundo e herói nacional argentino.
Cristiano Ronaldo, dono de números que desafiam a lógica humana.
Guillermo Ochoa, o goleiro que transformou resistência em arte e se tornou personagem permanente dos Mundiais.
E Neymar, o herdeiro de uma missão impossível, a de carregar a camisa 10 do Brasil sob a sombra eterna de Pelé.
Todos já pertencem à história.
Todos já ultrapassaram a condição de simples jogadores.
São os anciões de uma era dourada do futebol.
E assim como a Copa de 1970 seria impensável sem Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, Jairzinho e tantos outros reis, a Copa dos Estados Unidos perderia parte de sua alma sem Messi, Cristiano Ronaldo, Ochoa e Neymar.
Porque Copas do Mundo são feitas de gols, títulos e taças.
Mas são lembradas para sempre pelos personagens que lhes deram vida.
E os reis, mesmo quando envelhecem, continuam sendo reis.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa do Mundo

Compartilhe:

Veja também

Deixe o primeiro comentário