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Dez escorpiões numa garrafa

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Dez escorpiões numa garrafa

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

Por Elio Gaspari, publicado originalmente em O Globo

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça — vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.

Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.

Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque julgaram-se invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.

Cármen Lúcia cantou a pedra

Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse:

“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”.

Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez. Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino disse do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá:

“Essas 200 páginas (de relatório da PF), para mim, são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico.”

Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses agapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?

Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos Diogo Batista, conhecido como “o conciérge dos VIPs”.

Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.

Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.

Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Julia Mouras mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro que as avaliava nas categorias “wow”, “loirinha top” ou “+ -”.

Em junho de 2004, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão.

Em agosto de 2025 Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas, e ela reclamou que Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”.

“Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.

Falta saber qual era o “business” dos convidados de Vorcaro.

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