Por Marcos Defreitas
Ah, meus amigos, o futebol não é um simples jogo de noventa minutos. É um drama cinematográfico, uma febre coletiva que faz o estagiário da AABB e o Rei Pelé sangrarem a mesma paixão. Em plena Copa do Mundo, com as arenas lotadas e as redes sociais fervendo, qualquer um consegue enxergar que a mesma alma da final do mundial pulsa no sintético do futebol suíço e no suor do futsal. Existe uma força magnética, quase transcendental, que molda trajetórias inacreditáveis, arrancando o atleta do anonimato absoluto para colocá-lo no topo do planeta.

Essa mesma essência integradora, que conecta o topo ao futebol de base, fundamenta as diferentes ramificações do esporte nas comunidades brasileiras. E aqui vale o registro histórico e a reverência a Vasco de Almeida Martins, um desses personagens gigantescos que o esporte perdeu na última semana. Esse visionário português, naturalizado brasileiro, olhou para a Londrina dos anos 1960 e teve uma sacada genial. Percebeu que o futsal era dinâmico demais para os veteranos e que faltavam grandes campos na área urbana. Com uma visão certeira, Vasco criou o futebol suíço, o society, um formato recreativo, sem a burocracia do impedimento e jogado com calçados sem travas altas. A modalidade, devidamente patenteada por ele, espalhou se por chácaras e clubes sociais do planeta inteiro, transformando para sempre o lazer amador e a convivência comunitária. Vasco merece todas as homenagens neste mês de Copa, unindo se simbolicamente a Pelé, Garrincha e Jules Rimet na galeria dos eternos apaixonados que moldaram o esporte.
E não se enganem achando que o futebol reduzido é menor. O suíço, nascido para a descontração, foi o trampolim para uma lenda internacional, Giovane Élber. O atacante jogava os torneios da Associação Atlética Banco do Brasil AABB em Londrina, conciliando a sua genialidade com a rotina de estagiário. Mas o destino move suas peças, o então presidente do Londrina Esporte Clube, Iran Campos, assistiu o jovem brilhando no futebol suíço e o resgatou para o campo grande. Dali, num salto espetacular, Élber chegou à Seleção Brasileira e se transformou em um dos maiores ídolos da história do Bayern de Munique, na Alemanha.
O caminho de dominar espaços curtos para depois reinar nos grandes estádios é a trilha dos gênios. No futsal, com o drible curto e a tomada de decisão rápida, nomes como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Vinícius Júnior, Marcelo, Casemiro e Philippe Coutinho lapidaram sua técnica refinada antes de encantar o mundo na Seleção Brasileira de campo. É impossível esquecer o caso de Falcão do salão, que levou a genialidade das quadras ao limite extremo, tornando se o maior de todos os tempos no futsal e mostrando que as quadras formam deuses da bola. E essa eletricidade não é exclusividade nossa. Na Europa, o atacante inglês Jamie Vardy saía dos gramados amadores de fim de semana, dividindo a rotina com o trabalho pesado em uma fábrica, para virar campeão da Premier League e disputar a Copa do Mundo de 2018 pela Inglaterra. O brasileiro Junior Messias começou com o futsal e depois jogava uma liga de futebol de sete na Itália enquanto trabalhava como entregador, até ser contratado pelo Milan e conquistar o título nacional.
Vasco de Almeida Martins misturou sua trajetória a essa paixão global que move craques de campo, lendas do futsal como Falcão, e trabalhadores do dia a dia. Seja na quadra de cimento, no gramado sintético ou no estádio lotado, a bola segue conectando vidas e transformando realidades ao redor do globo. Vasco partiu, mas a sua criação permanece viva, eterna como uma tarde de futebol.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa do Mundo














