Por Marcos Defreitas
O Palácio do Planalto e a Granja Comary ficam a centenas de quilômetros de distância, mas, no Brasil, a linha que separa a cadeira presidencial da grande área sempre foi um traço de giz na areia. Há uma força magnética irresistível que empurra os donos do poder em direção aos donos da bola, geralmente resultando em um choque de egos onde a liturgia do cargo costuma sair com o calção sujo de lama. Governantes adoram se comportar como técnicos de arquibancada, esquecendo que o vestiário da Seleção Brasileira é um território soberano e, muitas vezes, implacável.

O tempo passou, os personagens mudaram, mas o vício do palpite presidencial continuou o mesmo. Recentemente, o alvo da vez foi o atual camisa dez, ironizado por Lula sob a alegação de que ele não poderia mais ser considerado um atleta de ponta no exterior, definindo-o de forma provocativa como o primeiro convocado home office do mundo. A resposta de Neymar manteve a tradição do contra-ataque sem filtros, publicando uma sutil e direta ironia em inglês dizendo que estava no day off, deixando claro que não existia dia de folga nos seus treinos. A oposição não perdeu tempo e pegou carona no episódio para fustigar o chefe do Executivo, criando uma daquelas lendas urbanas de internet que espalhou que a verdadeira resposta do jogador teria dito que ele nunca foi preso. Entre generais e presidentes operários, a bola continua sendo o elemento mais democrático e atrevido do país. Ela não pede bênção ao poder e não se curva ao terno e gravata. No grande Fla-Flu da história brasileira, quem senta na cadeira presidencial pode até assinar o Diário Oficial, mas, quando resolve invadir a área para apitar o jogo, quase sempre sai de campo levando uma goleada de deboche dos donos da camisa dez.
Marcos Defreitas é jornalista formado na














