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Cláudio Osti

​A Copa, o Pênalti e a Solidão Absoluta

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​A Copa, o Pênalti e a Solidão Absoluta

Por Marcos Defreitas

​O futebol é o único lugar do mundo onde um homem vestido de terno e gravata, que passa a semana inteira assinando balanços fiscais em uma sala de escritório com ar condicionado, pode ser convocado para resolver o destino de uma torcida inteira. Dizia Neném Prancha (1906-1976), o lendário olheiro, treinador de futebol de praia e cronista carioca conhecido como o filósofo do esporte por suas frases geniais e irreverentes, que o pênalti é uma cobrança tão importante que deveria ser batida pelo presidente do clube. A frase ficou marcada na história do esporte e virou uma máxima, traduzindo com perfeição o peso que existe ao ver a bola parada na marca da cal, a apenas onze metros da rede.
​Imagine a cena de uma grande decisão, o relógio avançando nos acréscimos e o placar empatado. O juiz aponta para a marca da cal e o estádio, antes um vulcão de gritos ensandecidos, silencia sob o peso da expectativa. O batedor oficial desaba com as mãos nos joelhos, sentindo a enorme responsabilidade de carregar as esperanças de milhões de torcedores, pois o pênalti isola o atleta diante de um momento definitivo.

​A Copa, o Pênalti e a Solidão Absoluta
​É nesse instante de extrema pressão que o sistema de som do estádio anuncia a substituição e sai o principal atacante para entrar o próprio dirigente em pessoa. O presidente desce da tribuna de honra sem usar o uniforme do time ou chuteiras modernas, calçando sapatos de couro que escorregam na grama úmida. Ele não puxa o meião e apenas ajusta o nó da gravata enquanto caminha em direção à grande área. O vento balança o seu paletó e o público prende a respiração, pois a partida deixa de ser uma questão de tática e passa a ser uma cobrança puramente administrativa.
​A beleza da frase de Neném Prancha mora na ironia que o tempo acabou distorcendo. Anos mais tarde, ele confessou que as pessoas entenderam a sua declaração do jeito avesso. Para ele, o pênalti era uma tarefa tão simples diante de um gol gigantesco e de um goleiro estático que até mesmo o presidente do clube seria capaz de fazer.
​No fundo, o pensamento do filósofo tentava desmistificar o medo porque sabia que o pênalti se torna um tormento pela importância que atribuímos a ele. Se fosse cobrado pelo dirigente, o gol seria apenas uma obrigação de rotina e o erro seria encarado como mais uma promessa não cumprida. Mas, na distância real entre o bico do sapato social e a rede, o futebol faz questão de lembrar que, diante da marca da cal, todo homem sente o peso da responsabilidade e nenhum cargo diminui a pressão do momento.
​A história das Copas do Mundo é repleta dessas cobranças que definiram o destino de grandes seleções. Em 1986, sob o sol do México, o Brasil viveu um de seus momentos mais marcantes. Zico, um dos maiores camisas dez da nossa história, entrou no segundo tempo da partida contra a França e teve a chance de selar a vitória no tempo normal. O craque assumiu a responsabilidade, mas o goleiro Bats defendeu a cobrança, frustrando a torcida brasileira. O jogo seguiu para a prorrogação e acabou na primeira decisão por pênaltis do Brasil em Mundiais, onde os erros de Sócrates e Júlio César confirmaram a eliminação daquela grande geração.
​Por outro lado, o futebol também oferece espaço para a superação. Em 1994, nos Estados Unidos, a final contra a Itália foi decidida nos pênaltis após um empate sem gols sob um calor intenso. Foi o momento em que Taffarel se destacou na linha de gol e o craque italiano Roberto Baggio mandou a bola por cima do travessão, criando um choro de alívio que lavou a alma de uma nação inteira.
​Quatro anos depois, na Copa de 1998, a semifinal contra a Holanda na França trouxe o mesmo panorama de empate em um a um e decisão por penalidades. Na hora de decidir a vaga para a grande final, os batedores brasileiros demonstraram enorme precisão e nenhum jogador do Brasil errou as suas cobranças em Marselha. Ronaldo, Rivaldo, Emerson e Dunga converteram os seus chutes com extrema categoria, enquanto Taffarel defendeu duas cobranças para assegurar a classificação.
​Contudo, o esporte também traz os seus ciclos de frustração. Trinta e seis anos após o revés no México, em 2022, o Catar foi o palco de outra eliminação dolorosa para o futebol brasileiro. Contra a Croácia, após um gol de Neymar na prorrogação, a seleção cedeu o empate nos minutos finais. Na decisão por pênaltis, os jovens atletas sentiram o peso do momento. Rodrygo abriu a série e teve o seu chute defendido pelo goleiro adversário. A disputa seguiu até a quarta cobrança, quando o zagueiro Marquinhos acertou a trave esquerda, encerrando o sonho daquela Copa.
​O pênalti permanece como o momento mais tenso do futebol, uma disputa direta que testa os limites do controle emocional e deixa o cobrador totalmente exposto ao resultado, onde a linha entre o sucesso e o erro define o rumo da história de um atleta e de uma nação. Nem mesmo os maiores gênios da história do esporte escapam dessa estatística cruel. Lionel Messi já cobrou sete pênaltis em Copas do Mundo e errou três deles, dividindo seus traumas entre os mundiais de 2018, 2022 e 2026, provando que diante da marca da cal até os deuses do futebol conhecem a solidão do erro.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa

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