Outro herói sem nenhum caráter
Trajetória de Sergio Moro, de paladino da luta anticorrupção a sabujo do clã Bolsonaro, mostra que é preciso tomar cuidado quando se elegem ‘heróis’ para ‘salvar’ o Brasil
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, ganhou um rival à altura:
Sergio Moro. A trajetória desse senador da República, de paladino da luta anticorrupção a sabujo da família Bolsonaro, mostra que é preciso tomar muito cuidado quando se elegem “heróis” para “salvar” o Brasil. Assim como a célebre criação
de Mário de Andrade, Moro se converteu em tantos personagens diferentes que é difícil dizer quem ele realmente é.
Primeiro, abandonou o governo de Jair Bolsonaro, em abril de 2020, acusando o então presidente de interferir na Polícia Federal para proteger sua família, encalacrada em casos de rachadinhas e quejandos. Por essa razão, o outrora justiceiro do Brasil, adorado pelos bolsonaristas, foi chamado de “traíra”, “judas” e “mentiroso” por esses mesmos bolsonaristas e de “idiota” pelo próprio Bolsonaro. Moro, que se apresentou como candidato à Presidência em 2022, contra-atacou, dizendo que “quem manda no presidente Bolsonaro é Valdemar Costa Neto”, em referência ao notório chefão do PL, que cumpriu pena por corrupção.
Tudo mudou em outubro de 2022, quando Moro, já eleito senador, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno contra o petista Lula. Depois, Moro defendeu Bolsonaro quando este foi condenado por tentativa de golpe. E, agora, a transformação final: Moro filiou-se ao PL do chefão Valdemar Costa Neto e, como candidato ao governo do Paraná,
dará palanque a Flávio Bolsonaro na campanha presidencial – o mesmo Flávio das suspeitas de rachadinha lá no começo dessa história. Como diria Macunaíma, “ai, que preguiça!”.
O País já se acostumou com movimentos políticos por vezes desconcertantes. Basta lembrar que Lula e Geraldo Alckmin, outrora adversários figadais, compuseram a chapa vencedora da eleição presidencial de 2022. O que singulariza o caso de Moro, porém, é o fosso abissal entre o discurso que projetou o ex-todo-poderoso juiz da Lava Jato na vida pública e suas atitudes.
A persona política de Moro foi construída com base na negação do sistema político, tido por ele e seus aliados como
essencialmente corrupto. Primeiro como ministro de Estado, depois como senador, Moro chegou a Brasília como a
encarnação de uma cruzada moral contra a corrupção. Mas a sustentação desse papel exigia dele pureza de propósito,
coerência partidária e distanciamento inequívoco de práticas e pessoas sob suspeição, tudo o que o senador mostrou
não ter. Ou bem se está entre os defensores da moralidade pública e do combate à corrupção ou se cerra fileiras com o clã
Bolsonaro e Costa Neto.
O Moro “herói” da Lava Jato não resistiu ao teste do tempo e do caráter.
Essa figura, a rigor, começou a ruir quando ele não resistiu ao canto da sereia e aceitou convite para entrar no governo
de Jair Bolsonaro, dando ares de verdade à acusação de que sua atuação na Lava Jato teve algum viés político. Não se
recupera uma imagem depois disso.
Moro pode ser amador politicamente, mas não é um beócio. O senador sabe quem são seus novos correligionários.
Sabe, também, o que disse sobre eles no passado recente. Portanto, o que mudou não foram os fatos, mas a conveniência política de todos os envolvidos nessa articulação.
Nunca houve espaço para ingenuidade nesta página. Sabe-se que a política não é terreno para os puristas. Mas não é
disso que se trata. Há uma diferença gritante entre reconhecer a complexidade do jogo democrático e trair os próprios
princípios. Moro não se projetou nem foi assimilado como apenas mais um político. Foi alçado à condição de símbolo
justamente por prometer subverter a lógica do cálculo eleitoral imediato em prol de ambiente político mais racional
e republicano. Em Brasília, tornou-se o oposto disso.
Caberá aos eleitores do Paraná decidirem se isso é tolerável. Para este jornal, muito mais relevante do que o futuro do
senador é a lição mais ampla desse episódio. O Brasil já viu, mais de uma vez, figuras públicas serem alçadas à condição de “salvadores da Pátria” para, tempos depois, mostrarem suas verdadeiras identidades e intenções. A repetição
desse ciclo não é acidental. É decorrência da disposição de parte da sociedade de hostilizar a política e votar em candidatos a messias.



Outro herói sem nenhum caráter











1 comentário
Zezinho da Silva
Sacanagem comparar Moro a Macunaíma. Moro é a versão política cuspida e escarrada de Fernando Collor de Mello. Quem viver verá.