Homens sois! Pandemia e paralisação econômica

Por Mário César Carvalho

Em 1940 Charlie Chaplin, roteirizou, produziu, dirigiu uma de suas maiores obras cinematográficas intitulada “O Grande Ditador”, na qual também atuou. Em meio ao caos que havia se instalado na Europa em razão do inicio da II Grande Guerra, nesse filme Chaplin utilizou o humor – uma marca sua – como meio para realçar sua esperança de mudança em governos que utilizavam da propaganda para “educar/convencer” a população a acreditar e apoiar suas decisões, mesmo que essas lhes prejudicassem, ainda que pela imposição de limitações às liberdades individuais ou por meio da institucionalização de um sistema coercitivo garantido pela lei e aceito por uma grande parte da população influenciada, ou pela propaganda, ou pelo medo, ou pelos dois. Esta obra de Chaplin tem seu ápice no final quando um humilde barbeiro judeu, fazendo-se passar pelo poderoso ditador Adenoid Hynkel, faz um discurso no qual exalta a necessidade de compaixão entre as pessoas. Um verdadeiro hino ao humanismo cuja a principal frase é: “Homens sois, máquinas não sois!

Em 2020, em meio ao caos que se instalou em razão da pandemia, a Administração Municipal produziu um documento intitulado “Londrina contra o coronavírus – Ações empreendidas para o combate à pandemia na cidade de Londrina”, que foi roteirizado por profissionais com qualificação acadêmica inquestionável. Muito bem escrito e estruturado, o documento traz, em resumo, informações e dados estatísticos sobre os efeitos da pandemia no Município, e o que o Poder Público Municipal fez e fará para minimizar os seus impactos tanto na saúde quanto na economia. Lendo-se todas as 240 páginas, nota-se que, no final das contas, apesar da demão de verniz acadêmico, infelizmente, trata-se, tão somente, de uma defesa política das decisões tomadas ou não tomadas pela administração municipal. É onde o verniz racha….

Igual a obra de Chaplin, o ápice do documento se encontra no final quando, lá na página 166, com terminologia técnica, tenta atenuar a responsabilidade do poder público pela opção pelo isolamento exaltando a figura política do Administrador maior como uma espécie de gerente youtuber da crise. Como não poderia deixar de ser, defende a abordagem técnico-científica das ações sem, contudo, deixar de lado, o discurso político justificativo populista da defesa da vida.

Mas, diferente da obra de Chaplin, no final épico do documento não existe nenhuma menção aos empresários locais que tiveram que encerrar suas atividades em razão dos lockdowns e dos isolamentos sociais seletivos. Tampouco sobre os trabalhadores que perderam seus empregos. Quanto a estes últimos, apesar das dificuldades, em algum momento conseguirão dar a volta por cima quando a economia se recuperar lá em 2021. Porém, quanto aos primeiros, aqueles que perderam definitivamente seus negócios e capitais não se vê muito alento.

Os números atuais sobre a situação da pandemia no país vão na contramão dos discursos transversos que tentam justificar os lockdowns e o isolamento social seletivo de determinados seguimentos produtivos. Discursos esses que mais serviram para instalar medo, sofrimento e prejuízo para aquela parte significativa da população que foi trancada em casa à força. É um tanto quanto fácil defender o isolamento quando os salários e comissões chegam todos os meses, religiosamente, nas contas bancárias, faça chuva ou faça sol.

Já passou do tempo de assumirmos que a transferência de renda e a doação de cestas básicas não são favores e que não podem ser utilizadas como bandeira política. Na verdade nada mais são que uma contrapartida pelas decisões políticas arbitrárias e autoritárias tomadas pelo Poder Público e mais, que a defesa incondicional da atividade empresarial que gera empregos, ainda é o melhor programa social que existe. Isto porque o assistencialismo dura somente enquanto durar o dinheiro.

E, parafrasendo Chaplin: Munícipes, homens e mulheres sois! Números e estatísticas não sois!

 

Mário César Carvalho é advogado em Londrina

3 thoughts on “Homens sois! Pandemia e paralisação econômica

  • 14/10/2020, 20:21 em 20:21
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    Uma análise muito interessante sobre o cenário político e econômico da cidade de Londrina.
    As eleições – e a economia vindoura pós pandemia – nos mostrará quem venceu a batalha – a politicagem ou o povo massacrado. Isso é, se alguém de fato sobreviver.
    Parabéns pela coluna!

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  • 15/10/2020, 13:14 em 13:14
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    Não custa lembrar que o discurso citado pelo articulista custou a Charles Chaplin a acusação de ser comunista pelo FBI e a proibição do diretor cinematográfico de voltar aos Estados Unidos. O filme “O Grande Ditador” é também um bom revelador dos fascistas e nazistas que costumam se esconder atrás de armários e, de lá, exercer seu poder sobre a sociedade. Fascistas, nazistas e simpatizantes do fascismo e nazismo não toleraram ver seus ídolos representados no filme: Hitler como Adenoide Hynkel e Mussolini como Benzino Napaloni. E a Itália fascista odiava o diretor do filme por ter recebido o sugestivo nome de Bactéria. Aliás no Brasil de hoje temos muitos descendentes de imigrantes que vieram de Bactéria. Eles formam o exército de soldadinhos que perseguem os antifas e geralmente também não gostam de medidas que protegem a saúde e a vida dos humanos em relação à saúde econômica do país, ou melhor, da elite. Pro povão fica mesmo o emprego intermitente e o arrocho salarial.

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  • 17/10/2020, 03:37 em 03:37
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    Interessante o texto, mas o tiro, ao que parece tem alvo errado e premissas que não conduzem à conclusão, nem confirmam a tese megalomaníaca apresentada. Embora não tenha faltado veneno, o bode picado é outro…

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