As eleições israelenses na última terça-feira culminaram com um impasse de difícil resolução. Nenhuma das coligações conseguiu chegar à maioria simples de 61 cadeiras no Parlamento de 120, necessárias para a formação do novo governo. Os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, na próxima terça-feira, podem influir nos rumos da sucessão em Israel. O fragilizado presidente republicano Donald Trump defende um “governo de união nacional” em Jerusalém.
O partido Likud, do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, conseguiu 27 cadeiras. O Yashar, do general retirado Gadi Eisenkot, principal rival de Netanyahu, obteve 21 cadeitas no novo Knesset.
Os blocos da situação e oposição ficaram aquém da maioria necessária. A coligação do premiê conquistou um total de 53 cadeiras. A oposição também falhou na tentativa de conquistar maioria: o bloco assegurou 48 assentos.
A grande novidade da eleição foi a votação obtida pelos partidos árabes, agrupados na Lista Conjunta e no Ra’am, que elegeu 19 cadeiras, o melhor resultado histórico.
Agora começa o xadrez da tentativa de formação da maioria. O resultado aparentemente lógico seria uma composição da oposição com os partidos árabes, mas excetuando o partido Democratas, liderado por Yair Yolan, as demais forças oposicionistas sionistas recusam a composição com as agremiações árabes israelenses.
Uma opção viável e normal na política em Israel seria a traição de uma agremiação da oposição aderindo ao bando de Netanyahu. O principal candidato à adesão ao bloco de Bibi Netanyahu é Avigdor Lieberman, líder do Yisrael Beiteinu, que com 7 cadeiras poderia colocar a situação a apenas um voto para a maioria. Nesse caso resta saber que tipo de acordo Lieberman poderia fazer com Bibi.
Para compreender a disposição das forças políticas em Israel, é preciso entender que a grande maioria é sionista e o embate principal é uma disputa da ultradireita com a direita. As exceções são os partidos árabes, com 19 cadeiras, e o esquerdista Democratas, sucessor do histórico Partido Trabalhista, com 8 cadeiras.
O dilema do bloco oposicionista passa a ser trair os eleitores e se unir à extrema-direita liderada por Netanyahu num bloco de “união nacional” ou trair a promessa de campanha de manter distância dos partidos árabes. Em nenhum outro lugar, o aforismo “o outro nome da política é a traição”, é tão real como em Israel.
Outra possibilidade de traição viável é Netanyahu buscar a solução de um “governo de união nacional” com forças de oposição. Para isso precisaria se afastar dos partidos extremistas de direita como o
Otzma Yehudit, partido de Itamar Ben-Gvir, o Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich, e demais partidos ultraortodoxos.
É preciso lembrar que essa é a primeira eleição em Israel, desde o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, com as feridas ainda abertas. Uma composição com os partidos árabes poderia ser o começo de uma tentativa de abrir caminho para buscar a coexistência, mas os traumas do terrorismo recíproco de árabes e israelenses continuam muito vivos.
O próximo passo na eleição será do presidente Isaac Herzog, que se reunirá com as lideranças partidárias. Ele ouvirá as recomendações de cada partido sobre seu candidato a primeiro-ministro. Ato contínuo Herzog encarregará um dos candidatos a tentar formar a maioria de 61 cadeiras.
Israel vive há anos, antes mesmo do 7 de outubro, uma polarização política que é uma ameaça do jovem Estado judeu. Tentativas da extrema-direita de Netanyahu buscaram reformar o sistema Judiciário, tornando o regime uma ditadura na prática. Metade do país reagiu com grandes manifestações. A divisão do país incentivou inimigos, como os palestinos do Hamas que viram nas posturas erráticas do regime judeu a oportunidade de invadir o país e matar 1500 soldados e civis israelenses e fazer 250 reféns. A reação de Israel em Gaza e outras frentes, desproporcional, acabou, após falhas contínuas na sua atividade diplomática, transformando o país em um pária internacional. Apesar de sucessos táticos, Israel falhou nos últimos na sua política estratégica e vive hoje uma séria ameaça existencial.
Resultado final da eleição:
Likud: 27 cadeiras
Yashar!: 21 cadeiras
B’Yachad: 12 cadeiras
Lista Conjunta: 11 cadeiras
Os Democratas: 8 cadeiras
Ra’am: 8 cadeiras
Yisrael Beiteinu: 7 cadeiras
Otzma Yehudit: 7 cadeiras
Yahadut HaTorah: 7 cadeiras
Shas: 6 cadeiras
Religious Zionism: 6 cadeiras
Ao todo, 5.716.665 votos foram contabilizados. Destes, 5.690.778 foram considerados válidos.
Número de votos por partido
Likud, partido de Netanyahu, lidera com 1.167.458 votos válidos (20,52%)
Yashar, partido de Gadi Eisenkot, com 913.502 votos (16,05%)
Juntos, partido liderado pelo ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, com 531.414 votos (9,34%)
Lista Conjunta, aliança de partidos árabes, com 500.147 votos (8,79%)
Os Democratas, partido liderado por Yair Golan, com 366.352 votos (6,44%)
Yisrael Beytenu, de Avigdor Lieberman, com 337.413 votos (5,93%)
Ra’am (Lista Árabe Unida), com 337.253 votos (5,93%)
Otzma Yehudit, partido de Itamar Ben-Gvir, com 326.624 votos (5,74%)
Judaísmo Unido da Torá, com 312.604 votos (5,49%)
Shas, partido religioso sefardita, com 299.506 votos (5,26%)
Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich, e Zehut, de Moshe Feiglin, com 290.451 votos (5,10%)
*Marcos César Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal






1 comentário
rapaz, vc tá bem? sem comentários.