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Cláudio Osti

Jornal Estado de São Paulo, o Estadão, pede a renúncia de Alexandre de Moraes

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Editorial do Estadão

Moraes tem de sair do Supremo

Diante das gravíssimas revelações feitas por este jornal sobre sua relação com o Master, o ministro tem a obrigação de renunciar, sob pena de arrastar o Supremo para sua crise pessoal

Alexandre de Moraes não tem mais condições de seguir como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deveria pedir exoneração do cargo, para o bem da própria Corte. As revelações feitas pelo Estadão de que Moraes ajudou a elaborar o contrato milionário entre o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, desmentem categoricamente que o ministro fosse alheio ao acerto e a todas as suas implicações éticas e legais.

Para começar, participar da elaboração de um contrato é exercício de advocacia, atividade incompatível com a magistratura. Mas as mensagens do celular de Vorcaro tornadas públicas hoje pintam um quadro muito mais grave. O banqueiro, pivô do maior escândalo da história do sistema financeiro nacional, tratava Moraes como alguém a quem podia recorrer para influir no curso de investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou, em referência ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Em outra mensagem: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Não se sabe o que Moraes respondeu. Pouco importa, porque já não se pode negar o que está diante dos olhos: um investigado por fraudes bilionárias buscava num ministro informação, orientação e intervenção sobre atos da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), enquanto seu banco pagava somas exorbitantes ao escritório de sua família – contrato que tem as digitais do próprio Moraes.

Há perguntas que só uma investigação responderá. Moraes procurou Gonet? Falou com Andrei? Tentou retardar diligências? Transmitiu informações sigilosas? Dependendo das respostas, podem estar em jogo ilícitos de imensa gravidade, como prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. Gonet não pode continuar tratando esse material como “insuficiente”, como já o fez no passado, sem cair ele mesmo em suspeição.

Gonet arquivou anteriormente uma representação contra o ministro. Agora surgiram evidências novas, e uma delas envolve o procurador-geral nominalmente: Vorcaro pedia a Moraes que recorresse ao próprio Gonet para conter a investigação. André Mendonça já cobrou esclarecimentos da PGR e avalia os próximos passos. Se isso ainda não basta para abrir uma investigação formal e independente, é difícil saber o que bastaria.

Investigar, porém, resolve apenas parte da crise. As suspeitas recaem justamente sobre o uso do poder que Moraes continua exercendo. O homem que lhe pedia ajuda para alcançar o chefe da PF e o procurador-geral era o dono do banco que despejava dezenas de milhões de reais no escritório de sua mulher. O ministro participou pessoalmente do contrato e agora pode ter de ser investigado pelas mesmas instituições sobre as quais Vorcaro esperava que ele exercesse influência. Essa situação é incompatível com a normalidade institucional.

Moraes tem direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as garantias legais que tantas vezes negou a outros, mas essas garantias não obrigam o Supremo a carregar, por tempo indefinido, o peso de um ministro cuja permanência compromete a autoridade da própria Corte.

O STF já errou demais no caso Master. Dias Toffoli, que também mantinha negócios com Vorcaro, só deixou a relatoria do caso depois que sua posição se tornou insustentável. Agora a crise atinge Moraes em outro patamar – o mesmo ministro que tantas vezes invocou a defesa do STF e do Estado Democrático de Direito para justificar o exercício de seus poderes. Chegou a hora de demonstrar que seu compromisso com as instituições vale também quando o sacrifício é seu.

Moraes tem de deixar o Supremo. Sua responsabilidade criminal será apurada, mas a responsabilidade institucional já se impõe. Se ele se recusar a retirar esse peso da Corte, sua permanência terá de ser enfrentada por quem a Constituição encarregou de julgar crimes de responsabilidade de ministros do STF: o Senado. Defender o Supremo, agora, significa impedir que a crise de um ministro se torne a crise da instituição.

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6 comentários

  • Emílio Inácio

    Quem fez a ligação entre Vorcaro e o ministro Moraes foi Fábio Faria, casado com uma da filhas do Sílvio Santos. Como essa conexão poderia dar certo para o ministro Moraes se o patrocinador dela foi exatamente o ex-ministro de Bolsonaro?

  • Zezinho da Silva

    O Estadão é tigrão com o ministro Moraes e tchutchuquinha com o senador e candidato da extrema direita Flávio Moraes. Rsrsrs

  • Jordão Bruno

    Pelo menos o ministro Moraes, em um momento, fez a coisa certa: conduziu corajosamente o julgamento dos golpistas comandados pelo ex-presidente genocida. No caso do Banco Master, o enredo envolvendo o ministro Moraes está ajudando o ministro terrivelmente evangélico a aliviar a barra do candidato a presidente também terrivelmente evangélico da extrema direita, que também está chafurdado em milhões de reais/dólares do mesmo banco. A notícia hoje é que Flávio Bolsonaro continua sendo pego na mentira: a grana que ele levou do Vorcaro e foi enviada aos EUA acabou de aumentar em mais de um milhão de dólares.

  • Incrédulo

    Está aí um imbróglio que o bolsonarismo está cozinhando em fogo fraco, Mendonça está com Senador Flávio debaixo da toga, Senador Wagner teve busca e apreensão por muito menos de 5% que o Senador Flávio levou, hoje aparece mais milhões de reais para o Flávio, aí o Mendonça colocou no ventilador as gravações que podem induzir o Alexandre nessa briga de foice no escuro

    • Emílio Inácio

      E esse auê em volta do ministro Moraes também serve de vacina contra algum ministro do STF que pretenda avançar sobre os milhões arrecadados pelo ITER, o instituto montado pelo pastor/ministro que tem se beneficiado de contratos com órgãos públicos sem licitação. E tem também a história obscura de um voto do ministro terrivelmente evangélico a favor do bolsonarista ex-governador Cláudio Castro no TSE.

  • Já podemos chamar o Alexandre de “segunda alma mais honesta do Brasil”?

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