“A solução para democracia ruim é investir em uma democracia mais ampla”, afirma pesquisador americano

Apatia do eleitor com a política pode ser revertida com mais participação popular nos processos políticos, aponta Michael Coppedge

O resultado do segundo turno das eleições municipais deixa perceptível o sentimento de apatia, e até desilusão, do eleitor com a classe política, que acaba levando a altos números de abstenções, votos brancos e nulos: segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), esse foi o caso de 10,7 milhões de eleitores em 2016, o que corresponde a 32,5% do eleitorado. 

“Há muito cinismo e apatia (em muitos países) quanto às propostas dos partidos. A única solução é continuar participando das eleições, continuar ‘limpando a casa’, se livrando dos políticos ruins. A participação pode evitar essa apatia. A solução para uma democracia ruim é uma democracia mais ampla”, pontua o professor em Ciência Política Michael Coppedge, da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos).

Pesquisador do projeto de Variedades Democráticas, que mede a evolução histórica e os atributos da democracia e governança em diversos países, Coppedge aborda essa e outras questões na quarta entrevista da série gravada pelo Instituto Atuação, em parceria com o Canal Um Brasil, durante a 2ª Semana da Democracia, postados semanalmente, todas as terças, no canal da Fecomércio-SP no Youtube.

A íntegra pode ser acessada em www.youtube.com/watch?v=B7YtpDezqdM. Confira abaixo outros trechos da entrevista.

Desigualdade política

“O conceito de ‘um homem, um voto’ é muito importante, essência à democracia. Os postos de votação, as urnas, são o único lugar no sistema político onde todos têm o mesmo peso durante a eleição. Ricos e pobres, são todos iguais. No entanto, não é o bastante: é insuficiente para se obter uma democracia de qualidade”.

“A desigualdade social é sempre um desafio, nenhuma sociedade é totalmente igual. A desigualdade de recursos e de informação geralmente vem da desigualdade política. Esse é um trabalho constante da política social”.

“Muitas pessoas falam de uma democracia liberal. É um tipo de democracia que nos alerta que um líder eleito pode se tornar um ditador eleito. Em sistemas onde o financiamento de campanhas depende de grandes doações por parte dos políticos há um problema, pois o poder está nas mãos de quem tem mais dinheiro”.

“A responsabilidade da apatia (do cidadão) é da classe política, que deveria criar ações interessantes e críveis para representar suas plataformas, e a política em si, de uma maneira que as pessoas possam acreditar que realmente farão aquilo que prometeram”. 

 Educação política

“É possível a educação política nas escolas, já foi uma meta importante no sistema educacional de muitos países, inclusive dos Estados Unidos. Ainda é em países como o Canadá. Acredito que alguns partidos e governos optaram por cortar custos com Educação, e julgaram desnecessário educar os alunos sobre os direitos civis, os deveres de um bom cidadão, ou sobre como funciona nosso sistema político. Isso deveria ser repensado”.

“Há sempre o risco de má conduta, porém. Alguns países investem em educação política, mas de maneira errônea, transformando-a em propaganda. Isso incapacita os jovens a esperarem atitudes democráticas de seus governos”.

 Justiça e Democracia

“A Justiça e o acesso a ela são cruciais, e também bem difíceis. Normalmente, são o elo fraco da cadeia democrática em muitos países. Os países são bem distintos em termos de acesso a essa Justiça, alguns fazem um bom trabalho, como a Costa Rica e o Uruguai, na América Latina. Já outros enfrentam dificuldades, como sistemas ineficientes, falta de liberdade judicial, onde as cortes ou juízes possuem alianças politicas que lhes permitem passar por cima da lei, por azoes politicas, ou alguns são corruptos. Isso prejudica a administração judicial. É um desafio a ser superado”.

 Corrupção

“A corrupção é um problema que afeta países de todo o mundo. O Projeto de Variedades Democráticas possui cinco indicadores de corrupção, nós o medimos em vários países por um longo período. Uma das descobertas mais surpreendentes foi que, apesar do progresso da democracia durante o século 20, e início do século 21, a corrupção aumentou, coincidindo com a democratização. Isso é um paradoxo: por que os países estão mais corruptos e mais democráticos ao mesmo tempo?”.

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