Teoria de Gênero, a “novilíngua” e o duplipensar

Por Filipe Barros

A obra “1984”, de George Orwell, ainda hoje é considerada um marco na literatura mundial pelo simples — e grande — fato de ter desmascarado a práxis dos regimes comunistas, socialistas e marxistas (ou como quer que se queira denominá-los). Tais regimes trazem em seu bojo o totalitarismo, o fim das liberdades individuais até o esvaziamento da própria condição de “pessoa humana”, a fome, morte e miséria da população, enquanto os donos do poder vivem de modo nababesco. Tão grave quanto é a alteração da história do passado e a manipulação da linguagem (“novilíngua”), culminando na impossibilidade de pensar diferente do Partido (“duplipensar”) e na eliminação de quem ouse fazê-lo.

“1984” retrata a referida mudança no campo da linguagem, exatamente o que os revisionistas marxistas fizeram e fazem até o dia de hoje. Para eles, a linguagem deve ser utilizada com o fim de atingir determinados objetivos políticos. Conceitos como cidadania, democracia e justiça social são esvaziados e preenchidos com significados completamente diferentes. “Direito sexual das mulheres”, por exemplo, vem para substituir “aborto”, e “antecipação da morte” ou “suicídio assistido” são usados no lugar de “eutanásia”. Como se uma simples troca de palavras pudesse mudar a substância das coisas. É isso o que Orwell chamou de novilíngua e é para o drama de sua distopia que a humanidade caminha a passos cada vez mais largos.

A questão que envolve o gênero, no entanto, é ainda mais profunda: tem as suas raízes em Karl Marx. Foi o filósofo alemão quem afirmou, em sua obra “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, que a origem de toda a opressão está na família. “O matrimônio gera o patrimônio”, ele bradava. Era preciso, portanto — conclusão lógica —, destruir a família.

Como o barbudo morreu antes de delinear um plano de ação, foram as feministas do século XX que deram início à solução do problema. Kate Millett e Shulamith Firestone — nomes conhecidos no meio acadêmico — entenderam que, para pôr abaixo a família burguesa, seria necessário uma revolução sexual, isto é, desconstruir os papéis de homem e mulher, na sociedade e dentro da família, abolindo o significado de pai e mãe, de marido e esposa, e até de homem e mulher.

Outros revisionistas deram importante contribuição para a consolidação do processo de novilíngua. Nomes como Karl Korsch, Max Horkeimer, Louis Althusser, Jacques Derrida e Michel Foucault constataram que, apesar da revolução sexual ter, de fato, ocorrido, ela ainda não tinha alcançado o resultado almejado. A revolução teria de passar para o campo da linguagem.

Foi Judith Butler que consolidou essa nova maneira de se pensar o ser humano, quando criou a chamada “teoria de gênero”. O termo “gênero” deixaria de ser sinônimo de “sexo” para representar uma “experiência interna, individual e profundamente sentida, que pode, ou não, corresponder ao sexo biológico”. O “sexo”, por sua vez, passou a significar somente o aparato sexual com que o indivíduo nasce, a biologia propriamente dita, uma estrutura repressora, no fim das contas, “pois prende o ser humano não permitindo que tenha uma vida plenamente sexuada”. O “sexo” reprime, o “gênero” liberta.

Essa ideia tem consequências sociais inimagináveis. Citamos apenas a questão da educação das crianças. O processo de erotização que se vê nas escolas, com a introdução das práticas de promoção de gênero, faz com que as crianças deixem de ser educadas como seres humanos e sexuados para se transformarem em entes amorfos e em constante mudança. Não há mais menino, menina, pois isso é repressor. A criança deve ser livre para escolher em qual gênero se adequa. Atualmente existem mais de 43!

A teoria de gênero propaga romanticamente que defende a liberdade, os direitos dos LGBTs, das mulheres e das crianças e uma sociedade sem preconceitos. Na prática, porém, o que acontece é o inverso: como eles querem impor a todo custo essa teoria à sociedade, quem quer que ouse discordar deles é tido como homofóbico, preconceituoso e fundamentalista.

A novilíngua dos defensores do gênero requer um pouco de atenção para ser identificada, mas o seu duplipensar é bem fácil de perceber. Basta ver o modo como eles aplicam com quem pensa diferente a velha máxima de Stálin: acuse-os do que você faz, chame-os do que você é. O que serve à “causa” ganha elogio; o que não serve, perseguição. “1984” já está entre nós.

15 comentários em “Teoria de Gênero, a “novilíngua” e o duplipensar

  • 07/04/2016, 15:13 em 15:13
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    Desculpe-me, mas o texto, com total liberdade na sua divulgação, é exatamente a negação do que ele afirma na sua última frase. O Brasil nunca tinha vivido maiores ares de liberdade do que vive hoje. Quem viveu durante a ditadura militar, sabe do que estou falando. Quem estudou história do Brasil sabe que o Brasil já viveu o período do pensamento único. A realidade é que os verdadeiros defensores do pensamento único não aceitam ser criticados, não aceitam a diversidadoe de pensamento. Estamos chegando ao absurdo de membros do MPF proibirem manifestações democráticas nas universidades. Nós derrotamos esses retrógrados no passado. Vamos derrotá-los novamente se for preciso. Quem não respeita a opção sexual de outros cidadãos é homofóbico sim. Não vamos permitir que o Brasil caminhe para a criação de uma espécie de “estado islâmico”. Democracia e liberdade sempre.

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    • 07/04/2016, 18:43 em 18:43
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      O fato é que “o” Daniel… Ops, não sei se posso chamá-lo de “o” ou “a”, ou “x”; porque se você tem nome masculino, mas tem seu sexo biológico feminino e se considera mulher então seria “a”; mas se você se considera mulher mas não fez cirurgia de mudança de sexo aí eu já não sei mais como me dirigir. Agora se teu nome (masculino) corresponde ao seu sexo (masculino) mas o teu gosto ou opção sexual é variado, aí dificultou mais ainda.

      Que confusão né? Pois é, gênero é uma loucura muito pior do que essa, e seus promotores sabem muito bem disso e têm motivos para promover a “agenda de gênero”; e é essa loucura que estão querendo colocar na cabeça das crianças nas escolas.

      Fica evidente, então, estar diante de uma clara vítima da “novilíngua”, pois você definitivamente não sabe o significado da palavra gênero e suas consequências hoje.

      O texto falou de teoria de gênero e não em respeito ou desrespeito à opção sexual, ou debater ou deixar de fazê-lo nas escolas; inclusive uma das consequências desta teoria é idiotizar as crianças, erotizando-as.

      Além do que, sinto muito, mas você é uma das tantas vítimas dos professores de história no Brasil, que não conhecem a nossa história.

      O artigo é rico e muito claro no que expõe.
      Parabéns ao autor.

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      • 08/04/2016, 22:36 em 22:36
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        Pois é, caro(a) Natanael, numa sociedade livre e democrática, cada um escolhe como deve ser tratado, não os outros. Só uma sociedade controlada por um poder autoritário, exatamente aquela sociedade distópica criada no livro “1984”, que vai exigir que a família, no Século XXI, tenha a conformação estabelecida nos dogmas do judaísmo-cristianismo-romano. Quem quiser ser fundamentalista e basear seus conceitos no Velho Testamento e no Novo Testamento de Jesus e do conservador romano convertido cristão, apóstolo Paulo, que o seja. Mas não desejo que isso vire lei no meu país, que deve ter uma população livre para escolher sua visão do mundo. Quanto às suas gracinhas sobre meu gênero, são apenas gracinhas preconceituosas…

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      • 18/05/2019, 12:01 em 12:01
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        PARABÉNS AO AUTOR DO TEXTO E AO NATANAEL GOMES!

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  • 07/04/2016, 17:24 em 17:24
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    O comentário acima é prova cabal de que o autor do artigo acertou na mosca.

    Parabéns! Excelente artigo!

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  • 07/04/2016, 17:46 em 17:46
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    Geralmente os inimigos da família e da sociedade levantam os punhos quando lhes é mostrado a verdade. Ainda nos acusam de não ter estudado a historia. O fato é que a historia vem sendo manipulada por eles e posta a seu serviço. Nada mais evidente do que o que eles já fizeram. É só abrir os olhos e ver. O texto acima foi escrito e muito bem escrito fundamentado em documentos escritos pelos próprios ideólogos que estão destruindo os valores da nossa sociedade.

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  • 07/04/2016, 20:07 em 20:07
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    O autor do texto espertamente submete o conteúdo de um livro escrito por um socialista democrático aos seus interesses ideológicos. Qualquer leitor mediano do livro “1984” vai entender que o autor está apresentando uma sociedade dominada por práxis (que chique bancar o intelectual) autoritária, seja ela comunista, seja ela fascista como esta que um grupo está lutando para implantar hoje no Brasil. O risco de pensamento único não vem do governo petista, vem sim de seus opositores como a mídia que tenta controlar o fluxo de informações conforme seus interesses econômicos. E pra isso contribui um juiz de cunho autoritário e partidário que permite fluir através de vazamentos seletivos notícias contra o governo estabelecido por sufrágio universal. Fora o fato desse juízo vigiar a vida individual e profissional de pessoas através de grampos telefônicos e divulgar ilegalmente as conversas gravadas como o Big Brother faria. Isto sim é uma ameaça à liberdade individual.

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    • 02/08/2016, 09:14 em 09:14
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      Que pena Devil. Como o Daniel, você também não entendeu bem o texto, e descarrega sua ira esquerdista por estarmos conseguindo sair um um lamaçal corruptível.
      Parabéns Filipe Barros, acertou na mosca.

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  • 07/04/2016, 20:26 em 20:26
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    Ótimo artigo!
    Recomendo a leitura.

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  • 08/04/2016, 11:35 em 11:35
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    Excelente texto, excelente comentário, Hugo Medeiros.

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  • 08/04/2016, 14:15 em 14:15
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    Parabéns Filipe Barros! Ótimo texto!

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  • 02/05/2016, 10:30 em 10:30
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    O autor Filipe Barros fala da nova linguagem que toma conta dos conceitos e raciocínios do homem comum. Não há como não ficar desorientado diante de tamanha complexidade de conceitos que homeopaticamente toma conta dos nossos raciocínios. A “novilingua” e o “duplipensar” proposto pelo autor explicam um pouco da insegurança na qual estamos colocados na avaliação dos conceitos e normas sociais de convivência.
    Indispensável estar atento às transformações da convivência social.

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  • 29/07/2016, 22:40 em 22:40
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    O texto é genial, mas o contexto não deixa de ser carregado de pré – conceitos e padrões sociais de uma época que passou…uma visão adulta admiravelmente inteligente, mas que hoje é uma visão idosa, que provavelmente não pensa mais da mesma forma ..que foi criada de acordo com a época anterior, com seus padrões e conceitos ultrapassados e vividos…as gerações e mentes é assim, e assim caminha a humanidade. Hoje quem transforma e luta pela transformação é a juventude, organicamente e independente de sua educação..uma geração que clama pela diversidade, pela cumplicidade e pelo respeito..que transforma e transformará o mundo em um tempo novo..por mais que existam determinados padrões e pesquisas sociológicas de uma época, já não são mais esses que seguram as rédeas da revolução necessária dentro de nossos próprios pensamentos…ir contra: aos atos e a evolução humana, a liberdade de ter pensamentos proibidos e a chance de viver questionamentos e solucioná-los de maneira criativa é o que atrasa e impede nossa consciência de notar a necessidade da transformação ..pois há de convir, que do jeito como está, não está favorável para muitos e a grande diferença dos dias de hoje, é que “ninguém” mais é obrigado a ficar calado..porém, se submeterá sempre a julgamentos ou análises com justificativas intelectuais calcadas em padrões …e na verdade, os atores transformadores, estão pouco se lixando pelo que vão parecer… eles hoje podem ser e podem mais do que podiam em 53, 75, 84, 95 e 2000…é bom olhar para os jovens dentro de casa e descobrir que assim como nós, absorverão os valores da família no entanto, irão a luta pelos seus ideais..e cada um tem o seu próprio. O mundo precisa de mais soluções práticas, leves, e um pouco menos de teoria, repressão e referências antiquadas de justificativas ideológicas.

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    • 02/08/2016, 09:23 em 09:23
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      Puxa Gab, com base em tuas palavras: “Hoje quem transforma e luta pela transformação é a juventude, organicamente e independente de sua educação..uma geração que clama pela diversidade, pela cumplicidade e pelo respeito..que transforma e transformará o mundo em um tempo novo..por mais que existam determinados padrões e pesquisas sociológicas de uma época, já não são mais esses que seguram as rédeas da revolução necessária dentro de nossos próprios pensamentos.” Agora eu entendo o porque de os jovens do Rio de Janeiro e os de Brasília, estarem agindo fora dos padrões da educação familiar, na atualidade. Uma juventude solta a seu bel prazer.
      Cuidado!! Podes dar de frente com alguns jovens “livres” destes, defendidos por ti, e pagares com a vida ou um de seus familiares. Cuidado, após sofrer o infortúnio, acabar por culpar o Estado pela sua perda.

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    • 05/06/2018, 11:20 em 11:20
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      Gab, enxugar seu texto é preciso, economize as palavras, use vírgulas, separe os parágrafos, expurgue erros gramaticais; dê-lhe nexo compreensível, **para si** e para os outros, do começo até o fim. Quanto à luta juvenil, quer ser nova mas velha é; geração vai, geração vem, sempre a mesma ladainha, cada qual quer puxar, a brasa pra sua sardinha.

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