As big techs, fake news, religiosos fundamentalistas e políticos de ocasião, se juntam por uma internet sem lei e limites racionais.

Por Walace So

Buenas Pequena Londres, aí do lado da beira do Lago Igapó para cá do lado da beira do rio Madeira em terras da Amazônia, sigo tocando em frente, um Pé Vermelho agora beiradeiro.
As grandes empresas de tecnologia como o Google (Youtube e Waze), a Meta (Facebook e Instagram), o Twitter, o Whatsapp, o Telegram e tantas outras que dominam o “mundo virtual” estão em franca campanha contra o projeto de lei (PL) 2.630/23, mais conhecido como PL das Fake News. Esse projeto tenta regulamentar e responsabilizar crimes na “terra de ninguém” que são as redes sociais. O Google e Twitter criaram conteúdos contra a PL 2.630/23 e essa ação não ajuda o cidadão, a liberdade de expressão ou a democracia. A falta de limite do mundo virtual é um dos alimentos de instabilidade no mundo real e é perigosa.
Além disso, temos a adesão de atores do mundo real, que vão de religiosos fundamentalistas a políticos de ocasião que usam a desinformação, o medo e a manutenção do estado de conflito permanente, na busca para construir um palco virtual e se manter em evidência. Ao invés de apresentarem projetos e debates para os problemas reais da sociedade.
Nos últimos quinze anos, o aperfeiçoamento da comunicação, internet e mobilidade de ações e serviços denominados de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), transformou o mundo numa velocidade assustadora. Esse processo ainda está em formação, e até agora não conseguimos nos adaptar de fato a aprender e assimilar suas consequências. Necessitamos de uma legislação adequada no sentido de compreender, e conviver com as ações desse “matrix” paranoico de informação do famigerado “algoritmo”.
Somos uma sociedade real que vive imersa em um mundo virtual, nossas vidas cabem na palma da mão, que são os atuais smartphones com todos seus aplicativos, nos tornando refém da tecnologia. E ainda temos um aceleramento da desigualdade social pela falta de acesso justo à internet e todas as tecnologias que evoluem junto com ela e sua velocidade.
Aliás, tema é debatido por pensadores como Pierre Levy (filósofo francês) que conceituou a cibercultura e ciberdemocracia, Milton Santos (geógrafo brasileiro) que também refletiu em seus trabalhos sobre a geografia e globalização nesse mundo virtual e mais recentemente Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no best-seller Como morrem as democracias, que suscitou a reflexão sobre o uso das redes sociais pela extrema direita como instrumento nesse processo e a falta de responsabilidade das big techs com a democracia.
Aliás, Umberto Eco alertou em 2015, ao criticar o processo de desinformação que as redes sociais produzem nesse contexto, justamente, por darem voz a conteúdos duvidosos, tendenciosos e sem compromisso com a informação.
Ele refletiu que “normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel” e ficavam restritos a mesa de bares ou outros lugares sem repercussão imediata. Porém, ele mostrou que agora eles têm um alcance maior e o perigo que se constrói com essa instrumentalização. Sua reflexão era uma continuação da sua análise anterior sobre a própria televisão e a internet nesse processo, alertando que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade”. E vimos essa consequência em dois episódios recentes, o primeiro na invasão do Capitólio e o segundo no atentado de 08 de janeiro de 2023 a Brasília.
Dessa forma grupos radicais, extremistas (principalmente de direita), fundamentalistas religiosos, neofacistas, neonazistas e tantos outros que estavam na penumbra e na clandestinidade, se apropriaram das redes sociais para ter uma voz e projeção jamais vista. Num movimento bem articulado do autoritarismo, com a intenção de desestabilizar democracias tradicionais, pois encontram guarida na falta de legislação, bom senso e limite da internet, e uma força para crescerem e propagarem ódio e preconceito livremente. E as big techs insistem em manter tudo isso, para garantir seu lucro a qualquer custo.
Assim, o direito à liberdade de expressão, que é uma das essências da democracia foi deturpado para desestabilizar toda ordem democrata e republicana existente, tornando-se uma bandeira de apologia desses grupos. O falso lema de “pátria, família e Deus” mascarou um movimento reacionário, lembrando que foi o mesmo de Mussolini e Hitler no século passado. E que busca resgatar as ditaduras militares como guardiãs de valores ideais.
Como se naquele período houvesse liberdade de expressão, simplesmente as ditaduras militares justificaram o autoritarismo da época. A censura da farda era a regra e não havia acesso à informação livre ou a liberdade de imprensa. A propósito, nas redações de jornais, nas salas de aula, nos clubes e em todos os lugares havia um delator contra o livre pensamento e a liberdade de expressão.
Atualmente esse é um movimento mundial, e em especial no Brasil, que se tornou bastião da desconstrução da democracia, usando o conceito de liberdade de expressão como instrumento para calar a democracia, a república, a justiça e a diversidade (característica do século XXI). E isso é tanto assustador quanto perigoso. A propagação nas redes sociais do discurso de ódio, de todas as intolerâncias e todos os preconceitos manipula e distorce as informações, descontextualizando e criando “verdades” das bolhas (grupos específicos com a mesma ideia) que ao serem compartilhadas passam a ter a força de uma informação real, é o processo que denominamos de fake news.
Esse fenômeno gera reações contra a ciência, às instituições republicanas e a imprensa responsável e livre, colocando em dúvida sua atuação perante a sociedade, e como se elas controlassem os indivíduos e tirassem a sua liberdade individual. Dessa forma, o compartilhamento da tia e grupos do Whatsapp e Telegran, os duvidosos canais do Youtube e as postagens do Twitter tem mais credibilidade que a imprensa livre e a os poderes da república que são dos pilares da democracia.
Em várias reflexões que compartilho, relembro o alerta de Umberto Eco sobre as “legiões de imbecis” nas redes sociais, o “paradoxo da tolerância” de Karl Popper e “a banalidade do mal” de Hannah Arendt, pois essa é uma equação que não pode ser esquecida. E ontem, a movimentação contra a PL 2.630/23, deixou clara a opção por uma cultura de ódio e de “faroeste” como opção. Provavelmente o resultado será novos atentados as escolas, aos terreiros de religiões afro-brasileiras, o livre direito a injúrias sem serem responsabilizadas por seus crimes, com a falsa justificativa da luta contra a censura das redes sociais e liberdades individuais .
O atual parlamento tem demostrado que não foi eleito para trabalhar, mas para polarizar e manter um estado de conflito, mantendo o palco das redes sociais com sua cultura de intolerância, com o revólver na cintura em nome de Deus (talibã cristão) contra o Estado laico e em nome dos bons costumes sem limites e responsabilidades legais.
A proposta de uma regulamentação das redes sociais é a garantia da manutenção de civilidade, do contra social e responsabilidade de cada cidadão expresso e resguardado pela lei e constituição. Nada, além disso, e como deve ser uma democracia e república, então bora refletir porque é preciso.

Walace Soares de Oliveira, cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

Compartilhe
Leia Também
Comente

Um comentário

  1. Genildo

    Na boa, se pesquisar um pouco vão encontrar na Lei 12.965, de 23/4/2014, “Marco Civil da Internet”, juntamente com o Código Penal e Civil, ferramentas capazes de fiscalizar, responsabilizar e penalizar quem não faz bom uso da internet. Quando o STF deixou de exigir diploma de curso superior para jornalismo transformou milhões de brasileiros em potenciais jornalistas despreparados e sem ética. Reverter essa questão ajudaria a disciplinar mais ainda a internet.
    Fora isso, o PL 2.630/23 não passa de uma lei de censura nos moldes das grandes ditaduras mundiais e Lula nunca escondeu a admiração pela censura Chinesa, Cubana, Bolivariana e mais recente, a Nicaraguense.

  2. Pastor Pedro

    Meu deus do céu! As véinhas do zap continuam espalhando por aí que o PL 2.630/23 é coisa do Lula pra censurar até, imaginem, a bíblia. É imbecilidade e desinformação (fake news) demais em pleno Século XXI. O autor desse projeto de lei é o senador Alessandro Vieira (acho que ele nunca foi petista nem embaixador ideológico de Cuba, Nicarágua ou de qualquer outro país), que era do Cidadania e agora está no PSDB. O senador Alessandro Vieira também não é um revolucionário profissional, é apenas um policial civil preocupado com o esgoto em que a extrema-direita quer transformar a internet. É claro que existe também gente da esquerda que defende uma internet livre de qualquer, dizem, censura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Buscar
Anúncios
Paçocast
Anúncios