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Líderes evangélicos, ainda atordoados, discutem se manterão apoio a Flávio Bolsonaro

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Líderes evangélicos, ainda atordoados, discutem se manterão apoio a Flávio Bolsonaro

Da Folha de São Paulo

A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu uma quantia milionária a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai caiu como um balde de água fria entre lideranças evangélicas que, nos bastidores, já vinham demonstrando entusiasmo limitado com sua pré-candidatura à Presidência.

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No Aliança, grupo de WhatsApp que reúne pastores de densidade nacional, o clima azedou desde que vieram à tona os relatos de que Flávio teria solicitado R$ 134 milhões ao dono do banco Master para a produção de um filme em que o ator Jim Caviezel (o Jesus de “A Paixão de Cristo”) interpreta Jair Bolsonaro (PL). Ao menos R$ 61 milhões foram repassados, e Flávio foi atrás de mais recursos.

O áudio da conversa revoltou pastores. Publicamente, falam em aguardar pelos desdobramentos do caso. Nos bastidores, contudo, uma ala já defende migrar seu apoio para o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). O mineiro Romeu Zema (Novo) empolga menos, mas não é descartado.

A irritação se deu menos pelo pedido de dinheiro em si e mais pelo contexto e pela falta de transparência atribuída àquele que se posiciona como herdeiro político do bolsonarismo. Até então, Flávio sustentava que jamais havia tido contato com Vorcaro.

A revelação reacendeu uma desconfiança que já rondava boa parte da liderança: a de que o primogênito do ex-presidente não herdou automaticamente o capital político do pai nem sua conexão orgânica com a base religiosa.

O Aliança funciona como um termômetro para os humores políticos dessa cúpula evangélica. Fazem parte do grupo nomes como Silas Malafaia, Renê Terra Nova, Estevam Hernandes, Robson Rodovalho e Abner Ferreira, todos líderes com trânsito político.

A preocupação maior, agora, é permanecer ao lado de Flávio, “porque fica a dúvida do que pode ter mais para frente”, disse reservadamente uma liderança. Novas denúncias são tratadas como prováveis.
Muitos ainda não tinham declarado endosso público ao senador. Até pretendiam fazê-lo mais adiante, mas um movimento nesse sentido fica suspenso por ora. Um pastor influente chegou a apagar uma postagem recente em apoio a Flávio logo após o caso ganhar repercussão.

O grupo discutiu outras alternativas para enfrentar Lula (PT) assim que os áudios começaram a circular. O nome de Caiado voltou à roda. Também lamentaram a inviabilidade de uma dobradinha com Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) à frente da chapa e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na vice. A regra eleitoral não permite que, a essa altura, o governador tente um cargo diferente do que ele já ocupa.

Já uma chapa capitaneada por Michelle, embora vislumbrada por alguns, teria que antes enfrentar barreiras de ordem familiar. Conflitos entre os filhos de Bolsonaro e sua madrasta não são segredo para nenhum dos pastores.

A percepção é que o episódio com Vorcaro atingiu um ponto sensível justamente porque ocorre num momento em que o campo conservador tenta reorganizar sua sucessão para 2026 enquanto Bolsonaro segue inelegível. Flávio não seria, na avaliação da maioria desses líderes, o presidenciável ideal, por carregar consigo passivos demais.

“Ainda está nebuloso”, admite o bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra. Ele não vê problemas na passagem de pires em si. “No áudio, Flávio está fazendo um pedido de patrocínio a um banco. Mais do que natural, sem contrapartida nenhuma, pelo menos nada conhecido até agora. Teremos que aguardar os desdobramentos.”

Rodovalho reconhece, porém, que o episódio já produziu efeito negativo. “Nesse instante as coisas estão sobrestadas, aguardando mais informação. Mas já se sabe que já tem um impacto político significativo.”
O tom bíblico também apareceu. O apóstolo César Augusto, da igreja Fonte da Vida, enviou à reportagem um versículo do Evangelho de Lucas: “Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou o que está oculto que não venha a ser conhecido.”

“O momento é de espera”, escreveu. “Tudo que está oculto vai ser revelado. A CPI é o instrumento legal para trazer à luz o que está encoberto.”

Já o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, avisou que pretende publicar um vídeo sobre o tema nesta quinta (15). Ele resistia a embarcar na candidatura de Flávio, cético em relação ao projeto presidencial. Não via no senador “musculatura” para sustentar a disputa.

O pastor Teo Hayashi, da Zion Church, afirmou não enxergar irregularidade em buscar patrocínio privado. Lembrou que Vorcaro também financiou produções ligadas a outros campos políticos, incluindo filmes sobre Lula e Michel Temer (MDB-SP), segundo o jornal O Globo.

Para Hayashi, o problema central foi outro: a omissão. “Qual eu acho que é o problema? É o fato dele não ter aberto o relacionamento dele com o Vorcaro, uma vez lançado candidato. E, se você pegar a linha do tempo, no momento que pede patrocínio já tem uma suspeita sendo levantada [sobre o dono do Master].”

Saldo: o episódio provoca desgaste político e também econômico, com a queda da Bolsa e a subida do dólar, avalia o pastor, à frente do Dunamis, movimento de evangelização em universidades, e do The Send, festival missionário que já brincou ser o “Lollapalooza crente”.

“O compromisso da igreja e do povo cristão é com valores, mais do que com pessoas. Qualquer um que for pego com dinheiro sujo não tem o nosso apoio, independente de partido, sobrenome ou lado político”, afirmou.

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1 comentário

  • Zezinho da Silva

    Como assim? Precisa, sim, perdoar o irmão que caiu em profundo sofrimento. Cadê a solidariedade cristã? Esses pastores não vão deixar Flávio Bolsonaro abandonado à beira do caminho, não é? Logo depois que Flávio Bolsonaro confessou sua vida de pecados e se converteu â igreja evangélica… Kkkkkk

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