
Dizem que Deus está em todo lugar. Pode até estar. Mas quando o assunto é Copa do Mundo, há fortes indícios de que Ele tenha um endereço preferencial neste cantinho da América do Sul. Afinal de contas, Brasil, Argentina e Uruguai formam um triângulo tão abençoado que guardam dez das vinte e duas taças da história. É quase metade do estoque mundial. Se Copa fosse mercado, o resto do planeta já teria chamado o Procon.
Tudo começou com o Uruguai, aquele país que cabe no mapa com certa modéstia, mas entra na história com a autoridade de um gigante. Em 1930 resolveu inaugurar a Copa do Mundo vencendo a primeira edição e, vinte anos depois, aprontou uma das maiores travessuras já registradas pelo futebol. Em pleno Maracanã lotado, diante de um Brasil que já ensaiava a festa, os uruguaios cometeram a ousadia de estragar o roteiro. O planeta conheceu o Maracanazo e o Uruguai ganhou a fama de especialista em aparecer quando ninguém o convida. Naquele grupo de heróis estavam Juan Alberto Schiafinno, dono do gol que abriu a porta da virada mais famosa do futebol, e Obdulio Varela, o lendário El Negro Jefe, que parecia carregar não apenas a braçadeira de capitão, mas a alma inteira do Uruguai nos ombros.
O Brasil entrou na história logo depois e decidiu que não bastava ganhar. Era preciso ganhar com elegância, com samba, com drible e, se possível, deixando os adversários olhando para o vazio enquanto a bola passava. Em 1958, o mundo conheceu Pelé e Garrincha. Em 1962 Garrincha resolveu carregar um país inteiro nas costas como quem leva uma sacola de feira. Em 1970 surgiu aquela seleção que até hoje faz idosos suspirarem e jovens pesquisarem vídeos para entender se aquilo aconteceu mesmo. Pelé comandou uma orquestra que parecia jogar futebol por diversão.
Vieram ainda 1994, quando a eficiência venceu a ansiedade, e Romário transformou a Copa numa demonstração prática de como um gênio pode resolver problemas sem desperdiçar movimentos. Em 2002 Ronaldo Fenômeno transformou a grande área em seu quintal particular enquanto Ronaldinho Gaúcho distribuía sorrisos e mágicas com a mesma facilidade. E entre uma conquista e outra existiu Zico, que talvez seja a maior prova de que o futebol nem sempre distribui justiça. Jogava como um poeta da bola, mas o destino lhe negou a taça que seu talento merecia.
A Argentina, que jamais aceitaria ficar assistindo tudo da arquibancada da história, também tratou de construir sua coleção. Ganhou em 1978, com Mario Kempes correndo e marcando gols como quem tinha combinado tudo previamente com a bola. Encantou o planeta em 1986 quando Diego Maradona transformou uma Copa do Mundo numa obra de arte ambulante e alcançou a redenção perfeita em 2022. Depois de anos perseguindo o troféu como um poeta atrás da palavra exata, Lionel Messi finalmente encontrou seu final feliz. Entre uma geração e outra ainda floresceu Gabriel Batistuta, um centroavante que chutava tão forte que dava a impressão de estar zangado com a bola desde a infância.
E como se tudo isso não bastasse, este pedaço do continente ainda produziu figuras que parecem saídas de um romance. O Doutor Sócrates, que pensava o jogo com a mesma profundidade com que pensava a vida. E Alfredo Di Stéfano, argentino de nascimento, espanhol por destino e cidadão eterno do futebol. Nunca disputou uma Copa do Mundo por aquelas ironias que o esporte adora colecionar, mas foi considerado pelo próprio Pelé o jogador mais completo de sua época. Mais recentemente surgiu Luis Suárez, um atacante que reúne a técnica refinada dos grandes craques uruguaios com a irreverência de quem nunca pediu licença para entrar na história.
Enquanto outras regiões discutem esquemas táticos, investimentos milionários e fórmulas científicas para fabricar craques, este canto da América do Sul continua produzindo futebol como quem produz vento, chuva ou pôr do sol. De maneira natural, espontânea e até um pouco irresponsável.
Talvez seja por isso que tantas taças tenham vindo parar por aqui. A bola, quando desembarca neste continente, parece perceber que chegou em casa.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e colunista convidado deste Portal para a Copa do Mundo














