O racismo de Léo Lins e da La liga.

Coluna Pequena Londres, por Walace SO

 

Buenas Pequena Londres vocês daí ao lado da beira do Lago Igapó, e eu daqui ao lado da beira do Rio Madeira em terras da Amazônia, um Pé Vermelho agora beiradeiro. Entre beiras e beiradas, vamos refletindo um pouco a vida.

Semana quente em relação a intolerância e racismo no Brasil e no velho mundo, os casos de Léo Lins 16/05 e La Liga 21/05, pedem uma profunda reflexão da atualidade. E é o que nos propomos abaixo, analisando suas semelhanças e diferenças, sim, temos semelhanças e diferenças nos dois casos.

O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou, no dia 16/05, que o humorista Léo Lins tirasse um vídeo de 2022 com “piadas” contra minorias, com conteúdo racista de seu canal do Youtube. E o poder das redes sociais é perigoso nessa hora, com mais de 3 milhões de visualizações (fora compartilhamentos), na sentença da juíza Gina Fonseca Correa afirmou que a postagem estaria “reproduzindo discursos e posicionamentos que hoje são repudiados” e que foram denúncias do Ministério Público seguindo seu papel e a legislação. Correta também a decisão da juíza em cumprimento a lei.

Aliás, esse indivíduo tem histórico de piadas homofóbicas, gordofóbicas, de pessoas com deficiência, negros e outras minorias. E ele usa as redes sociais como impulsionadores de sua carreira e a falta de regulamentação delas para depreciar minorias com seu triste humor.

O problema é que as redes sociais, acabam se transformando num veículo de manutenção de uma cultura que não cabe mais em nossos dias, do discurso do ódio e da intolerância. Outro problema é que as Big Techs, donas das redes sociais tentam criar aquilo que chamamos de “pânico moral”, pois quando a justiça cumpre a lei, elas usam o discurso distorcido da liberdade de expressão e censura contra os direitos individuais. Porém, toda liberdade deve ser acompanhada de responsabilidade, caso contrário não é liberdade.

O pânico moral é uma estratégia das redes sociais, parecida com a “ética seletiva”. Funcionando da seguinte maneira, para os defensores do “politicamente incorreto” vale tudo se for a favor da defesa do que eles consideram “bons costumes” e “conservador”. Aliás, eles estão por todas as redes sociais junto com os neonazistas e extremistas de direita, que querem destilar sua cultura, discurso de intolerância e ódio sem limites e consequências. Por isso, são contra a PL das Fake News, que coloca responsabilidades e limites, como devem ser todas as leis

O que não pode é fazer piada com o Deus branco deles, que nem era branco. Mas, fazer piada com as outras religiões pode. Piada com a comunidade LGBTQIA+ pode. Piada com pobre pode. Piada com pessoas com deficiência pode. Piada com mulher pode. Piada com a ciência pode. Vale tudo, desde que seja contra eles e seus valores. Isso se chama racismo estrutural, simples.

E é estrutural porque está culturalmente construído desde a escravidão com aval da legislação do império, não somos mais uma monarquia, aleluia! Vamos observar as leis antes da abolição a lei do sexagenário, a lei do ventre livre, mero instrumento para enganar a Inglaterra, que aliás gerou o ditado popular “para inglês ver”. Pois, a Inglaterra combatia a escravidão e pressionava o Brasil pela abolição, que ludibriava os ingleses com leis que não tinham valor prático, levando em “banho-maria” o império britânico. Afinal, não tínhamos fiscalização contra a escravidão e ela ficava mascarada, como se o Brasil tivesse tomado uma atitude progressista, sem na verdade funcionar.

Depois da abolição parte dos escravos saíram ao “Deus dará” sem condição, trabalho, sem casa ou educação, muitas vezes continuavam escravos sem ao menos saber da sua condição. Além disso, foi criada a lei contra a vadiagem (o negro não tinha trabalho), depois criminalizaram também as religiões afro-brasileiras, a capoeira e o samba. Então, ao negro sobrou a marginalidade, além do racismo velado e garantido pela legislação. E a depreciação em todos os sentidos, que continua até hoje. O quartinho da empregada, virou a senzala moderna, pois ela só passou a ter uma legislação trabalhista depois de 2015.

Esses “homens de bem”, defensores da família, que vivem vidas escondidas, atrás da máscara da moral. Eles são o vírus e o mal da sociedade. A lei só vale lei se for a favor deles, a justiça só é justiça se for para eles e o certo só é certo se for do jeito deles, caso contrário é “mimi”.

Não, meus senhores, a sociedade mudou, estamos no século XXI chega desse tipo de humor, isso não é humor. O humor tem inteligência, se é depreciativo, não é humor. Todos temos direitos e deveres, não importa a cor, orientação sexual, se é crente (fé) ou não. O que importa é o limite do bom senso, o respeito e a lei. Essa é a proposta correta do Tratado Social que orienta uma sociedade civilizada.

E no domingo 21/05 a cereja do bolo, na Espanha tivemos mais um triste exemplo de racismo puro, contra Vinícius Júnior (o Gigante), que não é estrutural é total e cultural. Lembremos as aulas de história e geografia, a Europa colonialista (Espanha, França, Inglaterra, Holanda e Portugal) invadiram e tornaram as Américas e África suas colônias. E no jogo desse domingo entre Real Madri e Valência, vimos o mais absurdo ato de racismo do colonizador sobre o colonizado, estampando todo o ódio e intolerância que já deveríamos ter superado como sociedade.

A resposta no twitter da La Liga ao jogador, foi vergonhosa e mostrou que sua posição de culpar a vítima ao invés das torcidas dos vários times espanhóis, que já destilaram seu ódio contra uma única razão, ser o maior jogador de La Liga negro. Porque seu drible é provocação? Seus gols são provocações? Seu bailar ao comemorar os gols são provocações? Ou sua alegria é uma provocação? Não, porque ele é negro. Pergunto e se ele fosse branco? Seria um gênio! Para eles seria. Devemos aplaudir a postura do técnico Carlos Ancelotti que defendeu seu jogador e se colocou contra o racismo em sua entrevista pós jogo.

Vivemos tristes tempos que impera a distorção da verdade, favorecendo a apologia da intolerância e ódio. Devemos refletir e agir contra todos os tipos de preconceitos, sem distinção e não podemos perder a nossa capacidade de indignação, aliás ela se tornou “seletiva”. Isso é perigoso, muito perigoso. Para finalizar a coluna convido a todos refletirem o poema de Bertold Brecht, a indiferença:

“Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afetou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres,
mas como
Nunca fui religioso,
também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.”

Bora, Refletir!

Walace Soares de Oliveira, cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

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Um comentário

  1. Chris

    Um humorista contar piada pra esse jornalista não pode, mas um político e partido com histórico de corrupção podem assumir o poder e com voto dele.
    Um comediante contando piada num show dele e para um público que aceitou ir por vontade própria não muda minha vida, eu que sou negro. Agora elegerem um candidato envolvido em petrolão, em mensalão etc. muda ela, não só minha vida, mas de todos do Brasil.
    Aqui no Brasil para a imprensa o foco é acabar com os nossos palhaços e não com os reis.
    Sempre defenderei a liberdade de todos se expressarem, sejam os de esquerda, centro e de direita, e não é uma matéria de um jornalista hipócrita que mudará minha opinião, nunca .

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