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Vera Holtz e Denise Stoklos, em Londrina, um turbilhão de talentos e mensagens

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Por Livia Oliveira

Conjunção

Vera Holtz e Denise Stoklos, em Londrina, um turbilhão de talentos e mensagensEra pra ser só uma pergunta, mas a voz saiu embargada diante de tanta verdade. Neste mundo de ficções, é privilégio experimentar a nudez desembaraçada. É emocionante, é raro, é precioso. Afinal, que caminhos essa mulher trilhou para alcançar a plenitude cênica? Eu estava pensando nos processos criativos, mas recebi de volta uma voz igualmente embargada que falou da mulher (ou das mulheres). A Vera Lúcia, a Vera Holtz e todas as Veras que se somam naquela presença cheia de energia e madura jovialidade.

Com a simplicidade de quem não tem nada a esconder, Vera Holtz se pôs em cena para contar a história da humanidade, com muito humor, ironia e o jogo coletivo do qual o teatro ainda é templo. Ela veio a Londrina apresentar o espetáculo Ficções, que fala justamente sobre o labirinto de narrativas em que vivemos e, sobretudo, sobre os pactos silenciosos que firmamos para sonharmos juntos uma “realidade”.

Tinha que ser ela pra segurar a nossa mão e nos conduzir. Sem vaidade, sem intelectualismo, sem sermão e sem palestra. Apenas com a segurança de quem vive de peito aberto.

Alguém perguntou sobre a pedra gigante no cenário, talvez um fragmento do asteroide que atingiu a Terra há quase 70 milhões de anos ou simplesmente uma referência aos homens das cavernas, à idade da pedra que se lasque. É simbólico, mas não é importante, porque não estamos num cenário que remete ao temporal, mas ao eterno.

O cenário é todo aberto, sem limites explícitos entre palco e coxias. O público pode ver todo o trabalho de backstage, as trocas de figurinos e a magnífica sonoplastia – que é praticamente toda feita ao vivo. Aliás, destaque para o músico italiano Federico Puppi, que construiu a paisagem sonora cheia de suavidade, sons da natureza e muita brincadeira em momentos de improviso. “Fedi” também atua como coadjuvante em algumas cenas hilárias.

Ficções abriu a nova temporada do Filo (Festival Internacional de Londrina) 24/25. A peça de Rodrigo Portela é baseada na obra Sapiens, de Yuval Harari, com recortes afiados que colocam a filosofia em um prato e a ciência em outro na balança onde está escrito “metade DNA, metade minhas escolhas”. O monólogo rendeu à Vera Holtz um prêmio Shell, ano retrasado.

Por que escrever sobre isso? Porque fui tocada. E porque prometi à Denise Stoklos.

Corta pro final da década de 1990.

Vera Holtz e Denise Stoklos, em Londrina, um turbilhão de talentos e mensagensEu era estudante de jornalismo e tinha como atividade acadêmica escrever uma crítica teatral, sobre algum espetáculo do Filo. Eu fui assistir Desobediência Civil, com a Denise Stoklos. Foi um atropelamento fatal. Tinha tanta paixão, informação, qualidade técnica… Eu saí do Teatro Ouro Verde transtornada. Não sabia nem por onde começar uma crítica. Quem era eu àquela altura do campeonato para ousar escrever sobre uma deusa do teatro. Era muito conteúdo para meus 19 anos de idade assimilarem, mas combinava com a minha rebeldia.

Daquele espetáculo, com cenografia do Gringo Cardia, eu nunca mais me esqueci. Os televisores pendurados e a Denise se expressando vorazmente pelo palco, falando sobre Paulo Freire. A peça, inspirada nas ideias do escritor americano Henry David Thoreau, continha brasilidades. A multiartista deu sua perspectiva latino-americana.

Era uma coisa muito doida, porque ela nos constrangia com uma sequência de perguntas sobre “fazer cocô” que quase nos fazia urinar de tanto rir ao mesmo tempo em que refletíamos sobre todo o entretenimento lixo que era jogado sobre nós. Bom, pelo menos foi sobre isso que pensei na época. Mas minha professora me deu 6,5 de nota e disse que “esperava mais” de mim. A rebeldia fez “toim oim oim”. Mas para que fazer crítica, se eu podia fazer teatro? E assim, tentei.

Corta de volta pra 2025

Contei essa história pra Denise e ela disse: “escreva novamente e compartilhe o texto comigo”. Pronto. Ainda não aprendi a escrever crítica, ainda não estou à altura da artista, não tenho roupa, nem bagagem, nem vocabulário para isso. Ou, como diria o igualmente inesquecível escriturário Bartleby, “preferiria não”*. Então, me arrisco em uma espécie de crônica.

Foi no Sesc Cadeião, onde estive para assistir à leitura dramática do monólogo Um fax para Colombo. Levei minhas filhas, a mais velha tem 19 anos e – assim como eu naquela idade – viu Denise Stoklos pela primeira vez. Foi um espetáculo intimista, em uma saleta lotada – de uma plateia seleta.

Escrita em 1992, a peça é um manifesto contra todo sistema de dominação e opressão imposto por um processo colonial baseado na escravização humana e na exploração desenfreada dos recursos naturais. O texto foi produzido por ocasião das celebrações dos 500 anos do “descobrimento” da América para “desacobertar” as cicatrizes que marcam a história da América Latina. Ninguém quis patrocinar, naquela época, mas o desagravo segue vivo.

Pergunto a ela o que mudou, 33 anos depois da primeira apresentação. A resposta é quase óbvia. Infelizmente, o texto segue tão atual. Por outro lado, também não mudou o desejo por amor e liberdade no coração dessa atriz intensa. E nós? Ainda somos Hamlets, na voz de um náufrago, tentando vingar a morte do rei. Stoklos nos coloca diante dessa cruzada interminável. E dá-lhe colombada na cara.

Sentada diante de uma escrivaninha, ela relê incisivamente o fax, direcionado aos herdeiros da colombagem corrupta, cavada na miséria de gente inocente. Banhos de livros! Lixo na latrina, nunca o contrário, clama o náufrago. Os gestos são firmes, intencionais, usados com economia e precisão. A voz sustenta sessenta minutos de monólogo como quem se joga ao vai e vem das ondas, intercalando intensidade, amplitude, ternura e revoluções.

“Queremos choro e riso de gente, vibrantes”, diz o náufrago. Sim, queremos.

Esses dois espetáculos, apresentados no mesmo fim de semana, em Londrina, por duas mulheres de brilho incomparável, se mostraram como uma conjunção de estrelas que se alinham e provocam um clarão tão intenso que alguns se recusam a olhar. Uma luz que devolve a esperança, não na mudança do outro, mas na mudança do eu. Obrigada Vera e Denise por nos permitirem. Assim como vocês, sou uma mulher do interior do Brasil. Daqui, envio esse fax e espero por vossos retornos.

*“Preferiria não” é outra peça da Denise Stoklos, inspirada no conto Bartleby, o escriturário, do escritor norte-americano Herman Melville, apresentada em Londrina em 2012. 

Livia Oliveira é jornalista, escritora, Mestre e Doutora em Estudos da Linguagem ( E FLUP)

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