Por Nilson Monteiro
Lembro da expressão do Geisel, general de plantão na Presidência da República, quando lhe entregamos, em 1975, um documento com assinaturas de cinco mil universitários reivindicando a federalização da Fundação Universidade Estadual de Londrina (FUEL).
Com olhos sisudos e disfarçados de quase paternais, por detrás de lentes fundos de garrafas, mediu a ousadia daquele quinteto de universitários quase adolescentes (Paulo Silva, Tadeu Felismino, Ely Siqueira, Sidney Gobetti e eu). Seus olhos nem fuzilaram e muito menos aquiesceram.
Por segundos rígidos ou descuido proposital, disse, sem rodeios, que podíamos reivindicar sim, mas que esquecêssemos a conversa de federalização, pois o “governo não vai mais federalizar universidade coisa alguma, não vai gastar com isso”.
Não esquecemos: ele foi devidamente emoldurado na contracapa de nosso jornal, “Poeira”, em charge que nos causou algum dissabor junto à Polícia Federal. Tive que explicar, como membro do DCE, dezenas de vezes, que não era uma caricatura do Geisel, mas do generalíssimo Franco, da Espanha. Duvido que tenham acreditado, mas me liberaram em pouco tempo sem quaisquer impropérios.
Não sei qual era a expressão do então governador paranaense Álvaro Dias, ao dançar a caneta, nos anos 1990, transformando a FUEL em uma instituição pública estadual. Mas, por justiça, não se deve esquecer dessa feliz canetada.
Ah, um parêntese: o general Geisel tem atrocidades, sim, na macabra história da Ditadura que o país amargou, com sequelas perniciosas também ao movimento universitário. Mas, tem um capítulo decente em sua biografia: expurgou do Exército, por terrorismo, um certo capitão que tempos depois virou político e deu no que deu.
Sim, com toda emoção e muito orgulho, sou parte dessa História. Dessa biografia tecida desde os anos 1970, com a aglutinação de cinco cursos em salas do Colégio Hugo Simas, sob a batuta de um espanhol teimoso, Ascêncio Garcia Lopes que, como reitor, trouxe para aquele nascedouro mestres verdadeiramente mestres, tanto acadêmica como administrativamente. Não esquecerei jamais. Mas, também porque foi em uma casinha modesta, de madeira, no quintal do Hugo Simas, cedida pelo Ascêncio para a criação do Diretório Central dos Estudantes, que brotou, anos depois, o mais aguerrido movimento universitário do país, o “Poeira”. Tenho um orgulho danado disso.
Claro, nesse mais de meio século de existência, a instituição teve períodos obscuros, personagens indesejáveis, reitores incapazes, professores nocivos, desapego à ciência, desprezo à extensão, distorções aqui e ali. Assim caminha a humanidade. Ah, que ser compreensível sim, conformista jamais!
Sim, sou parte dessa História. Fui acadêmico dessa instituição desde 1971 e sou seu amante até hoje. Até sempre.
Na então FUEL, fui presidente de diretórios acadêmicos (CLCH e DCE), representante discente no Conselho Universitário e, claro, um endiabrado de longos cabelos que passou por quatro cursos em ciências humanas até receber seu diploma de Letras e Literatura Francesa, em cerimônia no Moringão, carregando na bolsa de couro (a tiracolo) a vontade de aprender sempre mais e o estímulo à dúvida, o motor do mundo.
Depois do cimento do chão do Hugo Simas, atolei meus pés no grude do barro do Perobal, destino da maioria dos cursos universitários. As perobas, naqueles tempos, ainda balançavam suas madeixas quase raras e me enchiam de doce paixão por aquela terra, por aquela arquitetura de concreto que nascia e crescia entre as árvores, por aquela gente que pisava o chão e as nuvens de sonhos.
Ventos de tantas direções, úmidos ou secos, em vez de espalhar, aterram ainda mais essas lembranças. As raízes viram troncos em meu coração de estudante.
Esse mesmo pudim nodoso quase escapou-me pela boca quando proferi o discurso de posse de presidente no DCE (75/76), escrito por nós, os “poeirentos”, protestando contra as prisões de professores da instituição na madrugada anterior. Denunciamos o desrespeito à Vida em pleno jardim da ciência, o desrespeito aos professores que eram/são o esteio do ensino e da Educação.
Pois bem, UEL, querida, sou parte desses 55 anos de sua cacunda cada vez mais menina criança. Parabéns, meu amor!
Nilson Monteiro é jornalista e escritor














