Por Marcos Defreitas
Ah, o futebol, esse monumental e divino absurdo, não cabe na frieza gélida de um telão de LED ou de um post de rede social. O futebol é a alma de joelhos diante do imponderável. E a jornada do Japão, meus amigos, nesta Copa do Mundo de 2026, começa com um nome que ecoa como um hit instantâneo na mente da galera, Zion Suzuki.
Aos 23 anos, esse jovem esbanja um foco e uma resiliência sinistros. Filho de pai ganense e mãe japonesa, nascido sob as luzes de Newark, na Nova Jersey, ele tinha o destino nas mãos. Pelas regras da Fifa, o atleta que possui dupla cidadania ou múltiplas nacionalidades pode escolher o país que vai defender até o momento em que estreie oficialmente pela seleção principal em um torneio competitivo, e Zion poderia muito bem ter optado pelos Estados Unidos ou por Gana. Mas ele ouviu o chamado do sangue materno e escolheu bater no peito pelo Japão. No dia 14 de junho, ao pisar no gramado contra a Holanda, ele fez a história chorar de emoção. Tornou-se o primeiro arqueiro negro a fechar o gol japonês em um Mundial, um detalhe que quebra qualquer preconceito e vai muito além do esporte.
O próprio nome Zion traz uma vibe bíblica, a mística de Sião, o lugar sagrado e a terra da promessa. Sabendo que o arquipélago japonês é um dos lugares mais homogêneos e tradicionais do planeta, ver esse gigante vestir a camisa número um tem um peso poético absurdo. Não é uma mera cota ou exceção, é a evolução em marcha. E digo mais, nós, aqui no Norte do Paraná, entendemos isso na pele e na alma. A nossa região tem uma ligação fortíssima e profunda com a colônia japonesa, heróis que colaram aqui no começo de tudo, desbravando o mato e fertilizando a nossa terra vermelha com uma dignidade de fazer marmanjo chorar. Eu próprio, vejam vocês, vivi essa cultura de perto, pois fui casado com uma mulher de origem nipônica, e sei bem que o rigor e a sensibilidade deles são indestrutíveis.
Zion não ganhou aquela vaga por puro marketing, mas por um talento que cala a boca dos críticos. Com seu 1,90 metro de altura, ele é o goleiro mais alto da história da seleção e hoje brilha no Parma, sendo o pioneiro de sua terra na badalada Serie A italiana. Contra os holandeses, ele voou nas traves com defesas absurdas, garantindo um empate por 2 a 2 com sabor de vitória, para logo depois o Japão vencer a Tunísia por uma goleada de 4 a 0.
Essa obstinação oriental vem de longe. Os Samurais Azuis estrearam em Copas em 1998 e nunca mais ficaram de fora, acumulando uma bagagem que explodiu em 2022, no Catar, quando o país alcançou sua melhor participação histórica ao cravar o nono lugar naquela Copa. No histórico total, são 27 jogos, 8 vitórias, 7 empates e 12 derrotas, com 31 gols marcados e 37 sofridos. Uma caminhada linda que também teve a pulsação do nosso sangue brasileiro, graças aos naturalizados que jogaram a vida pelo Japão, Wagner Lopes na Copa de 1998, o craque Alex Santos em 2002 e Marcos Túlio Tanaka no Mundial de 2010. Agora, Zion abre uma nova página cheia de representatividade, mostrando um Japão que se joga no novo sem perder sua essência.
Mas o verdadeiro milagre, o espetáculo que faz a gente recuperar a fé na humanidade, rola fora das quatro linhas. Quando o juiz apita o fim do jogo e a multidão começa a ralar do estádio, a torcida japonesa permanece. Munidos de sacos plásticos azuis, crianças, jovens e idosos recolhem até o último lixo das arquibancadas. Não há pressa, não há aquela ostentação fake dos falsos virtuosos da internet, existe apenas o desejo sincero de agradecer. E nos vestiários, os jogadores repetem o mesmo ritual sagrado, organizando o espaço até deixá-lo impecável. Ao saírem, como um aceno final de pura elegância, deixam sobre a mesa limpa uma placa simples e eterna, onde se lê “Muchas Gracias! Samurais Azuis.”
Essa postura vem do fundo da alma, porque no xintoísmo limpar é uma forma de honrar o sagrado, e no budismo é um exercício de humildade e atenção plena. Enquanto o resto do planeta se esgoela e briga na internet focando apenas nos três pontos, os japoneses dão uma aula de alegria e nos lembram de que a verdadeira grandeza de um povo mora justamente no cuidado com o que fica para trás. No fim das contas, a grande lição é saber sair de cena deixando o mundo um pouco melhor do que ele estava quando você chegou, transformando o futebol em memória, em exemplo e em pura gratidão. Afinal, quando a poeira da batalha se assenta, descobrimos que vencer na vida é a arte sublime de abraçar o outro e transformar o mundo num eterno altar de amor e generosidade.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa do Mundo















