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Editor:
Cláudio Osti

Mais um atentado numa escola, agora em diante será assim?

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Por Walace So

Buenas Pequena Londres, aí do lado da beira do Lago Igapó, para cá do lado da beira do rio Madeira em terras da Amazônia, sigo tocando em frente, um Pé Vermelho agora beiradeiro.
Enquanto terminava minha coluna sobre o atentado numa escola de São Paulo, outra tentativa de atentado aconteceu em outra escola do Rio de Janeiro.

Infelizmente é mais um dado de estatística que se torna habitual no Brasil das armas de fogo, da intolerância, dos “homens de bem” e “defensores da família”, esse é o legado do silêncio dos últimos quatro desastrosos anos. O fato que segue abaixo é o de São Paulo, infelizmente mais um na rotina brasileira, a proposta de reflexão é para todos nós em todas as cidades do Brasil.
Mais um adolescente que usava as redes sociais para mostrar seu preconceito e ódio, com histórico junto à apologia às armas, entra numa escola matando inocentes e, por bullying e outros tantos motivos, o que gera uma pessoa que não considera “pessoas” como ele. Vivemos e adoecemos como sociedade. O que vimos, continuará acontecendo se não tomarmos uma atitude e se nos calarmos.

E não ocorre somente em escolas, todos os dias “pessoas” morrem na periferia silenciosamente, pois, a morte dos excluídos não constrange mais. Da mesma forma que acontece todas as vezes que uma igreja é atacada e seus santos quebrados ou os terreiros de religiões afro-brasileiras são depredados por fiéis extremistas de outras opções religiosas, de pessoas que não aceitam pessoas diferentes.
Temos que ter uma atitude civilizatória e para nos indignarmos com esses eventos que estão se “banalizando”.

Devemos refletir sobre os últimos quatro anos que vivemos atordoados pelo medo em todos os níveis e não resistimos. Esse fenômeno se instalou em nossa sociedade, que acontece mundialmente, tal reflexão tem que ser feita urgentemente, pois como sociedade não se pode aceitar e perder nossa capacidade de indignação, solidariedade e empatia. Essa descaraterização da “pessoa” nos desumaniza. No Brasil, os autodenominados “homens de bem” e “defensores da família” vestem o manto da hipocrisia utilizando uma ética seletiva, portanto não pode ser considerada ética.
Recordemos que esse movimento já foi visto a menos de um século, pautado no discurso de defesa da liberdade de expressão, da defesa da família, da defesa de um só Deus, da moral e dos bons costumes, ele começou na Itália com as “camisas pretas” de Mussolini, chegou à Alemanha da suástica com a bandeira do antissemitismo, contra os homossexuais, ciganos e comunistas; se aliou ao franquismo na Espanha e encontrou eco no Brasil do Integralismo dos “camisas verdes” e na Argentina do golpe 1943 dos militares católicos ultraconservadores, porém entre nós e os hermanos ficou adormecido, até as ditaduras militares da década de 60. Porém, como o “ovo da serpente”, uma hora eclode e a víbora sai da casca. Esse movimento é sempre marcado pelo extremismo e negação da “pessoa” que não faz parte do seu grupo de “pessoas”.
Assim, vou resgatar e refletir sobre o julgamento de Adolf Eichmmann, bem como sobre o conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt, que continua atual, principalmente num mundo “virtual” que se mistura com o “real” e que distorce a realidade a todo instante, numa velocidade até hoje jamais imaginada; em que a imprensa sai e a rede é usada para desinformar e desconstruir em suas fábricas de fake news, contaminando a todos com o vírus da intolerância.
Eichmmann foi raptado pelo serviço secreto israelense na Argentina em 1960 que, por acaso junto ao Brasil, eram os dois refúgios preferidos dos nazistas (lembram-se de Mengele?) e levado a julgamento em Jerusalém por seus crimes. O tribunal não julgou o sistema (o nazismo) sua essência e suas ideias, bem somo tudo que tragicamente resultou desse sistema, ao qual Eichmmann pertenceu e seguiu cegamente, julgou a pessoa e seus crimes. E sua defesa justificou insistentemente que ele “cumpria ordens, nada mais que isso”, nada “fora premeditado” ou de sua iniciativa. E como todo autoritário faz, caracterizou o movimento diminuindo e negando seus crimes, renunciando dessa forma qualquer traço pessoal contido neles.
Essa típica resposta, refletida por Arendt, mostra o processo da “banalidade do mal”, pois não reconhece o “outro”. Negar o outro é negar a própria humanidade e semelhança entre nós, como se não estivéssemos na mesma condição humana e que uns são superiores a outros.
Permitir esse movimento de negação é omitir o próprio sentido “pessoal”, como se, o coletivo histérico das turbas, superassem a consciência individual, porque não se reconhece o outro como ser. Cumprir uma ordem de um coletivo cegamente, sem refletir seus significados, consciência moral e ética desse ato, é descaracterizar o crime. Assim, se despersonaliza a todos para legitimar a atrocidade, justificando o ato do algoz sobre a vítima. Porém, esse movimento se dá somente para fundamentar a ação criminosa. Dessa forma, não podemos aceitar e silenciar, a nossa voz tem que ecoar alto e longe, e deve ser para todos ouvirem, sem exceção.
E aproveito para resgatar o alerta feito por Umberto Eco em 2015, numa palestra em Turim, quando ele afirmou que as “redes sociais deram o direito a palavra a uma legião de imbecis, que antes falavam apenas nas mesas de bares, sem prejudicar a coletividade” profetizando o porvir. Num movimento que potencializou o que a televisão já tinha feito com o “idiota da aldeia”, que pela ação midiática passou a se sentir superior. Agora a legião de imbecis se sente forte e poderosa, anônima nas redes sociais, sem face. Porém, tal qual hienas que avançam diante de uma presa moribunda para seu banquete sanguinário. Esse é um processo da má utilização da tecnologia e da falta de limite dela, bem como de sua lenta apropriação por essas pessoas, que começaram comprando espaços nas televisões para programas religiosos, chegando a nossas casas pelos programas policiais e seu show de terror que mostra a criminalidade sem analisar aquilo que a gera ou em programas humorísticos grotescos que diminuem e rebaixam o ser humano grotescamente, criando a “gargalhada delirante” que resulta no escracho e deboche total.
Complemento para minha argumentação, o pensamento de um contemporâneo de Arendt, Karl Popper com seu conceito do Paradoxo da Intolerância em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de 1945 que diz:

“A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. —Nessa formulação, não insinuo, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; desde que possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em xeque frente à opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemos-nos reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, ao começar por criticar todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos com punhos ou pistolas. Devemo-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique à margem da lei e que qualquer incitação à intolerância e perseguição seja considerada criminosa, da mesma forma que no caso de incitação ao homicídio, sequestro de crianças ou revivescência do tráfico de escravos”

O argumento deve sempre existir e prevalecer, assim se faz o debate, e é nosso dever fazê-lo até o último instante sem permitir que os surdos intolerantes, extremistas, dogmáticos e fascistas ressurjam novamente. Pois, a indiferença é usada pela banalidade do mal, para construir uma cortina de fumaça e negar o direito à diversidade que é característica da humanidade. E se somos muitos povos, diferentes línguas, tantas culturas e diversas matizes de cores em nossa pele é porque somos todos humanos. Dito isso, gostaria de terminar minha reflexão com o poema de Bertold Brechet, a Indiferença:

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afetou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora me levaram a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Referência Bibliográfica:
Popper, K. (1945). The Open Society and Its Enemies, volume 1, The Spell of Plato. Routledge, United Kingdom: Princeton ed.

Walace Soares de Oliveira, cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

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