Olho para o Brasil de hoje e sinto uma náusea retrospectiva, uma vertigem diante do abismo de futilidade que nos engoliu. Vivemos na era do clique, do algoritmo canalha, do influenciador digital que vende vento e da notícia mastigada por robôs histéricos. Tudo virou uma imensa geleia geral de mentiras perfumadas e vaidades eletrônicas. Mas aí, num canto entre Londrina e Cambé, lá na Estrada da Prata, resistindo como um farol esquecido numa costa assolada pela burrice, surge a figura de Ganchão (ou José Maschio, como preferirem). Santo Deus, como precisamos de homens assim!
Ganchão não é um jornalista de gabinete, desses que pegam o boletim oficial, mudam duas vírgulas e chamam isso de “reportagem”. Não. Ganchão é da linhagem dos puros, dos obcecados, uma espécie de dinossauro magnífico que se recusa a morrer no inverno da nossa mediocridade. Ele pertence àquela velha e sagrada escola do jornalismo de estômago, onde a notícia é caçada no asfalto, na poeira das estradas, no cheiro de café frio das redações de verdade. Ele sabe que a verdade não está no filtro do Instagram; ela está na ferida aberta da realidade.
O que o Ganchão faz — e que essa nova geração engomada parece ter esquecido — é a crônica viva da condição humana. Escrever, para ele, nunca foi um exercício de relações públicas. Foi um ato de legítima defesa contra a barbárie. Quando ele escreve sobre Londrina, sobre o Paraná, sobre os invisíveis que a elite insiste em empurrar para debaixo do tapete, ele não está apenas relatando fatos. Ele está operando o coração de um país doente. Suas palavras têm peso, têm sangue, têm a dignidade dos antigos profetas que sabiam exatamente onde doía a injustiça.
Hoje, a extrema-direita inventa mentiras em série no WhatsApp e a esquerda se perde em teses acadêmicas que ninguém entende, enquanto o povo real continua órfão de voz. Ganchão é essa voz. Ele é o sujeito que olha para o caos político e social e desmascara os falsos moralistas com a precisão de um cirurgião bêbado de indignação. Ele enxerga a hipocrisia do “toma lá, dá cá”, a destruição da assistência social pelas fakenews e o abandono dos idosos e vulneráveis, traduzindo o desespero nacional em crônicas que são verdadeiros murros no estômago da nossa apatia.
Elogiar o Ganchão não é um ato de nostalgia barata. É uma necessidade de sobrevivência mental. Em um Brasil que perdeu o rumo e a vergonha, a trajetória desse jornalista nos lembra de que o pensamento crítico ainda é a nossa melhor arma. Que Deus, ou o destino, ou a própria literatura de jornal conservem o Ganchão indignado, com o dedo na ferida e os olhos bem abertos. Porque, se até os últimos dinossauros da verdade silenciarem, nós estaremos definitivamente condenados à escuridão total.
*Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal
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