
Os partidos de oposição à coalizão de ultradireita liderada por Benjamin Netanyahu em Israel está perdendo a oportunidade histórica de compor com os partidos árabes israelenses e formar um governo de conciliação multiétnica.
Com o país dividido muito antes do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, Israel tem dificuldades aparentemente insolúveis, já que é uma teocracia como estado nação judeu, discriminando seus cidadãos étnica e religiosamente diferentes.
Drusos e beduínos, por exemplo, não têm o mesmo status dos judeus como cidadãos, embora possam servir nas forças armadas. Já os árabes israelenses, 20% da população, são vetados nas forças de defesa. O estado nação judaico se configura em uma camisa de força, que impede o debate e a busca de consensos na política de Israel.
Mesmo entre a grande maioria judaica a divisão se aprofundou severamente na última década, na polarização entre extrema-direita no governo e a oposição. Um ponto de inflexão que quase leva o país à guerra civil, foi a ação do governo, liderado por Netanyahu, que tentou em 2022 impor uma reforma para limitar o poder Judiciário, rechaçada por metade da população.
Esse embate levou o país à leniência com a sua própria segurança, um fator preponderante a incentivar o grupo palestino terrorista Hamas a invadir o sul do país em 2023, massacrando 1200 civis e militares e sequestrando outros 250.
Nos anos seguintes Israel partiu para a vingança na faixa de Gaza numa guerra defensiva, mas também com ações de terrorismo de Estado contra civis. No conjunto, 70 mil morreram em Gaza.
As cidades da faixa estão hoje em ruínas. O ódio entre as partes continua a fazer vítimas tanto em Gaza como na Cisjordânia, as duas partes que deveriam compor um Estado Palestino.
Tanto terror de ambos os lados dificulta a coalizão judeu sionista com os partidos árabes para destituir Netanyahu do poder. As feridas e traumas continuam abertos. Será preciso muita coragem na oposição para fazer o movimento de conciliação com os árabes. Até esta quarta-feira somente o partido Democratas, 8 cadeiras, de esquerda, tem defendido a composição com o Ra’am e a Lista Conjunta árabe, detentores de 19 cadeiras no Knesset.
A oposição judaica obteve 48 cadeiras no Parlamento. A maioria simples de 61 cadeiras garante ao grupo o direito de governar. A coligação no poder obteve apenas 53 cadeiras. A formação de uma coalizão com os partidos árabes tornou-se o maior dilema da oposição israelense liderada por Gadi Eisenkot, do partido Yashar, para destituir Netanyahu.
As lideranças árabes já sinalizaram disposição para aceitar a “real politik” e se colocar como suporte externo a um governo minoritário de oposição.
Em uma sociedade profundamente traumatizada pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e pelos conflitos que se seguiram é forte a rejeição aos partidos árabes. As lideranças da oposição judaica temem alienar parte do seu eleitorado, que, afinal, é de direita. Da mesma forma a opção de um governo de unidade com a união do Likud e do Yashar, os dois maiores vencedores, também depende de traições às promessas de campanha. A oposição não admite continuidade de Netanyahu como premiê.
Para definir uma solução oposicionista com os árabes é necessário ignorar questões ideológicas. Os partidos árabes defendem um Estado palestino. A oposição judaica, como o próprio Eisenkot, são contrários à ideia. A oposição sionista defende que para integrar o governo é imperativo que todos reconheçam Israel como um Estado judeu e o Hamas como grupo terrorista, condições rechaçadas pelos parlamentares árabes.
Diante do impasse, o bloco liderado por Eisenkot tenta soluções intermediárias, avaliando o risco político de costurar um acordo informal que combinaria abstenção e apoio externo com as legendas árabes.
A “fórmula” para a oposição israelense constituir um governo minoritário baseia-se na regra da maioria simples no Knesset. A Lei Básica de Israel, que substitui uma Constituição, diz que um governo não precisa obrigatoriamente do voto de 61 deputados para ser empossado; a maioria simples basta.
O Knesset tem 120 cadeiras. A última eleição resultou essenciamente em três blocos. Bloco de Benjamin Netanyahu (Situação): 53 cadeiras. Bloco da Oposição Judaica (Liderado por Gadi Eisenkot): 48 cadeiras. Partidos de maioria Árabe (Ra’am e Lista Unificada): 19 cadeiras.
Para que o bloco de oposição, com suas 48 cadeiras, consiga vencer o bloco de Netanyahu, 53 cadeiras, sem colocar os partidos árabes no ministério, a oposição precisa de dissidências ou de um arranjo onde o bloco oposto reduza o número de votos.
Se os partidos árabes com seus 19 deputados simplesmente se abstiverem ou se ausentarem da sessão, o total de votos “ativos” cai de 120 para 101. Nesse cenário puramente matemático de abstenção árabe, Netanyahu ainda venceria por 53 a 48. À oposição judaica restaria tentar atrair dissidentes do bloco de extrema direita de Netanyahu para virar o placar.
Mas a “fórmula” real para a oposição vencer e montar um governo minoritário depende de dois fatores: apoio externo ativo de parte dos árabes: Em vez de uma abstenção total das 19 cadeiras, o partido islâmico moderado Ra’am, 8 cadeiras, votaria a favor da investidura da oposição do lado de fora do gabinete, enquanto a Lista Unificada, 11 cadeiras, se absteria. Nesse caso a oposição judaica com seus 48 votos somaria mais 8 do Ra’am, chegando a 56 contra os 53 do bloco de Netanyahu.
Nesse cenário, o governo minoritário seria aprovado por 56 a 53, cumprindo o requisito de ter mais votos favoráveis que contrários, sem que os partidos árabes fizessem parte do Ministério.
Entretanto, governos minoritários em Israel têm um histórico de instabilidade. Em votações cruciais o novo gabinete ficaria refém de negociações diárias e votos pontuais de parlamentares árabes ou alas independentes, em risco constante de moções de desconfiança e eventual derrubada do governo.
Com isso, Israel corre o risco de repetir a experiência de quatro eleições inconclusivas em pouco mais de três anos, de 2019 a 2022. quando Benjamin Netanyahu conseguiu, na quinta eleição, uma maioria de extrema-direita e partidos religiosos ultraortodoxos que levaram a um governo catastrófico e desfuncional. O país dividido sofreu o maior ataque terrorista da história, entrou em guerra em múltiplas frentes, tornou-se um pária internacional e vive sob ameaça existencial. O principal passo para buscar a cura e redenção é livrar-se de Benjamin Netanyahu.
*Marcos Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal
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