
Olho para a folhinha na parede e me pergunto em que esquina do tempo nós dobramos errado. No balanço manso de uma tarde de domingo, com o sol morrendo devagar atrás das empresas perto, em frente à minha casa, pego-me tomado por uma nostalgia esquisita, daquelas que fariam o sujeito do século passado rir de incredulidade: que saudades do PSDB.
Não é uma saudade ideológica, que fique claro. Nunca fui tucano. nem de me entusiasmar com relatórios fiscais ou privatizações de estatais. Minha saudade é de outra natureza. É saudade de um tempo em que a política brasileira, com todos os seus defeitos, seus conchavos e suas pompas acadêmicas, ainda sabia usar talheres.
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Havia uma elegância meio enfadonha nos tucanos. Aquela pose de sociólogo de terno bem cortado, que falava em “correlação de forças” e “estabilidade monetária” com a mesma naturalidade com que um passarinho canta na laranjeira. A gente podia divergir, podia achar o governo morno, podia criticar a falta de tempero social, mas meia hora depois de um discurso na televisão a gente conseguia dormir o sono dos justos. A política não invadia a nossa mesa de jantar. Não azedava o almoço de família.
Depois veio o bolsonarismo e, com ele, essa névoa tóxica que insiste em não dispersar. De repente, o debate público trocou o verniz da civilidade pelo grito de botequim às três da madrugada. A política deixou de ser uma discussão — ainda que muitas vezes protocolar e fingida — sobre os rumos do país e virou um estado de guerra permanente. Um esgoto a céu aberto purgado pelas telas dos celulares, onde o vizinho virou inimigo, o irmão virou traidor e o ódio virou a única moeda corrente.
O que me assusta nessa toxicidade não são apenas as ideias, mas a grosseria institucionalizada. Sentimos falta da liturgia do cargo, do respeito ao idioma, daquela velha e boa hipocrisia burguesa que, mal ou bem, mantinha as feras presas na jaula. Hoje, o insulto é a plataforma; a agressão é a meta administrativa. Transformamos o palácio em um cercadinho de ofensas gratuitas e teorias mirabolantes.
Que falta faz a calmaria chata de um debate entre um tucano e um petista de antigamente. Eles se agrediam com estatísticas. Atiravam uns contra os outros índices de inflação e metas de superávit. Era uma briga de cavalheiros que, no fundo, sabiam que o mundo continuaria girando no dia seguinte. Havia um pacto civilizatório mínimo. Sabia-se que a democracia, como a crônica, exige um certo recato, um respeito pelas palavras.
Agora as palavras perderam peso e ganharam dentes. Estão todas mordendo.
Olho a rua. As pessoas passam com os olhos fixos nas telas, alimentando-se daquele veneno diário de indignação programada. Que saudades do tempo em que a política brasileira era apenas decepcionante, e não assustadora. Que saudades de quando podíamos simplesmente esquecer quem era o presidente pôr um fim de semana inteiro e cuidar apenas de olhar a noite estrelada e ver o tempo passar.
Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal
*Os artigos assinados não necessariamente refletem a opinião deste Portal





1 comentário
O PSDB teve seu momento de grandeza na política brasileira, com méritos importantes, especialmente na consolidação do Plano Real e na estabilização econômica.
Mas perdeu identidade, discurso, lideranças e, principalmente, conexão com o eleitorado.
Hoje, parece viver das glórias do passado.
E a permanência de Aécio Neves na presidência do partido é um retrato dessa dificuldade de renovação.
Em vez de apresentar novos caminhos, o PSDB continua preso a velhas lideranças e contradições.
Um partido que já foi protagonista e hoje parece caminhar para a irrelevância.
Quase natimorto.