Abre em uma nova aba
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Publicidade

Ataque à imprensa, o álibi dos omissos

Por Cláudio Osti

por José Pedriali

Submetida a censura prévia durante boa parte do regime militar, e com jornalistas presos, torturados e mortos (estimados em 25, sendo Vladimir Herzog o mais notório), a imprensa voltou a ser ameaçada no governo petista e agora sofre bombardeio cerrado da ala radical do bolsonarismo.

Cristalizada durante o mandato de Dilma Rousseff e motivada pelas revelações da Lava Jato e mobilização para interromper o seu governo desastroso, a ofensiva petista materializou-se na proposta de “regulação da mídia”. Abortada por pressão da sociedade e do Congresso, a proposta mascarava a censura sob um conjunto de regras que limitavam a liberdade de expressão e submetiam as empresas de comunicação ao controle do Estado (e o Estado confundia-se com o partido) por meio de restrições econômicas e legais.

Não foi só: para se contrapor às verdades que não admitia, o governo petista criou uma rede de contrainformação, baseada em fakes news e ataques a seus adversários. Essa rede foi composta principalmente por blogs, financiados por empresas públicas e sindicatos alinhados ao petismo.

Jornalistas e veículos de comunicação sofreram ataques implacáveis dessa rede, que, guardadas as devidas proporções, funcionava à semelhança da Gestapo nazista. A hostilidade incluiu ameaças e agressões físicas, culminando na depredação da portaria da Editora Abril, em represália à reportagem da Veja sobre a delação do senador petista Delcídio do Amaral envolvendo Lula no butim da Petrobras.

Na campanha eleitoral do ano passado, e com a Gestapo digital petista fragilizada por falta de recursos, mas tão radical quanto no período das vacas gordas, surgiram, empunhando todo tipo de impropérios contra a imprensa e os jornalistas, os seguidores fanatizados pelo “mito” Jair Bolsonaro. A devassa de sua vida e posturas radicais, entre elas a apologia do que o regime militar praticou de mais hediondo – a tortura e o assassinato -, despertou nas hostes bolsonaristas, e em seu líder, o ódio visceral à imprensa.

O ódio persiste. E persiste porque a imprensa não se curvou, como não se curvara antes, ao mandatário de plantão, que se comporta no comando da vida nacional como o deputado que pautou a carreira na truculência verbal e absoluta falta de iniciativa e consciência parlamentar. Bolsonaro recusou, nos três primeiros meses de mandato, encontros com jornalistas e ameaçou cortar a publicidade oficial de veículos que o criticassem. Pressionado, baixou o tom.  Mas a rede subterrânea de contrainformação e difamação, controlada por um de seus filhos e operada por servidores lotados no gabinete presidencial, não dá trégua.

Essa rede se diferencia da petista porque não tem (por enquanto) financiamento público, utiliza o Whatsapp como veículo prioritário (a disseminação é mais fácil e o rastreamento mais difícil) e se apoia na legião de bolsonaristas condicionados a idolatrar o “mito” e considerar “esquerdopata”, “comunista” e “antipatriota” todo aquele que ouse criticá-lo. E sequiosa por fakes news na mesma proporção em que rejeita o noticiário sério.

O mais irônico, e ao mesmo tempo injusto, dessa campanha de hostilidade é a acusação dos bolsonaristas de que a imprensa foi “omissa” sobre os crimes praticados pelo PT. Omissa foi a maior parte dessa legião (há muitos eleitores enrustidos de Lula e Dilma em suas hostes), que somente se rebelou contra o PT graças aos alertas da imprensa. Essa horda usa a imprensa, portanto, como álibi para o seu crime de omissão e cumplicidade.

Bolsonaristas hoje, petistas ontem, ditatura anteontem: os autoritários passam, a imprensa fica. E enquanto houver imprensa livre – instituição comemorada mundialmente neste 3 de maio -, haverá o Estado de Direto.

*José Pedriali é jornalista e escritor

Gostou? Mande para quem acompanha o assunto.

Cláudio Osti
Cláudio Osti

Jornalista e editor do Paçoca com Cebola. Cobre a política de Londrina e do Paraná.

Sobre o editor
Publicidade

Leia também

4 comentários

  • Parei de ler ao chegar à bobagem escrita de que a imprensa voltou a ser ameaçada no governo petista. O resto deve ser o óbvio de quem pelo antipetismo chegou a exercer cargo de confiança no governo Beto Richa.

  • Tenho contato com alguns petistas enrustidos no meu trabalho e em redes sociais, e pelo visto a narrativa atual deles é igualar o discurso “Mídia Golpista” dos militantes do PT com a postura anti-imprensa dos apoiadores do Bolsonaro.

    Eu acho que são coisas diferentes. O “Mídia Golpista” é só uma espécie de “grito de guerra” da militância petista/psolista, que era bradado quando a imprensa noticiava algum crime cometido pelo PT, como se o crime fosse uma invenção ou coisa assim. Um discurso vazio com o único intuito de recrutar e estimular a militância, afinal, é um discurso bem heróico, o partido do povo contra o gigante da mídia. Davi contra Golias. Mas no fundo, era só isso, já que a mídia, em especial a Globo e seus jornalistas militantes de esbanjaram em isenções fiscais e repasses financeiros do Sistema S.

    Com o Bolsonaro, a coisa é um pouco diferente. Desde as eleições é visível como os jornalistas adotam uma postura antagônica, de enfrentamento em relação ao Bolsonaro por causa de sua promessa de campanha de cortar patrocínio estatal e investigar repasses nebulosos e seu posicionamento político. O monitoramento sobre ele e sua equipe política é drasticamente diferente, na era PT mal se sabia o nome de um ministro, sua capacitação, seus atos. Hoje qualquer ato ou declaração é escrutinizado ao máximo e fazem um carnaval por causa de coisas ridiculamente triviais como a história do azul e rosa, com a Globo vestindo seus jornalistas homens de rosa e as mulheres de azul como um “ato de resistência”.

    Durante as eleições você tinha algo do tamanho da Folha de São Paulo funcionando como comitê eleitoral do PT, com notícias falsas como o tal “Bolsolão do Whatsapp” assinadas por pessoas que depois foram descobertas como parentes de militantes petistas que gozaram de patrocínio estatal, e hoje continua apresentando coisas bizarras como anunciar que a filha do Lula estava vendendo ovos de páscoa artesanais e culminando com o mais recente anúncio de que o Fernando Haddad irá se tornar um colunista no jornal. Até a Veja esqueceu completamente o PT e por meses publicou edição em cima de edição pintando o Bolsonaro como um aspirante aditador neonazista.

    Enfim, a descrença com a mídia tradicional tem hoje bons motivos para florescer entre os brasileiros médios.

    • Décio Paulino

      Cacete! Como o sr. Mokvwap é um consumidor voraz das fake news produzidas nas latrinas bolsonarianas! Não só repete como parece dar crédito incondicional às besteiras que a turma do Bolsonaro despeja nas redes sociais. Quanta bobagem…

  • Pega leve Pedriali. Já na gestão Richa havia violenxia, ao lembrar do centro cívico. Essa sua pose de desconhecido leva para quem não conhece. Já sei, não teve bocaca no governo e resolveu chiar. Cala boca, jornalista?

Deixe seu comentário